Li em algum lugar que a linguagem humana é contraditória, sinuosa e ambígua. Por isso, inclusive, não há outro caminho: sua prática é fundamental, pois sua complexidade extrapola o simples desejo de que prevaleça a lei do mínimo esforço, a saída fácil, a solução mágica que todo ser humano acalenta, em maior ou menor grau, no recôndito de sua alma, num flagrante confronto entre a intenção e a realidade.
Em outras palavras, o estudo ou aprendizagem de um idioma estrangeiro não é (e nem pode ser confundido com) esnobismo intelectual, mas uma busca permanente por respostas e conhecimento que nos permitam ampliar o nosso próprio horizonte e o da humanidade. Não tem cabimento, embora muita gente insista no contrário, deixar de considerar a educação linguística atual como algo significativo e transformador tanto na vida pessoal quanto profissional de todo ser humano, desde a sua tenra idade. Daí a necessidade de valorizarmos uma palavrinha muito especial: qualidade.
Como se sabe, o número de escolas de idiomas que oferecem aulas de inglês pulula pelo país. Entretanto, elas não estão dando conta do recado. Se o que se espera [em vão, ainda] é que as escolas públicas ou particulares de ensino fundamental ou ensino médio (e principalmente os cursos universitários) ensinem bem ao menos o essencial do idioma-alvo, nada mais óbvio que esperar que quem estuda numa “escola de línguas” atinja o efetivo grau de fluência que almeja como recompensa pelas suas horas e horas de esforço e dedicação, depois de alguns anos. Será que isso acontece por aqui?
Sei de (e conheço) muita gente que se vangloria do fato de estudar inglês, e outras línguas. Para ressaltar seu status quo (e às vezes humilhar outrem) algumas pessoas dizem ‘de boca cheia’ até mesmo o nome da escola franqueada que frequentam, como se isso, por si só, desse a essas criaturinhas o certificação de fluência adquirida pelo simples fato de ter se juntado, mesmo que momentaneamente, às fileiras dessa ou daquela instituição de ensino. É em situações como essa, uma triste realidade, um recorte rápido (mas certeiro) da lógica inquebrantável da realidade humana, que se evidencia o incômodo descompasso que há entre as forças ideológicas e utópicas, fonte de tensões tanto sociais quanto linguísticas nos diferentes ambientes que vivenciamos cotidianamente. Quantos de nós se dá conta disso?
A partir do pressuposto de que este é um calo em que ninguém quer pisar, a onça que ninguém quer cutucar, o vespeiro que praticamente todos querem evitar, ouso afirmar que nem mesmo as escolas de idiomas estão dando conta do recado porque nossos aprendizes afirmam algo que, na prática, não conseguem cumprir: frequentar regularmente as aulas, dedicar a atenção devida em sala e estudar/revisar o conteúdo quando não estão na classroom. A maioria dos nossos aprendizes de línguas fracassa porque seu discurso ensaiado aciona automaticamente seu mecanismo de defesa, e o que era para ser uma desculpa esfarrapada para o seu insucesso passa a ser a razão irrefutável para a realidade mascarada. Uma mistura de miopia intelectual, malabarismo extremo e um quê de cinismo.
Conheço muitos desses revolucionários de poltrona e chinelinho no pé. Pessoas que querem “mudar de vida através da educação”. A maioria é de aprendizes, mas há muitos ‘professores’ nessa lista também. Todos têm a esperança vã de frequentar cursos bbb, ou seja, bons, bacanas e baratos. Outro problema é que aulas de idioma oferecidas no Brasil ainda priorizam metodologias e abordagens ultrapassadas ou inadequadas, e são raros os professores de idiomas que se sentem confortáveis com o fato de terem de passar por testes confiáveis de proficiência e didática antes de assumir uma sala de aula. O concurso público estadual, por exemplo, não faz isso. Conclusão: a educação brasileira, salvo exceções, é movida pelo improviso…
As línguas estão em alta no país, sem dúvida. Alguns dizem que é por causa da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016; outros afirmam que é devido às exigências do mercado de trabalho, da globalização e o escambau. O fato é que as oportunidades estão aí, e já não adianta tentar disfarçar: English que é goodi nóis num have!
(*) Jerry Mill é mestre em Estudos de Linguagem (UFMT), Presidente da ALCAA (Associação Livre de Cultura Anglo-Americana), Membro Representativo e Oficial de Intercâmbio do Rotary Club Rondonópolis



