Neste domingo, a Igreja festeja Pentecostes. Mas qual é a origem dessa festa? Que mudanças sofreu ao longo da história, na caminhada do Povo de Deus, na Bíblia? Quais os desvios que sofreu? E como o Espírito de Deus marcou presença resgatando o verdadeiro sentido? Qual o sentido para os/as seguidores/as de Cristo hoje?
O livro dos At 2,1-13, diz o que aconteceu no dia de Pentecostes. E a seguir, padre Shigeyuki Nakanose, explica tudo sobre a festa do próximo domingo:
“A festa de Pentecostes era originalmente celebrada nos agrupamentos familiares, nos clãs, nas roças… Era celebrada sete semanas após o início da colheita. Festa era comunitária, marcada pela partilha e pela solidariedade, sinal da presença de Deus no meio do povo. Era um momento de muita alegria, precedido por vários mutirões. Os agricultores e agricultoras juntavam as forças para fazer a colheita da produção de cada família. A colheita era colocada nas eiras, perto das vilas e das roças. A eiras eram um tipo de terreiro batido, como existem em nas roças e sítios, para secar café, trigo, soja, arroz ou feijão.
“Com o tempo, a festa da Páscoa foi associada a um acontecimento marcante da história de Israel: passou a lembrar a saída da escravidão do Egito (Dt 16,1-8). E a festa de Pentecostes tornou-se a festa da renovação da aliança de Deus com o povo (Dt 16,9-2). No tempo tribal essas festas eram celebradas nas casas. Mais tarde, no período pós-exílio, passaram a ser celebradas no Templo (2Rs 23,21-23) e foram transformadas em festas de Peregrinação. Todo o povo era obrigado a ir ao Templo para levar ofertas e cumprir os rituais de sacrifício. Naquele tempo havia um sistema de leis, imposto por sacerdotes e escribas, que dividia as pessoas em puros e impuros.
“E quem eram os puros? Em primeiro lugar os judeus, que se consideravam escolhidos e abençoados por Deus. Havia também outras exigências, como guardar o sábado, abster-se de comer alimentos impuros. O simples contato com uma pessoa ou coisa considerada impura era suficiente para deixar o outro impuro. Para a mulher, a situação ainda era mais complicada, pois a menstruação e até mesmo a maternidade a deixavam impura (Lv 12,1-18). Muita gente ficava de fora. Os estrangeiros não faziam parte do povo eleito por Deus, viviam uma condição permanente impureza. Os pobres e os doentes eram vistos como pecadores, pessoas castigadas por Deus (Ex 20,5; 34,7; Nm 14,18; Dt 15,16-20). Contudo, havia um jeito de a pessoa se purificar: ela devia levar ofertas ao Templo e pagar o tributo religioso em dia. Os sacrifícios para a purificação tinham um preço muito alto, impossibilitando aos pobres o cumprimento da Lei (Lv 12,8; Lc 2,24).
“Mas desde o antigo Israel, a vida estava organizada ao redor da casa; que era base da sociedade. Pois bem, Atos dos Apóstolos faz um retorno à casa. É no espaço da casa que o Espírito de Deus se manifesta. ‘Todos ficaram repletos do Espírito Santo, e se puseram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem’ (At 2,4). O dom das línguas na festa de Pentecostes, como também em outros textos dos Atos, tem um único objetivo: é para o anúncio profético da boa nova (At 4, 8.31; 19,6).
“Em seguida, a comunidade deixa o espaço da casa e vai ao encontro da multidão, assumindo assim o sentido original de Pentecostes: a abertura, a partilha e a solidariedade. As reações são diversas: confusão, perplexidade, admiração, ‘pois cada um os ouvia falar em sua própria língua’ (At 2,6b). O anúncio da boa nova chega às pessoas dentro de sua situação de vida. Todos e todas têm oportunidade de ouvir a boa nova a partir de sua própria realidade. É a Palavra de Deus que faz caminho e se torna vida na vida das pessoas.
“Nos VV. 5-11 há uma lista de 12 povos e três regiões; primeiro apresenta os nativos: partos, medos e elamitas. Em seguida cita os habitantes da Judéia, Capadócia, Ponto, Frígia, Panfília e Egito e as três regiões: Mesopotâmia, Ásia e Líbia. E um terceiro grupo enumera os estrangeiros: romanos, cretenses e árabes. Em Jerusalém encontram-se representantes de muitos povos. Isso deixa bem claro que o projeto de Deus é para todos/as, não tem fronteiras. Todos e todas são convocados/as para ouvir e viver as maravilhas de Deus.
“Na festa de Pentecostes, vivida pelas comunidades dos Atos, cada povo preserva a sua cultura e descobre o seu jeito de seguir a prática de Jesus, de conviver no meio dos pobres e oprimidos, vencendo as barreiras que impedem a convivência entre as pessoas”. Na convivência solidária e na superação das barreiras entre mulheres e homens de diferentes classes sociais, de vários grupos étnicos, de religião, a comunidade vive a experiência da presença do Espírito Santo.
(*) Pe. Ilson Lopes de Assunção Vigário Paroquial na Paróquia Nossa Senhora Aparecida



