As instituições escolares enfrentam grandes desafios na contemporaneidade e com ela todos os envolvidos nesse processo, o que nos leva a refletir e pensar sobre qual o papel da docência nestes cenários de incertezas. Alguns fatos colaboram para esta situação, aqui apresentaremos cinco teses que ajudam a compor o panorama em relação às dificuldades que atravessam a educação e a sociedade na atualidade.
A primeira tese que se sustenta, talvez a maior de todas, é o “falso poder” que atribuem às escolas depositando, única e exclusivamente, todo o julgo salvacionista da humanidade, e isto ocorre de forma intencional para depois culpabilizar a escola, passando a falsa impressão com a narrativa que ela é responsável pelo insucesso da sociedade. Não é justo colocar todo o poder na escola com a grande missão de transformar o mundo, sendo que a mesma, não detém todo esse poder, ela é responsável por apenas uma parte de uma totalidade maior.
A justificativa para o que se apresenta, pode estar relacionada a concepção de educação que cada um apreendeu ou têm, alguns atribuem o papel reducionista como sendo apenas escolarização, é importante aqui destacar que esta abordagem é mais ampla, segundo Brandão (2007), a educação é construída por nós em todos os espaços da sociedade e não somente na escola através da escolarização.
A segunda tese, talvez a mais problemática, e que está relacionada a anterior é a “colonização das ideologias neoliberais” que interpenetram nos espaços públicos que atualmente utilizam dos mecanismos de dominação por meio dos diversos tipos de gerencialismo, de forma a defender uma política voltada para gestão de resultados com foco voltado para as habilidades e competência, que traz no seu bojo, uma proposta de educação pautada pela reforma educacional imposta pela nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC), através da reestruturação das políticas de currículo, que ocultamente, servem a lógica da dominação e do capital que incidirá sobre o chão da escola nos próximos anos e neste contexto o papel dos professores será fundamental para mostrar que “formar é mais do que puramente treinar”( FREIRE, 2015, p.16).
A educação sempre foi um campo de disputa, nesse sentido as políticas neoliberais avançam sobre os espaços da educação, através de várias ações que são projetadas como se fossem reações em cadeia e agora lançadas sobre as escolas, com o desmonte da gestão democrática através da Portaria 454/2020/GS/SEDUC/MT, publicada no diário oficial do dia 03 de setembro de 2020, suspendendo a eleição para a função de diretor das escolas, retirando o direito da comunidade escolher o seu representante democraticamente. Deste modo, percebemos que a retomada do poder pelos governos de direita ameaça a nossa democracia, em suas várias dimensões, os ataques são de todas as ordens, agindo desta forma, as ideologias neoliberais preparam o terreno gradativamente para instalar e fortalecer.
Nesse sentido, enquanto educadores e sujeitos reflexivos, precisamos fazer do ato educativo um processo contínuo de ação-reflexão-ação, este processo envolve várias dimensões, ter a consciência que “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para a produção ou sua construção (FREIRE, 2015, p.124). Igual apregoa a política educacional defendida pela atual BNCC, com a prescrição de um currículo universal e linear sem levar em consideração as grandes diferenças culturais, diversidade e pluralidade que existem em nosso país, uma formação com foco nas habilidades e competência, como se fossemos receptáculos de conteúdo, sem percepção crítica da realidade.
A terceira tese problematiza as causas que impedem a emancipação dos sujeitos e da sociedade, nesse sentido o professor/ra reflexivo por meio de uma práxis educativa crítica, na relação com o educando/a discutirá a realidade e os caminhos para esta libertação, aceitar que não somos detentores de todo o conhecimento e reconhecer através prática a “capacidade de viver e aprender com o diferente” (FREIRE, 2015, p.18). Desconstruir o discurso que anda solto no mundo que não há como mudar a realidade, que “insiste em nos convencer de que nada podemos contra a realidade social que, de história e cultural, passa a ser ou a virar ‘quase natural’ (FREIRE, 2015, p.18)”. Temos que nos convencer que não há outra saída, a não ser romper com as formas de dominação através da militância coletiva e com mudanças de atitudes.
Nesse sentido o professor/ra torna-se essencial para mediar este processo, para que ocorra essa desconstrução, neste percurso não podemos perder de vista a amorosidade e o respeito uns pelos outros, é necessário inserir-nos no processo, cada sujeito tem que construir a sua autonomia reificado ou não, a mudança de atitude deve começar por nós mesmos, sendo esta, a primeira e grande ação transformadora.
A quarta tese baseia-se no fortalecimento do papel docente, acreditamos que pensar à docência em Freire possibilita uma reflexão teórica sólida, capaz de incitar o desejo, por transformação através da sua pedagogia humanizadora e problematizadora, reconhecendo como diria esse educador, que somos seres inacabados e termos a consciência e humildade deste inacabamento. Nesse sentido, Carvalho (2020), ao falar sobre “Formação e Docência: Processos Críticos e Dialógicos”, traz alguns elementos para esta formação teórica docente.
[…] Por isso, o ato pedagógico, que requer formação e docência nos processos críticos dialógicos, incita à pergunta e desperta a curiosidade da busca que leva à superação do conformismo, à mobilização da ampliação do saber e ao engajamento a transformação do mundo. (CARVALHO, 2020, p. 23)
Quinta tese é a naturalização dos fatos, talvez essa esteja relacionado ao resultado da formação do sujeito, com características anti-humanas, lógica construída pelo capital, como o a individualização, cada vez mais forte no sentido de desagregação coletiva, o desamor, a incapacidade de sensibilizar com as situações vistas no cotidiano, como por exemplo, as mortes provocadas pela pandemia, os vários crimes hediondos que atentam contra a vida, que são divulgados pelas mídias e vários outros exemplos como as atitudes antiecológicas, enquanto alguns contrapõem estas posturas necrófilas outros parecem não sensibilizarem.
É emergente enquanto educadores/ras reflexivos e críticos conscientes da nossa grande missão educativa, refletir sobre qual a concepção de educação que perpassa pela minha prática, sobre o tipo de sujeitos estamos formando, para qual projeto de sociedade? Problematizar nos espaços escolares, com os educandos/as toda a realidade vivenciada, pensarmos juntos em outros projetos de civilidade, equilibrar o realismo e a utopia e acreditar que é possível um outro mundo, que seja mais humano, justo e fraterno.
(*) Clatione Almeida de Magalhães é mestranda em Educação/UFMT/UFR e Profª. de Biologia da Educação Básica da Rede Estadual/MT. Escola Marechal Dutra
(*) Mayara Carlotto de Novais é mestranda em Educação/UFR, professora de Ciências Biológicas na rede Estadual de Ensino em MT



