
Foi nesse dia, em 1973, que uma menina de 8 anos foi brutalmente assassinada em Vitória, após ter sido estuprada por jovens, de classe média alta, daquela cidade. O crime, apesar de sua natureza hedionda, ficou impune e acabou prescrevendo. O abuso sexual contra crianças e adolescentes, infelizmente, é mais comum do que se imagina*, e traz consigo inúmeros prejuízos para quem sofre essa violência, desde aspectos sociais, afetivos mas principalmente danos psicológicos. Há pessoas que acreditam que agora está aumentando os casos de abusos sexuais infantis, mas a verdade é que agora se dá uma visibilidade maior, pois até há bem pouco tempo, o abuso de crianças e adolescentes era assunto proibido na sociedade. Com o número cada vez maior de casos revelados, esse tabu tem sido quebrado.
Acredito que o abuso sexual infantil é a pior forma de violência que uma criança pode sofrer, já que na maioria dos casos (cerca de 75%) o abusador é um familiar ou alguém bem próximo. Quem deveria proteger, violenta não só o corpo, como dilacera sua alma, a criança se sente então desprotegida, desamparada, com medo de que não acreditem nela, porque até para ela que sofre essa situação é difícil acreditar direito no que está acontecendo.
O abusador é cruel e desumano, se apropria do corpo infantil para obtenção de seu prazer, tratando-o como objeto manipulável, se enquadrando na categoria de perversão no sentido amplo, utilizando-se do outro a seu bel prazer.
Além do sofrimento do abuso, quando um caso é levado à tona, inicia outro processo tão prejudicial quanto o próprio ato em si, pois desencadeia vários mecanismos de negação e silenciamento, que acontecem dentro de uma aparente proteção, onde os familiares tentam contornar a situação para que não se torne público, tentando resolver o problema internamente, com receio do julgamento da sociedade. Na realidade, só se efetiva a estigmatização dentro da qual as crianças e adolescentes abusadas são consideradas casos particulares e isolados, e por isso devem permanecer em segredo. Este silêncio é exercido tanto pela sociedade como pelas vítimas.
É um trauma que modifica a história de vida da criança, necessitando de muitas formas de ajuda e amparo para conseguir seguir adiante, dentre elas apoio familiar e principalmente o atendimento psicológico especializado. O que muitas vezes não acontece.
A solução deve vir de fora, é porque internamente essa família já perdeu parte de seus valores, a criança precisa saber que o que está acontecendo com ela, não é normal, e seus cuidadores extrapolaram indo além do que podiam, e faz parte da elaboração da situação traumática a intervenção da justiça no sentido de barrar esse poder, que até então ela estava submetida. Da recepção que essa denúncia obtiver e da ajuda que se puder oferecer à criança abusada vai depender, em grande medida, a inscrição que esse ato terá em seu psiquismo. Se o abuso é reconhecido como um delito dentro do discurso social e castigado pela lei, então a elaboração desta situação terá maiores possibilidades de superação.
Espero que as ações para diminuir esse grande mal que assola a sociedade possam, de fato, se efetivarem, e que as autoridades lembrem que os abusos sexuais infantis acontecem o ano todo. A informação é o primeiro passo para modificar essa perversa realidade. (*25% das mulheres e 12% de homens sofreram abuso antes dos 17 anos).
(*) Maira Fabiana de Jesus Delgado é psicóloga em Rondonópolis



