Vivemos numa era movida pelo consumo, pelas imagens virtuais em tempo real e pelas tecnologias contemporâneas. Neste ambiente, procuramos identificar o indivíduo, o grupo e o pensamento deles em relação às transformações do mundo. Todavia, o que vemos é uma passividade doentia superando a consciência coletiva tão proclamada em outros tempos.
Por ser nosso idioma rico em possibilidades e combinações, as pessoas talvez não tenham percebido ou valorizado o real significado deste termo e nem estejam necessariamente preocupadas ou interessadas em formar uma consciência coletiva a respeito de algum tema específico da sociedade ou da comunidade em que vivem, e mais especificamente a respeito do consumo desordenado, desenfreado.
Foi em busca de contribuir um pouco para o esclarecimento desta questão que me debrucei sobre esta questão buscando conduzir o leitor à luz de um maior entendimento a respeito de consumo, coletividade e poder midiático, objetivando germinar novas ideias na sociedade, que, nos dias hodiernos, ao nos depararmos com o consumismo exagerado e o lucro a qualquer preço e situação. Observando o cidadão ser impulsionado a comprar ilimitadamente, sem saber como pagará a conta quando a fatura for cobrada.
As novas tecnologias aliada a essa necessidade coletiva de consumir, até mesmo o que não pode ser consumido, trabalham sobre as relações sociais e moldam as preferencias individuais ou coletivas, independente de opinião pública ou consenso.
Desde que, aprendemos ou decidimos viver em sociedade a difícil questão do coletivo nos interpela. O coletivo sempre funcionou em meio à violência e às guerras do mundo, nunca em favor da paz entre as nações ou dos indivíduos.
O poder midiático vem interferindo sobre o mundo e o indivíduo, transformando a política, a moral, a religião, os costumes, os valores, as virtudes e as decisões. Por esta razão, volta e meia, uma questão inquieta: – Como tem sido pensado o espaço social diante de um poder que paralisa, que molda, que determina, que exige, que inclui, que exclui?
Outro aspecto importante e que também tem ameaçado o ecossistema global e a futura evolução da vida na Terra é a superpopulação e a tecnologia industrial, que tem contribuído de várias maneiras para uma grave deterioração do meio ambiente natural, do qual dependemos completamente.
Por conseguinte, nossa saúde e nosso bem-estar estão seriamente ameaçados. Essa contínua poluição do ar não só afeta os seres humanos, como também atinge os sistemas ecológicos. Ataca e mata plantas, e essa alteração na vida vegetal pode levar a drásticas mudanças em populações animais que dependem das plantas.
Além da poluição atmosférica, nossa saúde também é ameaçada pela água e pelos alimentos contaminados, por uma grande variedade de produtos químicos tóxicos. Efeitos menos óbvios, mas possivelmente muitíssimo mais perigosos; só recentemente foram reconhecidos, e ainda não foram compreendidos em toda a sua extensão. Contudo, tornou-se claro que nossa tecnologia está perturbando seriamente e pode até estar destruindo os sistemas ecológicos de que depende a nossa existência.
Enquanto as doenças nutricionais e infecciosas são as maiores responsáveis pela morte no Terceiro Mundo, os países industrializados são flagelados pelas doenças crônicas e degenerativas apropriadamente chamadas “doenças da civilização”, sobretudo as enfermidades cardíacas, o câncer e o derrame.
Quanto ao aspecto psicológico, a depressão grave, a esquizofrenia e outros distúrbios de comportamento parecem brotar de uma deterioração paralela de nosso meio ambiente social. Existem numerosos sinais de desintegração social, incluindo o recrudescimento de crimes violentos, acidentes e suicídios; o aumento do alcoolismo e do consumo de drogas; e número crescente de crianças com deficiência de aprendizagem e distúrbios de comportamento. O aumento de crimes violentos e de suicídios de pessoas jovens é tão elevado que foi classificado como epidemia. Ao mesmo tempo, a taxa de mortalidade de jovens devido à acidentes, sobretudo os de transito, é vinte vezes superior à resultante da poliomielite, quando esta se encontrava em sua pior fase.
Quer falemos de câncer, criminalidade, poluição, energia nuclear, inflação ou escassez de energia, a dinâmica subjacente a esses problemas é a mesma. Os economistas são incapazes de entender a inflação, os oncologistas estão totalmente confusos acerca das causas do câncer, os psiquiatras são mistificados pela esquizofrenia, a polícia vê-se impotente em face da criminalidade crescente, os políticos, com raras exceções, apenas estão interessados em verbas e lucros pessoais e a lista vai por aí afora.
Dessa forma, percebe-se que as transformações culturais desse gênero são etapas essenciais ao desenvolvimento das civilizações. As forças subjacentes a esse desenvolvimento são complexas, e os historiadores estão longe de elaborar uma teoria abrangente da dinâmica cultural; mas parece que todas as civilizações passam por processos cíclicos semelhantes de gênese, crescimento, colapso e desintegração. A perda da flexibilidade numa sociedade em desintegração é acompanhada de uma perda geral de harmonia entre seus elementos, o que inevitavelmente leva ao desencadeamento de discórdias e à ruptura social.
Sob esta perspectiva, em uma sociedade de consumo não importa o ser, o indivíduo e muito menos o que eles pensam. Predominam o ter e a capacidade real de consumo. Até os conceitos de cidadania, que não iremos explorar aqui, mudam. Não estão ligados ao indivíduo e sua responsabilidade com a sua cidade, os seus direitos de educação, saúde, felicidade, mas ao quanto você é capaz de consumir. Comprar, comprar e comprar, mesmo sem entender por que ou para que e o que é pior sem questionar. Inevitavelmente, a relação precede o ser. Como diz Michel Serres: “Minha identidade fluente, temporal e diversa não tem nada a ver com a ontologia do ser nem com o princípio da identidade espacial, exclusivo e único, mas sim com o possível” (2003, p.249)
Diante dessa perspectiva informacional emergente, é necessário repensar as práticas de consumo aliadas às novas tecnologias de informação, uma vez que as atividades humanas em todas as instâncias dependem, cada vez mais, dos artefatos tecnológicos, do conhecimento, da informação e em especial do capital humano e natural.
Santa Maria, rogai por nós!
(*) EDILEUSA REGINA PENA DA SILVA é professora Adjunto II com mestrado e doutorado. Trabalha na Universidade Federal de Mato Grosso, no Campus de Rondonópolis, e lamenta profundamente a dizimação/extermínio de tantos sonhos jovens no Rio Grande do Sul. [email protected]; [email protected].



