A Industrialização é o Melhor Caminho para o Desenvolvimento de Rondonópolis?

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(*) Luís Otávio

Recentemente, o IBGE divulgou os dados das contas regionais de 2021. Mato Grosso alcançou a liderança do PIB per capita (PIB/população) entre os estados brasileiros. Somente o DF apresenta renda per capita maior. Contudo, esse resultado precisa ser comparado com os dados da renda domiciliar per capita, da PNAD (Pesquisa Nacional de Domicílios), que indicam que Mato Grosso ocupa somente a nona posição. De forma geral, os estados com maior PIB per capita também apresentam maior renda per capita domiciliar. Com a exceção de Mato Grosso. Qual a causa dessa incongruência do desempenho matogrossense?

A minha hipótese é que a economia de Mato Grosso, baseada nas exportações de commodities agropecuárias, apresenta baixo efeito multiplicador para as demais atividades produtivas locais. Por exemplo, os insumos agropecuários são importados do exterior e de outros estados, e o agronegócio local é pouco intensivo em mão de obra. Isso faz com que, apesar das estatísticas impressionantes da produção agropecuária estadual, a geração de renda efetiva (ou seja, no extrato do salário) ser baixa. Em síntese, antes de se iludir com miragens, a prioridade deveria ser aumentar o valor adicionado e diversificar a economia de Mato Grosso.

Contudo, essa meta deve seguir a experiência bem-sucedida do agronegócio. Ao longo de décadas, o Brasil constituiu um arranjo institucional formado por leis e normas, organizações e um sistema de inovação tecnológico competitivos. A criação da Embrapa, o sistema cooperativo, os programas de pesquisa agropecuária das universidades públicas, o desenvolvimento dos contratos a termo e barter (antecipação da comercialização de grãos com a entrega de insumos), a Cédula de Produto Rural, os planos safra, Pronaf, entre outros mecanismos de governança. Terra, trabalho e clima favoráveis sempre foram abundantes no Brasil. A chave do sucesso foi a criação de instituições voltadas à ampliação da produtividade da agropecuária tropical e a garantia dos direitos de propriedade.

A partir dessa caracterização estadual, cabe a indagação de como Rondonópolis pode desenvolver a sua economia? Em grande medida, é um equívoco relacionar unicamente o desenvolvimento econômico com a expansão das indústrias. Houve uma mudança tecnológica profunda, ao longo do século XXI, em que o setor industrial perdeu relevância econômica. O mesmo que houve na segunda metade do século XX, no Brasil, com a queda da importância do setor primário. No mundo contemporâneo, a indústria tende a perder participação no PIB, pois o avanço tecnológico criou novas atividades dinâmicas que não são industriais. Pense nas corporações digitais, ou nos serviços intensivos em tecnologia.

Portanto, o grande desafio de Rondonópolis reside em ampliar a produtividade de todos os setores, especialmente, a de serviços. Ao mesmo tempo, o setor primário (agropecuária) passou a se tecnificar e a apresentar características “industriais”. Ou seja, utiliza insumos, equipamentos e serviços sofisticados, intensivos em tecnologia. A visão exagerada da importância da indústria no século XXI, assemelha-se ao equívoco dos economistas fisiocratas, no século XVIII, que argumentavam acerca da primazia do setor primário, em plena revolução industrial.

Como exemplificação do caminho que poderia ser seguido, a empresa alemã SAP, líder de sistemas de gestão corporativa, implantou um centro de desenvolvimento de aplicações para o agronegócio, em São Leopoldo/RS, em parceria com a Unisinos. Rondonópolis poderia aproveitar suas vantagens comparativas como polo do agronegócio e universitário para fazer o mesmo. Um centro de pesquisa de uma multinacional, como a SAP, seria o caminho mais rápido para atrair outros investimentos em tecnologia e dinamizar a economia local.

(*) Luís Otávio Bau Macedo é professor Associado do curso de Ciências Econômicas e do Mestrado em Gestão e Tecnologia Ambiental da Universidade Federal de Rondonópolis. Contato: [email protected]

 

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