A semana da pátria no contexto de pandemia caracteriza como verdadeiro tempo do grito pela vida, na perspectiva do resgate do sentido de viver a esperança. Apesar das contradições sociais em que a população está submetida, no tempo de ascensão do estágio de empobrecimento econômico, político e cultural, no mundo golpeado pela desesperança, na travessia do deserto existe uma luz, que indica o caminho da liberdade.
No tempo adverso da pandemia, tudo se torna trágico, quando os direitos à vida digna, não se transforma em primeiro lugar para os pobres. A pessoa humana, sobretudo, a que foi empobrecida é a riqueza da humanidade, porque é o sujeito que trabalha, produz riqueza e circula o mundo do consumo, por isso que é fundamental a defesa intransigente de sua vida. A nação que não cuida da natureza e deixa ser destruída pelo fogo a sua floresta, precisa ser repensada profundamente. O cuidado e respeito a casa comum é o caminho da independência que coloca a pessoa humana, como protagonista de seu próprio desenvolvimento sustentável.
A semana da pátria, tempo que referencia a independência, é um tempo fértil para o envolvimento na luta por justiça social, por uma sociedade solidária e reafirmação da democracia participativa, comprometida com a inclusão social. É o tempo formidável para pensar na descolonização de “mentes e corações”, que estão algemados ao conservadorismo social, que resiste a lutar pela formação de sujeito coletivo, para civilização do amor.
A pátria desejada é aquela em que a riqueza produzida pelo trabalho humano seja distribuída de forma equitativa para todos os seus filhos. O que se busca é uma pátria livre, uma sociedade democrática que possa dar visibilidade aos pobres, ao acesso e permanência a educação pública de qualidade social. Uma pátria que passa a ajudar a fortalecer a luta popular pela “defesa da vida, por terra, teto e trabalho” para todos. Essa semana da pátria no tempo da pandemia, tempo adverso de ceifamento da vida, para potencializar a discussão sobre as políticas públicas, que possa superar a situação de expropriação da maioria da população que vive à margem da periferia existencial, social e econômica. “Basta de miséria, preconceito e repressão”, racismo, ódio e genocídio social.
A semana da pátria é o tempo para refletir sobre a independência do povo, para promover a ruptura do projeto de civilidade que está em andamento, a serviço da formação humana na subjetividade do capitalismo neoliberal. Projeto que produz a mercadorização, engessamento e burocratização da mente social, como agente da negação do conhecimento e da política, como instrumento fundamental para o desenvolvimento humano. Ao contrário, queremos uma pátria que seja a indutora da inclusão social, não da desigualdade e indiferença com os pobres.
O espaço que se coloca a massa popular é da resistência, esperança e luta, para reflexão do modelo de desenvolvimento, para o bem-viver. Portanto, faz-se urgência, que a população, sobretudo, os movimentos populares passem a “ocupar os espaços públicos e exigir do Estado a garantia e a universalização dos direitos básicos. De modo ativo, lutar contra a privatização dos recursos naturais, bens comuns e contra as reformas que retiram direitos dos trabalhadores e trabalhadoras” (Sassatelli, ihu, 4/9/20).
A nação que não foi capaz de promover a ruptura com o trabalho escravo, miséria absoluta, concentração de propriedade e riqueza ainda permanece em dívida com a democracia plena. Levanta-se o meu povo, resista. “ouça! Aqui a teu lado eu estou, levantam a voz, juntos cantam de alegria, frente a frente” (Is,52,6), para reconstrução da liberdade da pátria.
Caminhando e cantando. Semana da pátria é o tempo precioso, para pensar o laço de pertença, ao mesmo povo que constitui a identidade da nação, que precisa ser tratado e cuidado com equidade social. Isso implica investimento em educação, para ajudar no desenvolvimento da consciência política, ética e práxis solidária do povo que está na luta para o bem-viver. Assim a democracia se faz sólida no resgate da memória da verdade, justiça e liberdade sucumbida no porão da história de nossa independência.
Neste tempo do mundo em estágio de ebulição, a humanidade para evoluir a esfera superior de sua dignidade, precisa redescobrir a alegria da partilha e ao real sentido da solidariedade, para dar um novo rosto a pátria independente, povoada de humanos. A vida é um processo de reinvenção, por isso que, o passado está sempre presente, como condição que alimenta a esperança de luta para construção e transformação permanente da realidade social injusta.
Frente a difícil missão do seguimento do projeto do reinado da libertação, na práxis da vida cotidiana, é necessário dar testemunho da prática da justiça, para não cair na armadilha da hipocrisia e iniquidade política e religiosa fundamentalista, como arte do disfarce de sua razão de ser, enquanto instrumento de aniquilamento da subjetividade da espiritualidade radical. Na tribulação pandêmica, queimada, travessia do túnel da pátria revestida de fumaça e mobilização eleitoral é preciso viver a esperança, que forja a nova história, como sinal de refundação republicana.
Enfim, diante do medo e ansiedade que causa pânico, no tempo pandêmico, resta-nos a sabedoria para ecoar o grito de esperança, que alimenta, alegra e encoraja a cada sujeito a ir à luta, na defesa intransigente do direito e justiça contra a exclusão social. A vida digna, para o povo deve ser parâmetro, para pensar o sentido da independência da pátria, com políticas públicas que cabe os pobres no projeto de civilidade.
O grito pela vida: viva a esperança!
(*) Dr. Ademar de Lima Carvalho é professor universitário e da assessoria das Cebs.




Viva a esperança!