Homo complexus

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(*) Jurandir Verneque

A Era Moderna é entendida como o período que se inicia em 1453 quando houve o fim do Império Bizantino ou, Império Romano do Ocidente, selando a decadente Idade Média. Um conjunto de transformações sucederam a este marco histórico como a chegada do homem a América, o início da criação dos Estados Nacionais, o comércio ultramarino, o Renascimento da cultura, das artes e das ciências, Reforma Protestante, Mercantilismo como sistema econômico etc.

Observa-se, pelo exposto, que o início da era Moderna foi um momento histórico pujante, pulsante e intenso em acontecimentos. Na esteira do descortinamento da cronologia histórica, a Era Contemporânea teve início com o conjunto de revoluções do século XVIII, sobretudo a Revolução Francesa em 1789.

Por outro lado, Modernidade é um conceito filosófico e sociológico que faz referência a uma mudança de mentalidade que traz a ideia de liberdade como autonomia que só pode ser alcançada com o desenvolvimento da razão. Também, por ser embrionária da corrente Iluminista e Revoluções que a sucederam, pode se definir Modernidade como início de processo de esclarecimento do homem visando construir seu próprio destino. Assim pode se inferir que a proposta do pensamento na modernidade é sobretudo livrar o homem da submissão às instituições religiosas ou quaisquer tutores da vida humana.
Logo, para atingir seus objetivos, o pensamento moderno desenvolveu características próprias como universalizar os valores morais, as artes e sobretudo a verdade, consoante se observa com Descartes apresentando um Método Científico universal para validar conhecimento descartando opiniões falsas e Kant, que, através de sua Filosofia Transcendental, apresenta as estruturas da Razão delimitando aquilo que pode ser cientificamente conhecido e o que não pode.

Referida mudança de mentalidade da modernidade pode ser compreendida como culminância de uma relação de fatos desde o início da Era Moderna histórica quando há o primeiro salto de ruptura quando o homem se assume como centro (antropocentrismo) e, como desdobramento, agora ele não se satisfaz em ser apenas o centro, mas o próprio Sujeito da verdade que se cria com a autonomia do pensamento racional.

Todavia, à luz da história e do pensamento filosófico, merece registro que, desde a transição da Idade Antiga para a Idade Média (Patrística), houve grande esforço para harmonizar Razão – germinada pela filosofia greco-romana, (Sócrates) -, com Fé – dogmas religiosos cristãos, – destacando nomes como Santo Agostinho – autor de Confissões e Cidade de Deus e São Jerônimo – tradutor da bíblia para o Latim (versão Vulgata) constituindo, deste modo, tais esforços, a origem da filosofia medieval antes do auge da Escolástica.

Malgrado a importância da Patrística, tanto a origem do pensamento Humanista como do Racional é atribuída a Tomás de Aquino, filósofo cristão Medieval. Isto porque, até o Tomismo, as formas de pensamento eram Bizantinas, e as realidades celestiais eram revestidas de um realismo indescritível, o que se percebia claramente em figuras como batistério, crucifixo e imagens, ao passo que, retratação artística de qualquer outra natureza não tinha o mesmo realismo, nem mesmo os elementos da natureza.

Na contramão do pensamento Bizantino, Tomás de Aquino sustentou a unidade entre o natural e o celeste e não a descontinuidade e dizia ter esperança de que um dia a racionalidade tivesse algo a dizer sobre ambas. Sustentava ainda Tomás de Aquino que, no Éden, apenas a vontade humana estava decaída e não o intelecto, que era autônomo, segundo o filósofo medieval.

Assim, foi na esteira do pensamento Tomista, desenvolvido pelos Renascentistas que, Kant e Rousseau, no século XVIII, ajudaram a complementar o pensamento racional sustentando a Liberdade Autônoma Através da Razão. No entanto, percebe-se claramente que as manifestações de ações sociais da Modernidade parecem ser contraditórias e desconexas diante da realidade que se descortina.
Ora, sendo certo que a Modernidade configurou o Sujeito, (emancipado e livre de quaisquer tipos de tutelarias que pudesse lhe reduzir), individuo dotado de razão, livre e autônomo para administrar os acontecimentos e gerenciar seu próprio destino, onde se está errando?

Parece indiscutível que com a caracterização do homem da modernidade como sujeito dotado de racionalidade surgem descompassos e antagonismos civilizatórios caracterizados por formação de diques onde deveriam fluir rios de empatia, solidariedade, sensibilidade para com a dor alheia, amor e cuidado. Entroncamentos e barreiras de convivência que caracterizam verdadeiros retrocessos civilizatórios.

O antagonismo na modernidade é evidente: quanto mais se fala em paz, maior passa a ser o número de conflitos; apelos e inflamados discursos contra o feminicídio, o racismo, o ódio a população LGBTQUIA+ ou pela inclusão, sociabilidade e tolerância ao outro, enfim, todas as sortes de ações e esforços visando diminuir, ou quiçá, acabar com as diferenças parecem ter efeitos contrários e cada vez mais degradantes. Colapso da possibilidade de convivência comunitária e sociabilidade. Retorno às cavernas. Barbárie!

O Tomismo tinha esperança de que a racionalidade tivesse algo a dizer sobre o natural incluindo o homem; os Renascentistas, com o Humanismo, e os Iluministas mantiveram a esperança e não apenas isto, mas também asseguraram que a partir deles estava surgindo uma sociedade onde a igualdade, a liberdade e a fraternidade seriam pilares de sustentação e coesão social. Onde erraram?
É certo que os Iluministas e seus antecessores não tiveram a cautela que teve Morin ao teorizar que somos a um só tempo biológico, psíquico, cultural, social, físico e histórico formando uma unidade podendo ser uma coisa e outra simultaneamente constituindo o homo complexus, podendo ser ao mesmo tempo sapiens e demens.

Na mesma direção, Pareto, sociólogo, sustenta que as ações humanas se distinguem em racionais e não racionais impulsionadas por sentimentos, instintos ou razões biológicas sendo as não racionais a esmagadora maioria delas.

No livro “A morte da Razão”, o autor Francis Schaeffer menciona ter lido uma matéria na The New of Boooks intitulado “O Elogio da Estultícia” e, em referida matéria o colunista sustenta que na Obra “Loucura e Civilização” Foucault se insurge contra a autoridade da razão e neste sentido, Schaeffer carimba que os racionalistas não descobriram qualquer espécie de unidade ou qualquer esperança de solução racional e ainda salienta que Foucault teve o pensamento de Rousseau à sua conclusão lógica: O polo final em liberdade autônoma é ser doido. Neste sentido, coisa excelente é ser doido, pois então se é livre.

Por fim, Morin adverte que nem todas as cartas foram jogadas ainda. A condição humana Sapiens-Demens ainda não está totalmente manifestada. Logo, prudente é manter a esperança!

(*) Jurandir Verneque Dias é professor universitário, mestre em Direito e advogado

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2 COMENTÁRIOS

  1. Nobre colega leitor,
    obrigado pelo interesse, leitura e considerações elogiosas ao modesto artigo. Observo que partem de um leitor com elevado conhecimento cientifico e, neste sentido, enobrecem o trabalho. As sugestoes, dada a relevância e pertinência, serão, sem dúvida, de imensa valia nas futuras publicaçoes. Forte abraço!

  2. Li o texto com bastante interesse e considero muito pertinente a crítica ao reducionismo técnico e à fragmentação humana da modernidade, que, em minha concepção e filiação teórica, é uma modernidade inacabada. A tentativa de recuperar uma visão mais ampla e complexa do ser humano dialoga com debates importantes da contemporaneidade, especialmente em autores como Edgar Morin, que tive o privilégio de assistir em duas aulas ainda na década de 1990, no estado de São Paulo. Naquele período, nosso professor Edgar de Assis Carvalho (parceiro intelectual de Morin no Brasil) trabalhava intensamente a questão da complexidade ao lado do pensador francês. Tínhamos, então, o privilégio de receber, nas aulas de Antropologia III em Araraquara, reflexões, hipóteses e debates que muitas vezes ainda estavam em processo de elaboração e desenvolvimento. No entanto, penso que o artigo poderia ganhar ainda mais consistência filosófica com uma delimitação conceitual mais precisa. Em alguns momentos, conceitos oriundos de tradições distintas, como, p.e., complexidade, transcendência, consciência e filosofia transcendental, parecem aproximados sem mediações teóricas mais claras. Cito especialmente a referência implícita ao “transcendental”. Em Kant, p.e., “transcendental” não se refere propriamente a uma dimensão espiritual ou metafísica do humano, mas às condições de possibilidade do conhecimento. Já em Morin, a ideia de complexidade está ligada à multidimensionalidade contraditória da condição humana, e não necessariamente a uma transcendência ontológica. Talvez uma distinção mais cuidadosa entre epistemologia, antropologia filosófica e linguagem ensaística fortalecesse ainda mais o texto, evitando certo ecletismo conceitual. Ainda assim, considero válida e necessária a provocação central do artigo, sobretudo por recolocar o debate humanista em um tempo marcado pelo tecnicismo e pela simplificação da experiência humana.

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