
Recentemente a jornalista Sabina Simonato, apresentadora da Rede Globo, manifestou uma opinião polêmica sobre a questão da liberação dos estudantes das aulas em dia de Jogos da Copa do Mundo de Futebol. No dia em questão, o Brasil, antes de ser atingido pelo barco viking da Noruega, continuava em campanha pelo título e disputaria a partida contra a seleção do Japão com a transmissão acontecendo em rede nacional a partir das 14 horas de Brasília. A âncora do Bom dia São Paulo afirmou que o costume de liberação dos estudantes para o horário do jogo era uma situação problemática e que ela se colocava no lugar dos pais afirmando que as escolas deveriam realizar uma atividade diferente com as crianças, ao invés de colocar nas costas da família que “depende de deixar o filho na escola para ganhar o pão de cada dia”.
Mesmo parecendo ser uma espécie de cultura em nosso país, a possibilidade de flexibilização das jornadas escolares em dias de jogo da Copa do Mundo costuma ser justificada pelo clima de expectativa que o futebol mobiliza. De forma alguma essa liberação é uma política educacional estruturada, mas trata-se de uma concessão diante de um evento cultural que, por sua magnitude, torna difícil sustentar a rotina escolar tal como planejada. Ainda assim, a existência desse debate indica diversos pontos mais profundos, um deles é a tensão sobre a escola e o tempo dedicado às suas atividades, ou seja, a escola reconhece o valor do tempo e das atividades culturais vividas para além dos seus muros, mas sua preocupação mais evidente é a manutenção de uma jornada rigorosa e sistematicamente controlada.
Fora de ocasiões como jogos da Seleção Brasileira de Futebol em campeonatos como a Copa do Mundo, o tempo escolar do aluno segue rigidamente organizado, fragmentado em disciplinas, horários e obrigações que pouco dialogam com a experiência cotidiana. A lógica é conhecida: aprender é cumprir tarefas, avançar conteúdos, responder às avaliações. Nesse modelo, o tempo escolar se opõe ao tempo livre que é visto como a ausência do estudo, como intervalo, como aquilo que deve ser controlado, regrado para que possa ser tolerado dentro da lógica da escola.
Mas e se o problema estiver justamente aí? E se o tempo livre não for o oposto da educação, mas uma de suas condições fundamentais?
Ao reduzir o aprendizado a uma sequência de atividades dirigidas, a escola ignora dimensões essenciais da formação humana: a curiosidade que nasce sem comando, a reflexão que exige pausa, a experiência que não cabe em objetivos previamente definidos. Talvez por essa razão que as atividades que incorporam o lúdico e a autonomia produzem engajamento entre os estudantes, justamente por aproximarem o aprender da vida concreta.
A liberação antecipada em dias de jogo, nesse sentido, não deveria ser vista apenas como uma concessão ao entretenimento, mas como um sintoma. Ela revela que há outras temporalidades em disputa, e que a escola, como uma instituição social, é atravessada por elas. O futebol apenas escancara aquilo que já está presente: o descompasso entre o tempo institucional dentro da escola e o tempo vivido.
A pergunta mais incômoda talvez não seja se os alunos devem ou não ser liberados para assistir a um jogo, mas sim qual é a postura que as instituições escolares darão ênfase: a questão da regra e da fragmentação do tempo em componentes e disciplinas numa lógica intimamente ligada a uma postura neoliberal utilitarista, mercadológica e de produtividade, onde o tempo escolar é sinônimo de tempo útil, ou apoiar uma abordagem diferente onde a jornada escolar seja vista de forma mais livre numa supressão da lógica de mercado, sem as pressões de uma posição de atender aos interesses de uma preparação para a jornada de trabalho que se terá no futuro.
Como defensor da segunda possibilidade, afirmo que uma formação integral dos nossos estudantes tem mais a ganhar quando propõe-se o distanciamento entre pressupostos de uma lógica neoliberal e a escola. Diferente da interpretação que podemos fazer da fala da jornalista, a escola precisa ser um espaço onde seja possível exercer de forma mais contínua o direito ao tempo livre sem justificativas externas, um espaço de experimentação de erros e acertos de exercício com as possibilidades e com os interesses dos estudantes de modo a se aproximar do ideal de uma formação integral.
Enquanto a escola insistir em tratar a jornada escolar como algo a ser preenchido e controlado segundo princípios de utilidade, seguirá perdendo a oportunidade de formar sujeitos integrais capazes de habitar o mundo para além de suas rotinas.
Quem sabe, não se trata de olhar a escola por um viés onde não se encare a transmissão de um jogo da Copa do Mundo, como algo que interrompe a educação, mas sim de perceber que é a educação que deve ser entendida como ela própria um constante atravessamento de todos os aspectos da vida dos estudantes.
(*) Rafael Elias de Oliveira é Cientista Social e Professor da Secretaria de Estado de Educação – SEDUC/MT em Rondonópolis – Mestrando do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Rondonópolis–UFR – [email protected]
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