
A primeira entrevista coletiva do vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, após quase quatro anos de um ambiente político extremamente hostil à classe jornalística, nos trouxe um misto de alívio e tédio, mas também nos fez lembrar que manter a liturgia do cargo dentro de uma atmosfera republicana deveria ser regra, ainda mais se tratando de figuras com representação, cujo às vozes são responsáveis por efeitos econômicos e até diplomáticos.
Esses dois efeitos foram representados logo na primeira semana do governo de transição, quando ao falar do combate a fome, o presidente eleito, Lula, afirmou que vai trabalhar para aprovar uma PEC que permita o acréscimo de 200 bi no orçamento, para repor às perdas em políticas sociais. O mercado financeiro e as agências de risco, os mesmos que durante todo o governo Bolsonaro não se manifestaram diante das atrocidades diárias, resolveram dar às caras contra a manifestação a respeito da flexibilização do teto de gastos, o mesmo teto que foi rompido ao menos quatro vezes durante o governo Bolsonaro.
Aqui podemos observar que há um elemento subjetivo nessa manifestação agressiva dos agentes econômicos: apesar do projeto vencedor ser baseado no combate à fome, a pressão é para que a agenda derrotada seja executada como política econômica do próximo governo. Até aí nenhuma surpresa, afinal, esses mesmos agentes econômicos tiveram seus lucros aumentados no período mais agudo da pandemia, além de captar uma enorme quantia de dividendos extraídos da Petrobras, enquanto o povo brasileiro, com 30 milhões de pessoas em situação de miséria, pegava seus “dividendos” nas caçambas com restos de ossos dos açougues.
O segundo efeito, veio pelo convite feito ao futuro governo para representar o Brasil na COP-27, ignorando completamente a existência do governo Bolsonaro em final de mandato. Isso demonstra não só a importância do país como um ator global, mas também mostra a fragilidade da diplomacia brasileira a partir de 2019, quando o Brasil passou a se isolar da comunidade internacional e atacar antigos aliados e parceiros comerciais.
Essas reações não geram um juízo de valor sobre se o futuro governo vai ser bom ou ruim, o que elas mostram é o óbvio. Se por um lado temos agentes econômicos raivosos pela disposição de se criar políticas sociais de amparo aos mais pobres, e pelo outro temos uma aproximação imediata da comunidade internacional ao futuro governo, a única conclusão que podemos chegar é que não tínhamos um governo.
Durante esses quase quatro anos o que nós tivemos foi um país à deriva, com a política econômica pautada pela especulação financeira e a política internacional pautada pelo isolamento. A maior prova disso é que mesmo sem tomar posse o futuro governo já é cobrado, enquanto o governo atual desapareceu dos noticiários.
Dentro do novo contexto que vai se apresentando, países que haviam rompido às relações comerciais com o Brasil por questões ambientais, já começam a retomar investimentos para o próximo ano. Isso tem que ser interpretado de maneira positiva pelo agronegócio do Mato Grosso, pois a competitividade tem aumentado exponencialmente no comércio internacional e a China, nosso maior parceiro comercial, têm buscado outros parceiros, afim de romper com a dependência de parte do seu setor produtivo.
A ideia de buscar pelo processo interno de industrialização de nossas commodities, pode surgir como uma resposta ao modelo atual, onde a expansão das terras para suprir a demanda das matérias-primas, não condiz com às necessidades do capitalismo verde, que busca negócios que sejam sustentáveis e já começa a impor barreiras à produtos sem procedência estabelecida.
Existem aqueles que já enxergam no futuro governo, muitas oportunidades. Com políticas ambientais cada vez mais impetuosas por parte de governos da Europa e da Ásia, a tendência é que um novo modelo econômico se apresente dentro das características impostas pela tentativa de impedir uma catástrofe climática. A retomada do Brasil como um ator internacional e o possível fortalecimento dos BRICS, fará do país uma importante peça no tabuleiro das decisões globais, pois não se enxerga uma economia verde sem a floresta amazônica. É com essa perspectiva que o Brasil volta ao jogo da geopolítica, e é através dela que nossos parceiros comerciais vão passar a enxergar nosso país.
Larga na frente quem se propôs ao diálogo e a entender o papel do novo governo nas relações internacionais. Fica para trás quem se negou ao diálogo e financia os movimentos em frente aos quartéis. O navio agora tem comandante, e quem não subir fica à deriva.
(*) Kleison Teixeira é cientista político



