Etanol de milho e a escassez de biomassa: uma crise anunciada

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(*) Belmira Armando | (*) Luís Otávio

O avanço do etanol de milho no Centro-Oeste brasileiro tem consolidado o país como potência em biocombustíveis. Contudo, dados recentes acendem um alerta: o consumo de lenha proveniente de desmate em Mato Grosso cresceu 94,7% entre 2023 e 2024, passando de 2,2 para 3,7 milhões de metros cúbicos (Canal Rural, 2024). Essa tendência expõe uma contradição na transição energética nacional. Embora o etanol de milho seja considerado combustível de baixo carbono, sua produção depende de energia térmica gerada por biomassa lenhosa, muitas vezes oriunda de florestas nativas. A equação é clara, quanto mais usinas entram em operação, maior a pressão sobre os ecossistemas locais.

O eucalipto é a principal fonte energética das usinas, com poder calorífico entre 16, 46 e 19, 17 MJ/kg (Neiva et al., 20218). Entretanto, seu ciclo de crescimento, de seis a sete anos, contrasta com o ritmo acelerado de expansão industrial, já que novas usinas podem ser erguidas em apenas dois anos. Segundo o JPMorgan (The AgriBiz, 2025), a demanda por biomassa pode quase dobrar nesse intervalo, o que cria um “vazio florestal” e incentiva o uso de lenha de desmate, mesmo onde há exigência legal de planos de suprimento sustentável.

Diante disso, torna-se urgente repensar o modelo de abastecimento de biomassa em Mato Grosso. Uma solução promissora está no manejo florestal sustentável e na silvicultura em pequenas propriedades e comunidades tradicionais, combinando produção de energia, conservação ambiental e geração de renda local. Essa estratégia reduz a dependência de desmatamentos e os custos de transporte, um dos principais gargalos logísticos do setor.

De acordo com a FAO (2022) e o Serviço Florestal Brasileiro (2022), sistemas de manejo florestal comunitário, quando apoiados por assistência técnica e organização local, podem gerar resultados significativos em conservação e geração de renda. Além de ambientalmente responsável, a produção regional de biomassa é economicamente vantajosa, pois reduz perdas energéticas e custos logísticos, fortalecendo cadeias produtivas locais.

O Brasil possui ampla variedade de fontes bioenergéticas alternativas com potencial calorífico competitivo. Lima Júnior et al. (2021) apontam que o babaçu apresenta entre 18 e 19 MJ/kg, enquanto a fibra de sisal possui cerca de 15 MJ/kg. Oliveira et al. (2021) identificaram que o caroço de açaí pode alcançar 19,8 MJ/kg, e Alves et al. (2023) observaram que a casca de castanha-do-pará varia entre 17 e 18 MJ/kg. Esses valores são próximos ou superiores aos do eucalipto, evidenciando que resíduos agroflorestais e extrativistas podem complementar o suprimento energético em sistemas de cogeração e briquetagem (compactação de materiais).

Além de diversificar a matriz energética, o uso dessas biomassas reduz emissões de metano provenientes da decomposição de resíduos e agrega valor às cadeias produtivas locais. O desafio é transformar esse potencial em estratégia concreta. O planejamento florestal descentralizado, aliado à criação de polos regionais de silvicultura comunitária, pode garantir o abastecimento sustentável das usinas com madeira de manejo e resíduos agrícolas.

Estudos do WRI Brasil (2021) e da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura (2023) indicam que a produção integrada de biomassa energética, especialmente com espécies nativas e sistemas agroflorestais, pode gerar rendimentos brutos entre R$ 1.500 e R$ 4.000 por hectare/ano, variando conforme o modelo e a escala de produção. Experiências na Floresta Nacional do Tapajós, analisadas por Carvalho de Andrade et al. (2022), mostram que a cooperativa COOMFLONA movimentou entre R$ 292 mil e R$ 13 milhões por ano em manejo sustentável, totalizando mais de R$ 68 milhões em receita entre 2005 e 2019, sem comprometer a cobertura florestal.

Para que esse modelo se consolide, é necessário o apoio de políticas públicas voltadas à inclusão produtiva e ambiental, como linhas de crédito florestal, certificação e assistência técnica. Assim, comunidades e pequenos produtores podem integrar-se ao mercado bioenergético, fortalecendo a segurança energética nacional sem ampliar o passivo ambiental.

A transição energética brasileira não pode se apoiar em florestas em chamas. Para que o etanol de milho continue sendo um símbolo de sustentabilidade, sua base energética precisa ser não apenas renovável, mas também ambiental e socialmente responsável. Investir em manejo florestal comunitário e no uso racional de biomassas alternativas é transformar um risco em oportunidade, alinhando economia, energia e conservação sob uma mesma visão de futuro.

Referências:

ALVES, E. P. R. et al. Renewable Energy Potential and CO₂ Performance of Main Biomasses Used in Brazil. Energies, v. 16, n. 9, p. 3959, 2023. DOI: 10.3390/en16093959.
CANAL RURAL. Consumo de lenha de desmate cresce 94,7% em MT. 2024. Disponível em: https://www.canalrural.com.br . Acesso em: 30 out. 2025.
CARVALHO DE ANDRADE, D. F. et al. Do Mil ao Milhão: Estudo de Caso do Manejo Florestal Comunitário na Floresta Nacional do Tapajós. Biodiversidade Brasileira, v. 12, n. 5, p. 5–17, 2022. DOI: 10.37002/biobrasil.v12i5.1877.
COALIZÃO BRASIL CLIMA, FLORESTAS E AGRICULTURA. Relatório de Atividades do GT Silvicultura de Nativas. 2023. Disponível em: https://coalizaobr.com.br . Acesso em: 30 out. 2025.
FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS (FAO). O Estado das Florestas no Mundo 2022: Caminhos Florestais para a Recuperação Verde e a Construção de Economias Inclusivas, Resilientes e Sustentáveis. Roma: FAO, 2022. Disponível em: https://www.fao.org/brasil/noticias/detail-events/pt/c/1507196 . Acesso em: 31 out. 2025.
LIMA JÚNIOR, C. et al. Potencial de Aproveitamento Energético de Fontes de Biomassa no Nordeste do Brasil. Revista Brasileira de Geografia Física, v. 7, n. 2, p. 207–221, 2021. DOI: 10.26848/rbgf.v7.2.p207-221.
NEIVA, P. S.; FURTADO, D. B.; FINZER, J. R. D. Capacidade térmica e poder calorífico de biomassa eucalipto. In: II Encontro de Desenvolvimento de Processos Agroindustriais, Universidade de Uberaba, Uberaba, 31 nov. – 1 dez. 2018. Disponível em: http://eucalyptus.com.br/eucaliptos/PT43_Florestas_Energeticas_Eucaliptos.pdf. Acesso em: 30 out. 2025.
OLIVEIRA, L. S. et al. Thermal degradation of açaí seeds and potential application in thermochemical processes. Revista Produção e Desenvolvimento, v. 7, p. 531–544, 2021. DOI: 10.32358/rpd.2021.v7.531.
THE AGRIBIZ. No boom do etanol de milho, biomassa é o gargalo. 2025. Disponível em: https://www.theagribiz.com/empresas/bioenergia/no-boom-do-etanol-de-milho-biomassa-e-o-gargalo . Acesso em: 30 out. 2025.
WRI BRASIL. Estudo mostra viabilidade econômica da silvicultura de espécies nativas e dos sistemas agroflorestais. 2021. Disponível em: https://www.wribrasil.org.br . Acesso em: 30 out. 2025.

 

(*) Belmira Armando Sitoe é Bacharel em Geografia e Mestranda no Programa de Pós-graduação em Gestão e Tecnologia Ambiental da Universidade Federal de Rondonópolis – Contato: [email protected]
(*) Luís Otávio Bau Macedo é Professor Associado do curso de Ciências Econômicas e do Mestrado em Gestão e Tecnologia Ambiental da Universidade Federal de Rondonópolis. Contato: [email protected]

 

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