Dostoiévski e a ferida que ainda sangra

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Por Orestes Miraglia

Há muitos anos, em uma das minhas incursões pela literatura universal, conheci a obra de Fiódor Mikhailovich Dostoiévski, como tantas outras que contribuíram para ampliar minha compreensão sobre a complexidade da alma humana. Algumas obras permanecem apenas como registros brilhantes de uma época; outras, porém, atravessam gerações e retornam a nós com novos significados, revelando aspectos que antes não éramos capazes de perceber. Foi assim com “A Dócil”.

Quando li essa obra pela primeira vez, compreendi sua força literária e a profundidade de seus personagens. Entretanto, anos depois, com o amadurecimento proporcionado pelos estudos em Psicologia, minha percepção sobre a narrativa ganhou uma nova dimensão. Dostoiévski deixou de ser apenas um grande escritor da literatura russa e passou a revelar, com ainda mais nitidez, sua capacidade de investigar os territórios mais profundos da mente humana: os conflitos internos, as fragilidades emocionais e os mecanismos psíquicos que podem transformar relações de afeto em espaços de sofrimento.

É justamente por isso que essa obra permanece assustadoramente atual. Ela toca em uma ferida que atravessa séculos — uma ferida que continua aberta e que, infelizmente, ainda sangra silenciosamente em muitas relações humanas.

Dostoiévski não escreveu apenas sobre uma relação destruída. Ele mergulhou em temas universais como o orgulho, o poder, a humilhação, o silêncio e a solidão, revelando como o desequilíbrio emocional pode corroer aquilo que deveria ser vínculo. Sua genialidade está em expor uma contradição recorrente da condição humana: a tendência de confundir amor com domínio, cuidado com controle e proximidade com posse.

Essa leitura encontra eco no pensamento de Erich Fromm, especialmente quando distingue o amor maduro da necessidade de possuir. Para Fromm, o amor verdadeiro exige liberdade, responsabilidade e reconhecimento da individualidade do outro. Ele não nasce da carência que busca preenchimento no outro, mas da maturidade que reconhece o outro como sujeito inteiro, e não como extensão emocional de si mesmo.

Quando essa lógica se inverte, o outro deixa de ser presença livre e passa a ser tratado como objeto de segurança afetiva. O vínculo, então, deixa de ser encontro e se converte em aprisionamento emocional.

A psicologia profunda de Carl Jung também ilumina essa dinâmica ao apresentar o conceito de “sombra”. Aquilo que o indivíduo não reconhece em si mesmo — suas fragilidades, inseguranças e conflitos não elaborados — tende a ser projetado sobre o outro. Assim, o que se tenta controlar externamente muitas vezes revela, na verdade, um descompasso interno não enfrentado.

Nesse cenário, a necessidade de domínio não se apresenta como força, mas como tentativa de compensação de uma vulnerabilidade não reconhecida.

Ainda assim, compreender os mecanismos psicológicos envolvidos jamais significa atenuar a responsabilidade de quem agride. A compreensão explica; não absolve. Ela ilumina origens possíveis, mas não desloca o peso ético das escolhas humanas.

É nesse ponto que o pensamento de Hannah Arendt se torna decisivo. Ao refletir sobre a banalização da violência, Arendt mostra como práticas destrutivas podem se tornar incorporadas ao cotidiano quando deixam de ser percebidas em sua gravidade. A violência, então, não se manifesta apenas no extremo, mas também na repetição silenciosa de pequenas formas de desumanização.

A violência contra a mulher se inscreve nesse processo de maneira particularmente dolorosa, pois muitas vezes se inicia antes do ato físico, na erosão gradual da liberdade, na desvalorização simbólica, no medo instalado e na tentativa de apagamento da identidade.

Por isso, quando uma mulher denuncia, não se trata apenas da narração de um fato. Trata-se de um gesto de ruptura. Um ato de recuperação da própria voz diante de um processo que tentou transformá-la em silêncio.

A sociedade contemporânea começa, assim, a enfrentar aquilo que por séculos foi naturalizado: a ideia de que o sofrimento poderia ser suportado em nome da manutenção de vínculos que, na verdade, já haviam se desfeito em sua essência.

Dostoiévski permanece atual porque compreendeu algo que atravessa toda análise séria da condição humana: o sofrimento se intensifica quando o outro deixa de ser reconhecido como uma existência livre e passa a ser absorvido como extensão de desejos próprios.

O encontro humano se desfaz exatamente nesse ponto, porque amor sem igualdade não é amor, amor sem liberdade não é cuidado e amor sem respeito transforma-se em sofrimento.

Quando o amor perde a capacidade de reconhecer o outro como sujeito e se converte em tentativa de posse, ele deixa de ser encontro e passa a ser uma forma silenciosa de destruição.

Talvez essa seja a grande lição de Fiódor Mikhailovich Dostoiévski para o nosso tempo: ninguém ama verdadeiramente aquilo que tenta dominar.

O amor não aprisiona, não humilha e não silencia; o amor reconhece a existência do outro. E uma sociedade que deseja ser verdadeiramente humana precisa reaprender, com urgência e profundidade, essa lição fundamental.

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