
A aprovação, pela Câmara Municipal de Rondonópolis, do projeto de lei que institui o dia 24 de junho como feriado municipal em homenagem a São João Batista, padroeiro do município, trouxe novamente a religiosidade para o centro do debate público rondonopolitano. A matéria foi aprovada por unanimidade na sessão de 1º de julho, com 18 votos favoráveis, e segue para sanção do prefeito.
Naturalmente, a proposta provocou discussões. De um lado, representantes do comércio manifestaram preocupação com os impactos econômicos decorrentes de mais um feriado no calendário municipal. De outro, defensores da proposta argumentaram que a própria festividade pode movimentar setores da economia local, especialmente alimentação e a cadeia de eventos. O debate econômico existe, é legítimo e não deve ser ignorado.
Mas talvez estejamos olhando apenas para a superfície da questão. Longe da discussão entre abrir ou fechar as portas do comércio por um dia, existe algo muito mais profundo: a construção e a solidificação da identidade de um povo. Feriados não são apenas dias sem expediente. São marcos escolhidos por uma sociedade para dizer o que deseja lembrar. O calendário de uma cidade é, de certa forma, também um documento histórico. Nele estão inscritas datas, personagens, acontecimentos e símbolos que uma comunidade decidiu preservar. É justamente por isso que a instituição do feriado de São João Batista merece ser observada para além dos impactos imediatos na economia.
Afinal, qual é a história do padroeiro de Rondonópolis? A resposta que hoje parece simples torna-se mais complexa quando voltamos aos documentos. Em 29 de maio de 1949, o jornal A Capital, editado em Cuiabá, publicou uma notícia intitulada “Festa de São João Batista”. O pequeno texto anunciava que Rondonópolis se preparava “entusiasticamente” para realizar, em 24 de junho daquele ano, aquela que o próprio periódico denominou “a primeira festa de caráter religioso” da localidade. A celebração seria realizada em homenagem ao “glorioso João Batista”. É um registro precioso.
Nesse sentido, a nota no antigo jornal demonstra que a devoção a São João Batista está ligada à história religiosa de Rondonópolis há, pelo menos, sete décadas. Em 1949, quando Rondonópolis ainda era distrito de Poxoréu e vivia um processo de retomada de seu crescimento populacional e de reorganização comunitária, o dia 24 de junho já mobilizava moradores, festeiros e donativos. Os responsáveis pela organização, segundo o periódico, eram Benedito Nogueira e Carmem Oliveira Ferrer.
Ademais, Benedito Nogueira, curiosamente, aparece também em outro importante capítulo da história religiosa local. Em março daquele mesmo ano, as irmãs catequistas franciscanas Maria Bona e Maria Romani chegaram a Rondonópolis e foram inicialmente acolhidas em sua residência. A cronologia chama a atenção: em 29 de março de 1949, chegavam as religiosas franciscanas; em 29 de maio, o jornal anunciava a primeira festa religiosa de Rondonópolis e em 24 de junho, seria celebrada uma missa campal em homenagem a São João Batista.
Mas é justamente nesse ponto que o documento apresenta uma informação praticamente esquecida pela memória contemporânea da cidade. A missa, dizia o jornal, seria realizada no lugar onde deveria ser construída brevemente a igreja do “Sagrado Coração de Jesus, padroeiro de Rondonópolis”. As palavras não são minhas, estão impressas no jornal de 1949. Naquele documento, São João Batista aparece como o homenageado da primeira festa religiosa registrada pela imprensa. O Sagrado Coração de Jesus, entretanto, é quem aparece textualmente identificado como padroeiro de Rondonópolis. A informação merece atenção, sobretudo porque os acontecimentos posteriores demonstram que o projeto religioso mencionado pelo jornal efetivamente se consolidou.
No início da década de 1950, foi construída a igreja destinada ao culto do Sagrado Coração de Jesus. Aquele templo tornou-se um dos principais centros da vida religiosa da então pequena Rondonópolis. Em 16 de julho de 1959, Dom Wunibaldo Talleur criou oficialmente a Paróquia Sagrado Coração de Jesus. A atual Diocese de Rondonópolis-Guiratinga registra essa criação e a posse de Frei Antonino Schwenger como primeiro pároco. A Matriz ocuparia posição central na expansão da organização católica local.
Assim, durante as décadas seguintes, novas comunidades religiosas surgiram e Rondonópolis cresceu. E São João Batista continuou presente. A notícia de 1949 demonstra que a devoção a São João Batista não é recente. Décadas mais tarde, ela aparece consolidada na vida religiosa local e, em 2008, alcança reconhecimento civil por meio da Lei Municipal nº 5.505/2008 que o instituiu como padroeiro. Entretanto, permanece uma lacuna histórica: em que momento São João Batista passou a ser denominado padroeiro de Rondonópolis?
(*) Clotildes de Souza Farias é professora, mestre em Educação, pesquisadora independente da história regional e entusiasta da história e dos personagens que marcaram a formação de Rondonópolis e do sul de Mato Grosso
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Texto excelente e instigante. Também fiquei em dúvida com as Clotildes: Farias ou Fagundes?
Creio que, por um lapso, houve uma troca de fotografias. O texto é de minha autoria,
O texto está ótimo, é pertinente e deve ser observado pelo prefeito antes de assinar o novo decreto. Mas houve uma confusão, smj, entre o nome da autora e a foto editada pelo jornal.