
Joãozinho é um menino esperto, inteligente, cheio de energia, observador e adora brincar com seus colegas: negros, pardos, brancos, altinhos, alguns mais baixinhos, magrinhos, gordinhos, tem até um coleguinha que é “manco” de uma perna. Uma diversidade que dá gosto de se ver.
Todos adoram se reunir para correr, brincar e, especialmente, jogar bola. De vez em quando acontece uma discussão, uma rusga aqui, outra acolá, mas no fim do dia está todo mundo alegre e já pensando no próximo momento em que poderão se reunir para jogar. Mas algo aconteceu nos últimos dias.
Joãozinho anda um tanto cabisbaixo, sem muito falar, até faltou das duas últimas “peladas” no campinho ao final da rua. Luizinho e Geraldino, seus colegas que moram na rua detrás da casa de seus pais, ficaram preocupados e mandaram uma mensagem de aplicativo para o amigo. Joãozinho disse que estava preocupado com algumas provas da escola, que estava estudando e, por isso, não compareceu.
A professora avisou que em um dos dias da semana terá avaliação sobre Atualidades para mensurar se os alunos e alunas estão atentos, ao menos um pouco, ao que acontece na vida social que envolve a todos, afinal já estão em condições de refletirem sobre a sociedade.
Um outro amiguinho, Benjamin, chamou então Joãozinho para o próximo “rachinha” que seria à tarde, depois da escola, para aproveitar e relaxar. Joãozinho, mesmo preocupado, aceitou e ficou até um pouco contente. E disse:
– Benjamin, ganhei do meu pai uma bola da Copa, coisa mais linda. Vou levar pra gente jogar!
O que o amigo respondeu:
– Que massa, mano! Vou avisar o Luizinho e o Geraldino. Eles vão adorar jogar com sua bola. Vou avisar a turma toda.
E assim foram. Todos conversando, falando alto, pulando, às vezes um empurrando o outro, “zoando” com o amigo, seguindo rumo ao campinho.
Como Joãozinho era o dono da bola, Geraldino, todo cortês, de educação esmerada, disse:
– Acho que o Joãozinho pode escolher o time primeiro. Vamos fazer o sorteio de quem começa jogando? Os que não forem escolhidos agora, esperam a partida terminar. Ganha quem marcar 2 gols primeiro ou estiver na frente até 15 minutos; os que perderem sairão para os demais entrarem, pode ser?
Todos concordaram. E Luizinho gritou:
– Por mim, tranquilo, visse?!, revelando sua origem regional.
Benjamim concordou e Joãozinho ficou todo alegre, serelepe e já começou escolhendo. Enquanto isso, Benjamin e outros colegas, que não foram escolhidos de primeira, ficaram esperando de fora e olhando a internet porque também fariam a avaliação de Atualidades na escola. Enquanto passava de notícia em notícia, algumas matérias chamaram a atenção de Benjamin, que, imediatamente, mostrou-as para o Dudu, um coleguinha que ali estava. Dudu, intrigado, chamou então o Carlinhos para vê-las também.
Trocaram ali algumas palavras, apresentaram uma fisionomia carrancuda, desgostosa, mas continuaram vendo as notícias. Dudu aparentemente se mostrava muito emocionado, um pouco choroso e falava alguma coisa sobre o pai e tias, num fim de semana. Algumas das notícias traziam falas de manifestantes que estavam reivindicando alguma coisa sobre eleição, falando sobre um tal de relatório, algo assim:
– “Tomamos chuva, fomos atropelados, passamos vergonha à toa? É isso? Caramba, viu”. – “Quer dizer que estou tomando chuva no lombo, dormindo em barraca e [fazendo necessidades] em banheiro químico desde o dia 2/11 à toa”? – “Está, meu chapa! Estão ‘tirando onda’ com nossa cara! Esperei tanto por esse relatório, orei, torci e quebrei a cara”! – “Decepção total […]. Aliás, não confio em mais ninguém da política. Hoje, nem votar vou mais. Prefiro pagar multa”. – “Não vem nem nota de repúdio junto? E o povo que clama por SOCORRO, como fica”? – “Ou seja, toda essa demora para absolutamente NADA. Muito obrigada por NADA”! – “Infelizmente, acabou. Esse relatório nos enfraqueceu. Não tem mais o que fazer”.
Enquanto isso, a partida seguia dura. O time do dono da bola, Joãozinho, deixou o time adversário, no qual estavam Luizinho e Geraldino, empatar faltando 5 minutos. E, aos 14, virou o jogo. Luizinho se abraçava com Geraldino e demais colegas enquanto Joãozinho fechou o semblante. Benjamin, já todo animado, gritou para os colegas de fora para que tirassem a camisa e entrassem em campo. Só que, num arroubo, de supetão, Joãozinho pegou a sua bola da Copa com a mão, chamou Dudu, seu melhor amigo, e disse que não sairia do time.
O pessoal não concordou, já que o combinado não era esse. Então Joãozinho saiu correndo para casa deixando todos sem entender. Logo ele, um cara tão inteligente e esperto. Carlinhos vendo aquilo, também saiu correndo e os seguiu. Benjamin ficou sem saber o que fazer, Luizinho e Geraldino se abraçaram e resolveram fazer uma bola de meia. Mesmo com dificuldades, já que não era a melhor condição, deram sequência na brincadeira. E jogaram todos a próxima partida com aquele amontoado de retalhos em forma de bola.
Joãozinho chegou em casa chorando, com raiva, fato que fez com que sua mãe viesse lhe falar. Ao saber do que aconteceu, disse ela:
– Inês é morta! Vá estudar, meu filho, que você ganha mais e aprende um pouquinho.
(*) Rodrigo Furtado Costa, cientista social pela UNESP/Araraquara, integrante do PPG em Educação (UFMT/Rondonópolis) e professor de Sociologia da SEDUC-MT.



