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A história de vida do centenário Seu Val é algo raro e inspirador. Comunicativo e curioso, de espírito alegre e acolhedor, ele é uma demonstração da capacidade humana de seguir em frente, apesar das limitações e das provações que temos que superar ao longo dos anos.
Nascido Valfredo José Gonçalves, no dia 10 de novembro de 1925, o paraibano de Uiraúna (antiga Belém do Rio do Peixe), região semiárida por onde passou o bando de Lampião na década de 1920, distante cerca de 476 km da capital, João Pessoa, era filho dos lavradores norte-rio-grandenses José Raimundo da Cunha e Maria Plautides de Jesus, que tiveram outros 11 filhos (oito homens e quatro mulheres): Ana, Raimundo, José, Pedro, Francisco, João, Selvina, Antônia, Alcides, Maria e Manoel.
Hoje, da família numerosa de antigamente, além de Valfredo, somente a irmã Maria, mais conhecida como Titia, e Manoel, que mora em São José do Povo, estão vivos. Ela conta 98 anos e o irmão Manoel tem 97. Ou seja, parece que longevidade faz parte do DNA da família.
Segundo Valfredo, antes de se estabelecer no estado de Mato Grosso, ele e a família moraram por alguns anos na sua cidade natal, onde eles viviam exclusivamente da agricultura de subsistência, para depois se aventurarem pelo Ceará, em busca de melhores condições de vida.
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“Aquilo era um sofrimento só. Às vezes pelo excesso de sol e calor, outras vezes pela falta do que comer e até beber”, comentou.
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Ainda solteiro, no Ceará, ele descobriu o gosto pela música e a cantoria, o que amenizava as lembranças dos anos vividos no nordeste do país e a labuta diária na roça. Algo que mudou bastante em 1954, quando ele se casou com a cearense de Icó Maria José das Chagas, alguns anos mais nova, com quem ele teve seus três filhos: José, Pedro e Paulo.
De Crato (CE), ele desembarcou de ônibus em Terenos (MS), conhecida atualmente pela sua força no agronegócio e no ecoturismo, onde permaneceu cerca de quatro anos. Na época, como meeiro, parte da sua rotina era cultivar a terra, colher, ir fazer feira ou passear em Campo Grande, distante apenas 25 km dali.
Foi somente em 1958 que ele veio para a zona rural da Terra de Rondon, mais especificamente para a região das Três Pontes, comunidade da qual é um dos fundadores.
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“Quando eu vim para Rondonópolis, aqui não tinha quase nada, a não ser muito mato, bicho e poeira. Pouca gente, poucas ruas e a Praça dos Carreiros. Quando eu cheguei, a cidade só tinha a Praça dos Carreiros e duas ruas principais, a Marechal Rondon e a Amazonas. Faltava de tudo, mas tinha poeira para todo mundo. Aliás, eu vi o Marechal Rondon uma vez, mas só de longe.”
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Nessa época, ele comprou um pedaço de terra com mata virgem fiado. De segunda a sexta-feira, o trabalho na roça era quase que exclusivamente dedicado ao cultivo de arroz, cuja produção anual servia para abater a dívida contraída. Para aumentar a renda, ele trabalhava em outras propriedades também e, nos sábados e domingos, era barbeiro, ofício que ele aprendeu de forma autodidata.
Além das suas atividades na agricultura, ele participou ativamente da diretoria da Igreja Católica local, dedicando-se com fervor às atividades religiosas e aos festejos em homenagem a Santo Antônio, padroeiro da comunidade. Na década de 1970, ele se filiou ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais.
Em 1977, quando os filhos atingiram a idade de cursar a 5ª Série, ele comprou uma data do corretor João Valente, onde construiu uma casa e instalou a esposa e os filhos, permanecendo no trabalho rural na região das Três Pontes. No ano seguinte, quando a localidade passou a ter condições de oferecer as aulas, a esposa e os filhos voltaram para lá.
Como sempre gostou e esteve envolvido com questões políticas, no final da década de 1980, motivado por amigos, Valfredo se candidatou e foi eleito para assumir o comando do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rondonópolis, cargo que ocupou por 12 anos consecutivos, nas décadas de 1980 e 1990.
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“Só fui candidato. Não fiz nenhuma campanha e eu não tinha nada contra o então presidente, fundador do Sindicato, que estava lá há muito tempo. As pessoas já me conheciam e elas queriam algo novo. Então, foi muito fácil para mim. Eu acho que esse trabalho consciente em benefício de todos nós foi algo que me ajudou a ser eleito.”
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Por falar em política, embora nunca tenha se candidatado a qualquer cargo público, ele era um dedicado correligionário do PMDB, em especial por causa do advogado Carlos Gomes Bezerra, que foi prefeito de Rondonópolis em duas oportunidades, deputado estadual, deputado federal, governador e senador.
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“Um grande amigo era o Bezerra. A minha amizade com ele era tamanha que o Bezerra foi o único prefeito que permitiu que o nosso Sindicato realizasse as suas reuniões na Prefeitura”, comentou.
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No entanto, em 1997, quando morava na região da Gleba Rio Vermelho, Valfredo enfrentou uma das maiores dores da vida ao perder a esposa Maria José, que faleceu de causas naturais.
Três anos depois, ele conseguiu se recuperar física e emocionalmente e iniciou uma nova fase da vida ao lado de Erotildes, de quem se afastou três anos mais tarde, em comum acordo, pois eles decidiram residir próximo de seus familiares, como forma de garantir maior bem-estar e qualidade de vida para ambos.
Até recentemente, ele cultivava os lotes vazios que eram liberados por seus donos. Neles, ele plantava feijão e milho, cuja produção era para consumo próprio ou para distribuição gratuita entre familiares, amigos e vizinhos.
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“Eu trabalhei a vida inteira. Só parei há uns dois anos porque a família insistiu e também porque o meu corpo já não tem mais a mesma força e energia de anos atrás”, disse.
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“Hoje, a cidade é outra. Mudou demais – e é bom saber que eu fiz parte dessa mudança. Todo o lugar está crescendo e está muito bonito de se ver. Na verdade, ele não para de crescer. Andando por aí, a gente observa que o que mais tem são novas construções. A cidade está tão grande que eu não ando mais sozinho por ruas que eu não conheço, porque eu posso me perder”, disse ele, comparando a Rondonópolis de hoje com aquela de outrora.
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Aposentado, Valfredo tem sete netos (Jadson, Jaqueline, Matheus, Milena, Adriano, Pedro Henrique e Gabriel), uma bisneta (Lorayne) e um trineto (Pietro), mora com os filhos Pedro e Paulo, não usa celular e não gosta de assistir TV, algo que se tornou ainda mais habitual depois que ele se tornou evangélico, há 15 anos.
Com raras exceções, costuma ir dormir às 19h e acordar às 4h, mas mantém o ritual de ir à casa da irmã Maria e das filhas dela (Francisca e Maria) aos sábados. Detalhe: vai e volta sozinho, caminhando, num percurso de dois km (só de ida) da Vila Aurora até perto do Sesi, na Rua Pedro Ferrer.
Um de seus passatempos é ficar observando o que acontece na vizinhança e passear, fazendo constantes visitas aos entes queridos que moram mais perto dele, na Vila Aurora, próximo da Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais).
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“É preciso saber viver. Evitar o caminho do mal e fazer o bem aos outros ajuda muito nessa caminhada”, disse ele, em tom filosófico, sobre o possível segredo da sua longevidade.
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Um grande homem, pessoa abençoada por Deus e de grande valor moral.