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A Páscoa

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(*) Daniel Medeiros

Há pouco tempo, fiquei doente e passei vários dias sentindo muita dor, de forma aguda e persistente. Agora que estou bem, posso refletir, com calma, sobre esses dias, sem perder de vista a pequenez da minha experiência em relação às infinitas dores que habitam o mundo, mas, ao mesmo tempo, sentindo-me parte do teorema e seu inevitável corolário: a dor é a definidora da nossa existência. Quando ela vem, nada mais importa: trabalho, compromissos, amigos, aparência, modos. Mesmo os valores que cultivamos ficam por um fio (os torturadores sabem disso muito bem). A dor ocupa todos os poros do nosso corpo e fica gritando sem parar em nossos ouvidos: “dor, dor, dor”, em um exercício de narcisismo inútil. Nós sabemos, nós ouvimos, só não sabemos o que fazer com o que nos tornamos por causa dela.

Na verdade, há uma saída: atravessá-la. Manter as fibras unidas, os ossos unidos, os braços, as pernas, a cabeça. A dor é o mar revolto a ser enfrentado, as tropas inimigas a serem vencidas, as sereias sobre as pedras agudas a serem evitadas, o mistério dos males que precisamos encarar. Ela não pode ser destruída, mas pode ser superada.

No entanto, apenas atravessar a dor não basta. É preciso também dissipar a memória da dor, sua lembrança inquieta que paralisa e que abre as portas para outras moléstias. A dor é sorrateira: deixa marcas em nosso corpo para que não esqueçamos de sua existência. É preciso não se prender ao seu legado. Ninguém é verdadeiramente livre carregando o fardo da memória rediviva da escravidão. Não se trata de apagar o passado, pelo contrário. Trata-se de não deixá-lo jamais determinar o que deve haver no futuro que ainda não existe.

Até hoje muitos se perguntam por que Moisés permaneceu quarenta anos no deserto antes de chegar à Terra Prometida. Hoje, daria para ir e voltar de carro no mesmo dia. Então, por que manter seu povo tanto tempo no deserto? Porque o povo que deveria entrar naquela Terra tão sonhada tinha de ser um povo livre. Por isso, ele próprio, Moisés, conduziu seu povo até lá, mas não pôde entrar. Quarenta anos foram necessários para que as vidas e para que as memórias dos hebreus escravizados por mais de quatrocentos anos se dissipasse e um novo espírito povoasse aquela gente que ingressou naquela terra para torná-la sua.

Até hoje, judeus do mundo todo lembram “a passagem” (Pessach) dos seus antepassados, da condição de escravos para a condição de um povo livre. Uma passagem que exigiu luta e luto contra a determinação do faraó em não libertá-los e deixá-los seguir seu ciclo de vida. Na cerimônia judaica, há sempre sobre a mesa um ovo bem cozido, que representa a dureza do coração do faraó em querer impedir a renovação do povo hebreu. Só a dor o convenceu.

No cristianismo, comemora-se a Páscoa dando ovos de chocolate de presente. A releitura cristã vê a renovação na ressurreição de Jesus, após a sua via crucis. O elemento comum das duas tradições é o sacrifício, de Jesus para os cristãos, das pragas sobre o Egito, para os hebreus. Dor e vida, dor e liberdade, dor e superação. Essa é a grande lição da Páscoa. Não parece tão alegre como deveria ser. E não é. Mas é esse o suporte sobre o qual a Alegria tece o seu manto. E só a Alegria é capaz de superar a Dor.
Não faz sentido temermos a dor. O que é frustrante é não aprendermos.

Quando reduzimos a Páscoa às futilidades do consumo, às banalidades de um feriado qualquer, perdemos a oportunidade de uma reflexão que nos foi apresentada há mais de três mil anos pelos hebreus e depois repetida há quase dois mil anos pelos cristãos. A de que toda experiência com a dor é uma passagem e não um obstáculo. E, como lembrou Nietzsche, no fim do século XIX, ecoando a mesma ideia: “o que não pode nos vencer, torna-nos mais fortes”.

(*) Daniel Medeiros é doutor em Educação Histórica e professor no Curso e Colégio Positivo – @profdanielmedeiros

 

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