
A rejeição do nome de Jorge Rodrigo Araújo Messias para o Supremo Tribunal Federal não foi um juízo sobre capacidade — foi um gesto de poder. Um gesto frio, calculado e profundamente simbólico. Em um ambiente institucional tensionado, o Parlamento decidiu afirmar, sem ambiguidades, que o tempo da deferência automática ao Executivo ficou para trás. E o fez ao atingir um nome que, sob qualquer critério técnico sério, seria considerado altamente qualificado.
Messias não caiu por insuficiência; caiu por excesso de contexto. Doutor e mestre pela Universidade de Brasília, formado pela histórica Faculdade de Direito do Recife, ele reúne os atributos de uma elite jurídica que, em outros tempos, transitaria com naturalidade rumo ao STF. Contudo, o Brasil de hoje não opera mais sob parâmetros convencionais: a política voltou a ditar o ritmo das instituições — e não o contrário.
O recado foi endereçado diretamente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nunca, em seus três mandatos, Lula enfrentou uma oposição tão disciplinada, numericamente robusta e estrategicamente organizada nas duas Casas do Congresso. Câmara e Senado deixaram de ser espaços de composição previsível para se tornarem arenas de enfrentamento permanente. A segunda derrota relevante, simbolizada pela aprovação do PL da Dosimetria (PL nº 2.162/23), relatado por Paulinho da Força, consolidou um novo eixo de poder: o Legislativo deixou de reagir e passou a pautar.
É nesse ponto que a análise exige franqueza intelectual: a vitória, nessa queda de braço, foi inequívoca da direita parlamentar. Mais do que barrar nomes, ela demonstrou capacidade de impor agenda e, sobretudo, de avançar sobre temas que até pouco tempo orbitavam como tabus — entre eles, mecanismos de contenção ao próprio STF. A mera circulação consistente de propostas sobre impeachment de ministros já constitui, por si só, um sintoma de mudança estrutural no equilíbrio entre os Poderes.
E, embora essas iniciativas tenham sido, até aqui, contidas pela atuação política de Davi Alcolumbre, presidente do Senado Federal e figura central na engrenagem do Legislativo contemporâneo, o fato de existirem com densidade política real não pode ser subestimado. Alcolumbre, nesse contexto, não é apenas um mediador — é um operador de equilíbrio, cuja capacidade de articulação redefine o alcance das vitórias e derrotas do governo.
Paralelamente, a Polícia Federal opera, talvez como nunca, em um nível elevado de protagonismo investigativo. Casos que tangenciam estruturas sensíveis do Estado — incluindo episódios associados ao INSS e a instituições financeiras como o Banco Master — ampliam o grau de tensão institucional. O ponto crítico, aqui, não é apenas o conteúdo das investigações, mas a resposta que delas decorrerá. Se eventuais desdobramentos atingirem figuras vinculadas ao Supremo Tribunal Federal ou ao próprio núcleo governamental, não haverá espaço para soluções cosméticas. Ou as instituições demonstram capacidade real de autocorreção — com transparência, rigor e disposição para responsabilização interna — ou a corrosão da confiança pública tornar-se-á irreversível. Em outras palavras: o país se aproxima de um momento em que “cortar na própria carne” deixará de ser retórica e passará a ser uma exigência concreta.
Nesse ambiente, o STF enfrenta talvez seu período de maior exposição desde a redemocratização. Nunca seus ministros estiveram tão visíveis, tão pressionados e tão criticados. A expansão do protagonismo judicial, decisões de forte impacto político e a condução de matérias que poderiam, em tese, tramitar em instâncias inferiores contribuíram para um desgaste que já não pode ser ignorado. A Corte, que historicamente operava como árbitro, passou a ser percebida por parcelas da sociedade como agente — e essa mutação altera profundamente sua legitimidade perante a opinião pública.
A saída de Luís Roberto Barroso, após mais de uma década na Corte, não representa apenas uma vacância formal — abre uma disputa de alta voltagem política. Em um cenário menos conflagrado, a escolha de um substituto seguiria os ritos tradicionais. Hoje, entretanto, qualquer indicação será interpretada como movimento estratégico dentro de um conflito em curso. É justamente por isso que o timing se tornou tão decisivo quanto o nome.
Diante de duas derrotas expressivas, cresce a tentação de reação por parte do Planalto. Contudo, retaliar Davi Alcolumbre, seria, sob qualquer ótica racional, um erro estratégico grave. Enfrentá-lo diretamente, neste momento, significaria ampliar o isolamento do governo e fornecer combustível adicional a uma oposição já fortalecida.
O dilema de Luiz Inácio Lula da Silva é, portanto, incontornável. Se insistir em uma nova indicação ao STF, no calor da derrota, o gesto será interpretado como provocação — e o risco de uma terceira rejeição não é desprezível. Se recuar, transmitirá a imagem de contenção forçada, o que também acarreta custo político. Trata-se de uma encruzilhada clássica do poder: agir e arriscar, ou esperar e enfraquecer-se.
Em condições normais, o nome de Jorge Messias teria prosperado. No entanto, foi exatamente ele — e o que simbolizava — que acabou pagando o preço mais visível de uma engrenagem política em rearranjo. O “preço pago por Messias” não é individual; é sistêmico. Ele traduz a fatura cobrada a um Executivo enfraquecido no Parlamento, a um STF sob escrutínio crescente e a um país cuja sociedade demonstra sinais claros de fadiga institucional. Até o dia 6 de outubro, não bastará escolher nomes; será necessário compreender projetos, identificar movimentos de bastidores e reconhecer quem, de fato, está comprometido com a estabilidade institucional — e quem apenas a instrumentaliza. Soma-se a isso um elemento novo e decisivo: o eleitor chega a esse momento extenuado, cansado e cada vez mais intolerante com o que vem vivenciando.
A democracia brasileira, portanto, será testada não apenas nas urnas, mas na capacidade de o eleitor transformar esse cansaço em discernimento. Porque, ao final, o verdadeiro preço — muito além de Jorge Rodrigo Araújo Messias — será pago por toda a sociedade, caso a lucidez não prevaleça sobre o ruído.
(*) Orestes Miraglia é jornalista, graduado em Letras e em Direito, advogado criminalista, psicólogo e radialista com atuação na Rádio 105 FM
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