Rio Vermelho, Rondonópolis, Borória ou Povoação dos Rodrigues: o que há por trás do nome de uma cidade?

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(*) Clotildes Farias

Toda cidade tem um nome. Algumas carregam referências geográficas, outras homenageiam personagens, santos, povos ou acontecimentos. Com o passar do tempo, repetimos esses nomes com tamanha naturalidade que raramente perguntamos por que foram escolhidos e, sobretudo, quais outros nomes ficaram pelo caminho.

Rondonópolis poderia ter se chamado Borória. Poderia, segundo a provocação de um jornal de 1918, ter sido denominada Povoação dos Rodrigues. Antes disso, era conhecida como Rio Vermelho. No fim, prevaleceu Rondonópolis. Mas o que a sucessão desses nomes nos conta sobre a história da cidade?

Rio Vermelho talvez seja a denominação mais organicamente vinculada ao lugar. O nome não precisava de patrono, nascia da própria geografia e identificava a povoação que se formava às margens do rio. É como Rio Vermelho que encontramos a localidade em documentos das primeiras décadas do século XX e é para a “povoação do Rio Vermelho” que o Decreto nº 395, de 10 de agosto de 1915, reservou 2.000 hectares de terras.

Portanto, quando o Estado de Mato Grosso reconheceu oficialmente a existência daquele núcleo e lhe destinou um patrimônio territorial, não se falava ainda em Rondonópolis. Falava-se em Rio Vermelho. Poucos anos depois, entretanto, o nome do lugar passaria a ser objeto de uma disputa que, curiosamente, parece ter sido quase esquecida pela memória local.

Em 28 de abril de 1918, o jornal A Cruz, publicado em Cuiabá, trouxe o artigo “Prevendo o futuro”. O texto atacava duramente a atuação de Otávio Pitaluga na região e ironizava aquilo que chamou de “Rondomania”. O tom do periódico era abertamente crítico.
Segundo o articulista, Pitaluga estaria empenhado em substituir o nome Rio Vermelho e associar a povoação ao coronel Cândido Rondon. O jornal questionava por que se pretendia apagar uma denominação já conhecida e, ao mesmo tempo, silenciar aqueles que, segundo sua interpretação, haviam trabalhado efetivamente na formação da povoação.

É nesse contexto que A Cruz lança uma proposta provocadora: se o lugar precisava receber outro nome, por que não o chamar de Povoação dos Rodrigues? O jornal argumentava que os Rodrigues haviam sido “obscuros obreiros da civilização” e que seus esforços não tinham sido devidamente recompensados. Em vez do nome de Rondon, portanto, o periódico reivindicava a memória da família que associava ao trabalho de construção da povoação.

Evidentemente, a fonte exige crítica. A Cruz era um jornal católico e travava, naquele período, uma intensa disputa ideológica com Cândido Mariano da Silva Rondon e com o positivismo. Em minha pesquisa de mestrado, defendida em 2018, analisei justamente essa arena discursiva em que católicos e positivistas disputavam projetos de sociedade, especialmente no campo da política indigenista. O jornal não era um observador neutro.
Mas fontes históricas raramente são neutras. E é exatamente por isso que o artigo de 1918 é tão importante. Ele demonstra que o nome Rondonópolis não surgiu envolto em consenso. Havia incômodo, contestação e uma disputa pela memória daquele território.

O mais surpreendente, contudo, aparece no relato do próprio homem que acabou dando nome à cidade. No livro intitulado Rondon conta sua vida, obra organizada por Esther de Viveiros, Cândido Mariano da Silva Rondon afirmou que o nome Rondonópolis havia sido dado por Pitaluga àquela parte da região do São Lourenço. Ao recordar a posterior iniciativa de oficialização da denominação, Rondon foi enfático: isso teria ocorrido “malgrado os meus protestos e contra a minha vontade”.

Rondon não queria Rondonópolis, queria Borória. Segundo ele, a preferência por esse nome seria devido ao fato de que a região era anteriormente habitada pelos Bororo. À primeira vista, pode parecer apenas uma homenagem. Entretanto, o nome Borória não era estranho aos projetos de Rondon. Em seus relatos, Rondon já havia se referido à intenção de fundar uma “povoação indígena de Borória”, imaginada como um futuro centro agrícola. Ali, os indígenas, transformados, segundo a linguagem e a concepção de seu tempo, em “trabalhadores nacionais”, estariam inseridos em uma lógica de produção e de integração à sociedade republicana.

A ideia do indígena que trabalha e produz não ocupava um lugar secundário no pensamento de Rondon. Durante os trabalhos das linhas telegráficas, grupos Bororo foram empregados diretamente na construção das linhas. Minha pesquisa de mestrado recuperou esse processo e discutiu como, sob a direção de Rondon, foi estabelecida uma política simultaneamente assistencialista e tutelar, que pretendia inserir os indígenas no chamado “trabalho do mundo civilizado”.

A própria imprensa católica da época percebeu a centralidade dessa questão. Em 1911, A Cruz dedicou sucessivos editoriais ao “trabalho dos índios”, discutindo pomares, parreirais, aulas e oficinas e confrontando as informações apresentadas por Rondon sobre a capacidade produtiva indígena.

Diante disso, seria apenas coincidência a preferência pelo mesmo nome, Borória, para a região do Rio Vermelho? A documentação, até aqui, não autoriza uma resposta categórica. Não há, entre as fontes consultadas, uma declaração de Rondon afirmando que pretendia transformar o Rio Vermelho em uma reprodução daquela povoação indígena ou em uma cidade-modelo de seu projeto indigenista. Mas o cruzamento dos documentos permite indagar.

Talvez a escolha de Borória carregasse sentidos mais profundos dentro do pensamento e dos projetos de Rondon. Talvez não se tratasse exclusivamente de inscrever no nome da região uma homenagem aos Bororo, mas também de evocar uma concepção de futuro que Rondon já havia associado àquele nome: indígenas produzindo, trabalhando e sendo progressivamente incorporados à sociedade nacional idealizada pelo positivismo republicano.

São inferências e interpretações que exigem maior aprofundamento e que merecem ser tratadas em outro momento. Por ora, basta reconhecer que Borória talvez não fosse, para Rondon, uma palavra desprovida de experiências anteriores, projetos e expectativas.
A ironia histórica é difícil de ignorar. Enquanto o jornal A Cruz acusava Pitaluga de “Rondomania” e insinuava uma tentativa de glorificação do coronel, o próprio Rondon afirmaria posteriormente que protestou contra a homenagem. Pitaluga queria Rondonópolis. A Cruz sugeria Povoação dos Rodrigues. Rondon queria Borória. E o lugar continuava sendo reconhecido, nos documentos e entre seus moradores, como Rio Vermelho.

Quatro nomes e quatro maneiras de contar a história de um mesmo espaço: Rio Vermelho colocava a geografia no centro da identidade; Povoação dos Rodrigues colocaria os povoadores e o trabalho dos migrantes goianos no centro da narrativa; Borória remeteria aos Bororo, habitantes daquele território muito antes da formação da povoação, embora, à luz dos projetos indigenistas de Rondon, seja possível indagar se o nome não carregaria também outros sentidos e expectativas de futuro.

Rondonópolis monumentalizou a memória de Cândido Rondon e vinculou definitivamente a cidade à imagem do sertanista, da Comissão Telegráfica e do projeto republicano de integração territorial. Prevaleceu Rondonópolis. E talvez seja justamente aí que esteja a questão mais interessante. Os nomes das cidades não são simples palavras colocadas sobre mapas. Nomear também é selecionar uma memória.

Quando um nome prevalece, determinadas referências tornam-se visíveis. Outras, embora não desapareçam completamente, podem ser empurradas para as margens da narrativa. Quantos rondonopolitanos sabem hoje que Rondon não queria que a cidade tivesse seu nome? Quantos sabem que ele preferia Borória? Quantos conhecem a crítica publicada em 1918 sugerindo que a localidade fosse chamada Povoação dos Rodrigues?
E quantos já se perguntaram por que Rio Vermelho, nome sob o qual a povoação foi oficialmente reconhecida em 1915, deixou de identificar a futura cidade? Não se trata, evidentemente, de propor agora uma mudança de nome. A história não deve ser utilizada como um exercício infantil de apagar uma placa e colocar outra em seu lugar. Rondonópolis é Rondonópolis.

O nome atravessou gerações, produziu identidade e passou a pertencer aos seus habitantes, independentemente da vontade original de Pitaluga ou dos protestos do próprio Rondon. Mas conhecer os nomes que não prevaleceram talvez nos ajude a compreender as histórias que também não prevaleceram. Por trás de Rondonópolis continua existindo o Rio Vermelho. Por trás da homenagem a Rondon permanece a presença Bororo. E, por trás das linhas traçadas por agrimensores e dos atos assinados pelo Estado, permanecem os homens e as mulheres que abriram caminhos, levantaram casas, plantaram, comerciaram e decidiram permanecer.

Entre Rio Vermelho, Borória, Povoação dos Rodrigues e Rondonópolis, um nome venceu. A história, porém, não precisa escolher apenas um. Se Rondonópolis carrega no nome a memória de Rondon, talvez esteja na hora de perguntar: que memórias e, quem sabe, que projetos de futuro ficaram escondidos sob o nome que prevaleceu?

(*) Clotildes de Souza Farias é professora, mestre em Educação, pesquisadora independente da história regional e entusiasta da história dos personagens que marcaram a formação de Rondonópolis e do sul de Mato Grosso

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