
Querer duas coisas ao mesmo tempo sabendo que se optarmos por uma, abrimos mão da outra. Isso é um dilema. O líder vive essa realidade praticamente todo dia.
Qualquer que seja seu nível ou área de liderança, se é em casa ou no trabalho, numa prosa amistosa ou na negociação, no planejamento detalhado ou na crise severa. Você será testado diariamente sobre suas escolhas contraditórias, já que se exige do líder conduta irretocável.
Aliás, a perfeição é uma utopia que persegue a liderança desde sempre. Inclusive, se perde muito tempo no exercício de liderar com foco nesse objetivo. Até porque, é no aperto que se conhece a verdade das pessoas. O resto é treino.
Um propósito genérico da liderança é influenciar pessoas em busca de resultados. Mas para obter êxito há muitos dilemas a serem vencidos pelo líder, até firmar o seu perfil próprio de liderar.
Entre eles está o de ser amado ou temido, por exemplo. Mas existem muitos outros, aparentemente mais simples, mas não menos importantes e tampouco mais fáceis de serem escolhidos. Cada um desses dilemas merece um artigo a parte no mínimo, mas vou provocar assim mesmo.
O que é mais eficaz na liderança, a autoconfiança ou a humildade? A primeira, se em excesso, pode denotar arrogância ou mesmo criar distância entre o líder e os liderados. Mas é fundamental para garantir segurança à equipe. A humildade, por sua vez, é necessária, já que cria proximidade, mas precisa de uma dose adequada, para não soar como insegurança.
A firmeza e a empatia fazem parte daquelas opções fáceis de escolher, mas difíceis de executar. Precisamos um pouco de cada, mas na dose certa. A firmeza é necessária, mas quando desmedida cria um entendimento top down, de cima para baixo, autoritário, e que é contraproducente na maioria das vezes. Já ser capaz de deliberar se colocando no lugar do outro é uma capacidade excelente, mas que pode atrapalhar muito decisões que requerem mais firmeza e menos compreensão sobre o estado emocional dos liderados. Leniência afetiva na liderança, não é um bom indicador.
Por isso, o dilema entre dirigir e apoiar sempre vem na sequência. Ser mais diretivo empresta segurança, mas reduz a participação e o engajamento. Logo, pouca coisa a ser apoiado, já que quase tudo é definido pelo líder nesse caso. Apoiar, só tem sentido efetivo quando há cocriarão, o que é fundamental em qualquer organização moderna.
Não deveria ser, mas criticar e elogiar é um dilema recorrente, principalmente para os líderes em início de carreira e os autocráticos. Não há segredo nesse quesito: todo líder precisa ser capaz de criticar e elogiar com equilíbrio. Nada desmedido, já que tanto um quanto o outro apenas tem sentido se forem genuínos e recorrentes, como os feedbacks devem ser. Os dois são fundamentais.
Os líderes mais autocráticos ainda acreditam no peso exagerado do fazer em detrimento do delegar. Creio piamente que delegar é a grande competência que se espera de qualquer liderança. Saber fazer, apenas é crucial num primeiro momento, ou quando a equipe é pequena e o fazer também faz parte das atividades temporárias do líder.
Por fim, um dilema enorme, principalmente porque ele na prática distingue o modelo de chefia do modelo de liderança: controlar e confiar. Nenhum líder consegue controlar tudo. Se ele não confiar, não lidera, no máximo gerencia. O que fatalmente apenas é possível em equipes e organizações pequenas e ainda de modo sôfrego. Se não puder confiar, algo está errado: no líder, nos liderados ou nos processos e valores.
Até a próxima.
Eleri Hamer escreve esta coluna às terças-feiras e excepcionalmente nesta quarta-feira. É empreendedor, Diretor da NextBusiness, business advisor, mentor e articulista – [email protected]



