Opinião pública e a fragilidade da verdade

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(*) Roberto Barcelos

A arte é uma poderosa ferramenta para refletir sobre a sociedade e seus conflitos. Em seu filme “A Opinião Pública” (1967), o cineasta brasileiro Arnaldo Jabor nos conduz com uma abordagem provocativa e instigante sobre a natureza da opinião pública e seu impacto na vida cotidiana.
O filme se desenrola em ambientes de trabalho, em lares, de lazer e diversão. É como se estivéssemos imersos na própria cidade, observando os personagens em diálogos que nos levam a enxergar um país, que desde 1967 aos dias atuais, não mudou muito na forma de construção de narrativas que influenciam a opinião pública e na expectativa de dias melhores da sua população.

Jabor nos mostra como a indústria cultural influencia comportamentos, como os jovens discutem em grupos separados por gênero seus anseios e objetivos para o futuro. Enquanto os rapazes se preocupam em como se sustentarem, evoluir socialmente e financeiramente, com alguns se entregando ao destino e a contar com a sorte, as moças discutem o romantismo dos relacionamentos e como escolher um marido de caráter.
Equilibrando-se entre momentos de diversão e as dores da realidade nua e crua, a classe média segue com esperança de subir degraus na escala social, conquistando promoções em postos nas empresas, companhias, fábricas e nas artes. Para conquistar postos de comando é necessário um nível cultural satisfatório ou brilhantismo intelectual, aos outros, resta a vontade de trabalhar para manter seu emprego.

Esse parecia ser um padrão estabelecido pela disciplina disseminada a todos, por uma opinião formada por comportamentos e discursos para a manutenção da ordem e da conformação.

Os valores da família de classe média também são exibidos de forma não menos crítica. No centro da trama estão personagens comuns, cada um representando uma faceta diferente da opinião pública. Desde o político carismático até o trabalhador comum, Jabor nos apresenta várias perspectivas e ideias.

No meio da confusão da opinião pública, surge a busca pela autenticidade, os personagens de Jabor lutam para se encontrarem e terem suas próprias vozes em meio ao barulho das outras opiniões, buscando uma verdade que seja deles. E aí, cabe citar aqui a fala do narrador já no final desse documentário, quando diz: “A classe média, por não saber o que teme, vive paralisada de medo. Uma classe perplexa, que não tem um sistema de valores criado por uma ação histórica dela mesma. São uma multidão de indivíduos solitários. Indivíduos iguais que, misteriosamente, se julgam diferentes. Este é seu problema maior, pensam que tem algo a perder. Vivem absortos no melodrama da própria insegurança e esquecem que estão num país assolado pala tragédia da fome e da miséria”. E vai além, citando o sociólogo americano Charles Wright Mills, que em uma de suas obras afirma: “A história da classe média é uma história sem fatos. Seus interesses comuns, nunca levam a unidade. Seu futuro, nunca é escolhido por ela.”
Jabor retrata a classe média como formadores de uma opinião que lhes é imposta por padrões estabelecidos por eles próprios e pelos discursos dirigidos a eles, manipulando-os pelo medo da perda de privilégios ou pela expectativa de vantagens imaginárias.

Na esfera dos mais miseráveis, onde o misticismo oferece conforto e alento, viver na parte mais baixa da pirâmide é também não ter direito a opinião, e é preciso que alguém ecoe essas vozes e as façam chegar em algum lugar.
Em um mundo onde a informação está constantemente em fluxo, “A Opinião Pública” nos lembra da fragilidade da verdade, e é necessário o cuidado com nosso próprio jeito de lidar com ela.

(*) Roberto Barcelos é fotógrafo, jornalista, produtor de audiovisual e autor do livro “Memórias Vivas de Rondonópolis”.

 

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