
Caros leitores, nesses encontros e desencontros em que assistimos esse cenário internacional, estamos vivenciando profundas mudanças, observando uma variedade de interpretações sobre a realidade que mergulham Estados e regiões do capitalismo global. O pós-Guerra Fria gerou debates, colocando em dúvida a supremacia norte-americana na condução das Relações Internacionais focada em seus interesses. A crise de hegemonia dos EUA, iniciada nas últimas décadas do século passado e, os frequentes choques do petróleo, já nos primórdios do Século XXI apresentaria profundas fragilidades diante de uma insurgente ordem mundial de poder, que questionava a relevância dessa supremacia frente aos novos paradigmas emergentes globais.
Na era da ilusão desenvolvimentista segundo Giovanni ARRIGHI (1997), os sul-americanos viviam ao longo do século XX, ao passo que, os estadunidenses promoviam suas estratégias imperialistas para assegurar sua influência nos territórios continentais tidos como “periféricos” e/ou “semiperiféricos”. A complexa integração de mercado sul-americana virou prioridade sobre outros processos regionais, avançando sob a direção da organização internacional, a UNASUL (União das Nações Sul-Americanas). Essa opção é excepcional à política externa brasileira, pois suas relações políticas com o mundo estão vinculadas na liderança regional. Assim, a “integração regional” visa fortalecer o papel da América do Sul no cenário internacional em que se reflita a influência norte-americana na região.
Um dos desafios a serem enfrentados pelos países sul-americanos consiste no alto índice da margem de pobreza que afeta seus povos, cujas condições de produtividade e rendimentos atrasados promover o desenvolvimento econômico conjugado a uma política sustentável cuja consciência ambiental torna-se um desafio maior às lideranças regionais. A América do Sul vive sob dois dilemas que afetam seu desenvolvimento e é necessário trazê-los à mesa de negociação: a capacitação da mão de obra local e a relação campo-cidade. Essa preocupação com relação a esse desafio ainda está longe de ser inédito.
Durante as décadas do século passado, tem-se pensado na integração da América do Sul, porém tem-se encontrado inúmeros obstáculos não só com as divergências entre os governos locais ou em sua má vontade, problemas técnicos abandonados em segundo plano pela falta de recursos para modernizar a infraestrutura da região. Desta forma, o discurso da integração não passava de retórica e os baixos investimentos em transportes, infraestrutura urbana, grandes obras hidráulicas e energéticas, acabavam por congelar este ou aquele projeto de desenvolvimento econômico.
As precárias condições estruturais regionais colocavam em risco a produtividade de diferentes setores da economia especializada que produziam os bens duráveis. Assim, as oportunidades eram sempre limitadas tanto no âmbito da produção e modernização da economia quanto na capacidade de ampliação dos mercados, situação que obstaculizou em diferentes momentos o crescimento de empresas e a ampliação de postos de trabalho. O continente sul-americano apresentava-se como uma região de possibilidades em virtude da contradição entre os recursos naturais disponíveis e precariedade material para utilizá-los em benefício da população, sempre marcados pela acentuada pobreza e desigualdades sociais gritantes.
Isto reforça a eleição das prioridades para a superação do atraso que assola essas sociedades, e saber fazer a escolha correta se torna primordial para o futuro da integração regional. A consolidação econômica de um bloco sul-americano mais coeso e respaldado por políticas públicas e privadas fortalece as relações com os parceiros estratégicos, ao mesmo tempo dá consistência à região diante das estruturas hegemônicas do sistema internacional. Desafio posto à política externa que os países da América do Sul procuram enfrentar, isto é, adotar uma conduta alternativa diante dos EUA. Só pra exemplificar, a Bolívia, com suas reservas de hidrocarbonetos e biodiversidade, posição privilegiada para corredores de exportação na logística bioceânico, imprescindível na distribuição de gás e recursos energéticos não só voltados para a região, mas também ao mercado externo.
O sucesso da integração regional, depende da capacidade de superar os problemas crônicos que assolam a região quanto à possibilidade de os eixos produzirem intercâmbios aprofundados e duradouros. Caso estes atributos se confirmem, implicará na redução dos desequilíbrios tão visíveis entre os Estados sul-americanos. Neste contexto, é perceptível que o desejo que move os países da América do Sul esbarre em suas diferenças e objetivos evidente às regiões Andina e Cone Sul, pois a primeira apresenta integrada aos interesses de segurança dos EUA, porém, com dois cenários diferenciados: de um lado, a coexistência de atividades com a Colômbia de política de combate ao narcotráfico; de outro, difícil relação com a Venezuela, numa confrontação verbal entre ambos países.
Sendo a segunda menos condicionada a Washington, em virtude de seus Estados comporem Mercosul. Além das diversidades presentes entre a CAN (Comunidade Andina de Nações) e Mercosul, as desconfianças e atitudes individuais perpassam por dentro de cada “bloco”. A exemplo disso, enquanto a Colômbia e o Peru estabelecem acordos de livre comércio com os EUA, a Bolívia preferia voltar-se em direção ao Cone Sul. Essas problemáticas são visíveis no Cone Sul que vive uma paralisia prolongada, pois não está claro o impacto da eventual entrada da Venezuela, ao mesmo tempo em que Paraguai e o Uruguai não se sentem privilegiados na condução dos acordos locais.
O controle da produção na área energética, notadamente do petróleo e gás natural, constitui há muito tempo um dos principais objetivos das potências econômicas, mas a ascensão dos emergentes como China e Índia no contexto mundial, reforça essa intenção e evidencia a volatilidade do mundo globalizado. Esta perspectiva move países na busca de vantagens via associações benéficas com produtores que possibilitem o fornecimento e preços dos chamados hidrocarbonetos. Portanto, a bioenergia traz um viés geopolítico, pois se implementa nas relações tecno-produtivas, sociais e espaciais.
Essa busca dos recursos energéticos põe frente a frente as “regiões periféricas e semiperiféricas” na agenda dos consumidores. Tal fato impulsionou a concorrência entre grandes empresas e países por contratos com a região sul-americana. Por fim, apesar da energia estar presente em diferentes acordos do continente, seu sucesso depende superar obstáculos estruturais, técnicos, políticos, econômicos e burocráticos, assim como da efetivação de um regime negociado onde os temas regionais se sobreponham aos nacionais.
(*) Ney Iared Reynaldo, doutor em História da América, docente do Curso de Graduação em Ciências Econômicas/FACAP/UFR. E-mail: [email protected]



