Aulas presenciais. O retorno

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09/02/2021 – Nº 607 – Ano 15

 

Lentamente, com os cuidados necessários já que a pandemia não acabou, e com alguns riscos, estamos voltando ao mínimo da vida em sociedade. Nesse contexto, um dos aspectos que mais tem causado discussão mundo afora é o retorno ou não das aulas presenciais para os alunos do fundamental e do ensino médio.

De início precisa ficar claro que não temos uma opção perfeita, logo não é uma decisão simples e óbvia como alguns aventam. Há sim, riscos e eventuais prejuízos de alguma parte ou de todos em alguma medida. A ideia é reduzir o impacto nefasto dessa situação.

Pessoalmente respeito a opinião daqueles que estão temerosos e entendem inseguro enviar os seus filhos para a escola nesse momento. Para isso é necessário que se garanta o ensino remoto de qualidade a todos, algo sabidamente impossível para algumas faixas etárias e especialmente para as escolas públicas, nas condições socioeconômicas atuais do nosso país.

Primeiro, porque temos falta de equipamentos e recursos tecnológicos tanto nas escolas como nas casas das famílias em função da nossa carência de investimentos em educação e notória precariedade de distribuição de renda.

Adicionalmente o tecido social que envolve boa parte das crianças está esgaçado e pouquíssimos pais reúnem tempo (já que precisam trabalhar) e condições intelectuais para acompanhar e dar suporte a seus filhos nas atividades escolares. É um faz de conta.

Nesse sentido, para quem já ocupa os últimos lugares em qualidade de ensino e aprendizagem, esse modelo duro de apenas manter o ensino remoto por decreto, sem olhar as reais condições, apenas faz aumentar o enorme abismo entre os que tem condições e os que pouco acesso possuem.

Há exemplos de países desenvolvidos, como França e Alemanha por exemplo, que mesmo estando a nossa frente e tendo enfrentado a pandemia de modo razoável, também não fizeram seu dever de casa na questão da disponibilidade dos recursos tecnológicos para garantir o ensino remoto, como pontuou a Deutsche Welle em recente artigo de opinião.

Percebe-se contudo, e não por acaso, que nesses países, a despeito dos riscos, as escolas foram as últimas a fechar e as primeiras a reabrir, como um indelével sinal de que educação é um aspecto estratégico para eles. Aqui temos priorizado abrir estádios e conceder autorização para aglomerações e confraternizações públicas. Por obviedade, não foram as escolas que fizeram a curva de contágio subir novamente.

Prefiro sempre calçar o sapato dos outros antes de emitir uma opinião. Nesse sentido, a minha convicção vem da realidade nefasta percebida, ao ter vivido um ano perdido e estressante, com minhas filhas tendo que assistir remotamente as suas aulas. Isso que elas possuem as condições tecnológicas básicas atendidas.

Ontem foi um dos dias mais felizes para elas nesse longo período, pois suas aulas presenciais voltaram. Por outro lado, me entristeço ao acompanhar o percentual significativo de alunos, principalmente das escolas públicas, que não possuem essa condição ou não lhes foi dada essa opção, cerceada via decreto.

Mais uma vez serão alijados do processo libertador da educação e do conhecimento, algo que apenas o convívio com colegas e as aulas presenciais com professores atentos são capazes de gerar nessa fase da vida. Seremos incapazes de recuperar essa perda e ficaremos eternamente em dívida com essa geração.

Além de tudo, o ambiente escolar se configura como aquele propício justamente para que as próprias medidas de biossegurança que toda uma sociedade deve adotar daqui para frente podem ser trabalhadas e nesse caso, com as escolas fechadas, isso acaba não sendo feito.

De outro, soma-se o fato de que há evidências em dezenas de pesquisas que apontam o baixo nível de transmissibilidade nessas faixas etárias. Algumas pesquisas indicam que seja de até 50% menores que a dos adultos. Associa-se o fato de que o nível de letalidade ou complicações sejam igualmente muito pequenas, sendo a maioria assintomáticas, como já é sabido.

Também é importante considerar que as vacinas existentes ou em fase de testes conclusivos não são indicadas para essas faixas etárias por enquanto, logo, nossas crianças não serão imunizadas tão cedo. A expectativa é de que o nosso país apenas alcance imunização razoável em meados de 2022. Nesse sentido, deveremos aguardar abrir as escolas presencialmente somente nesse momento?

Por fim, a Sociedade Brasileira de Pediatria e outras sociedades do gênero pelo mundo, defendem a reabertura urgente das escolas, tendo como base um conjunto robusto de evidências epidemiológicas, bem como a regressão da independência infantil, a perda de conquistas simples de autonomia, o aumento considerável de casos de ansiedade, depressão e estresse entre crianças e adolescentes durante a pandemia, associado ao número significativo de jovens que abandonaram os estudos nesse período.

Por isso, defendo que primeiramente, as escolas devem ser definidas como serviços essenciais (como de fato o são) e, por consequência, me junto a leva de profissionais de diferentes áreas e muitos pais que defendem o retorno imediato das aulas presenciais para todas as faixas etárias e todos aqueles que assim optarem, nesse ano letivo de 2021. Obviamente, obedecendo critérios de segurança pertinentes e amplamente conhecidos.

Até a próxima.

 

Eleri Hamer escreve esta coluna às terças-feiras. É empreendedor, Diretor da GoJob Brasil, business advisor, mentor e articulista – [email protected] – www.linkedin.com/in/elerihamer – Originalmente publicado no Jornal A Tribuna – www.atribunamt.com.br

 

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