Sobre bandeiras e camisas

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(*) Ivanildo Ferreira

Enquanto fazia escavações de solo com colher de sopa, pincel de acabamento, calçados com meias para não danificar vestígios, liderados pelo Prof. Levy Figuti, da equipe de Denis e Agueda Vialou, observamos inscrições nos altos paredões de arenito, próprias e diferentes umas das outras ao que o mestre nos alertou: isto é muito particular. Cada abrigo rupestre tinha características únicas. De forma ligeira; é como se fosse bandeiras ou camisas de time de futebol. Aquele clã ou núcleo familiar era único e queria ser identificado ao longe, por aquela marca que simbolizava sua cosmogonia.

Pois bem; quero dizer que a Coder foi meu paredão rupestre nos últimos quarenta e poucos anos. No rastro de bancos e outras empresas estatais, imaginários, sonhos e esperanças se firmaram em ambiente acolhedor e até familiar para muitos; descansaram sob suas sombras. Entretanto, a propalada e sofismática crise financeira, a toque de caixa se decidiu pela sua liquidação. Pífias foram as manifestações de outros trabalhadores em favor da discussão republicana sobre a morte, empresa criada para executar serviços essenciais à cidade. Pelo andar da carruagem, me parece que efetivamente será liquidada.

Em recente artigo neste prestimoso Jornal, manifestei minha opinião sobre o ritual e o enredo que ainda espero ver acontecer para justificar a tal liquidação. O legislativo; caixa de ressonância da cidadania participativa, tem me parecido contínua plateia em jogos de voleibol. Assistem a bola das decisões mudar de lado, entre o executivo e o judiciário, aliás script seguido de olho nas eleições daqui a mais de meio ano. Enquanto não iniciar o tiebreaker em jogo morno de torcidas, cada um tem contado magros pontos, como na recente suspensão do percurso, noticiado pelo A Tribuna edição 11.922.

Vou chover no molhado outra vez, mas gostaria muito de ver esta história em maior profundidade e transparência. Me parece que o múnus público é tão e até mais importante que a austeridade privada. A meu ver, é impossível que uma dívida como a anunciada como causa da liquidação, seja culpa pura e simplesmente do CNPJ Coder. Também descreio que seja obra e graça dos empregados. Não sugiro caça às bruxas e nem no uso de processos para vendetas de grupos políticos oposicionistas. Entretanto a população tem o direito de participação até que a causa esteja madura, para daí sim, tocar a liquidação, se se tornarem inviáveis todas as tentativas de reanimação da empresa.

Por fim, desejo ver nossos parlamentares nos três níveis saindo das arquibancadas de plateia e vindo jogar o jogo grande; o duelo dos gigantes das ruas, praças, audiências públicas… Muito tem se criticado o protagonismo do judiciário. Entretanto, parece-me que é hora de usar outras lentes para leitura do legislativo e questionar o que ele tem feito para se desfazer esta impressão. Ah!; e deem sua imprescindível contribuição no destrinchar dos fatos e eventos que envolvem a Coder. Sempre gostei de camisas de causas nobres e sempre ostentei as minhas. Acho a camisa deles linda, única e simbológica dos bons préstimos entregues a esta cidade, inclusive, já inspirou crianças, que sonham com o serviço e profissão deles no futuro. A camisa de uso dos servidores e servidoras da Coder sempre me pareceu uma inscrição rupestre dos nossos tempos. Por isso a admiro.

(*) Ivanildo José Ferreira é professor aposentado da UFMT e advogado em Rondonópolis – e-mail: [email protected]

 

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