
Quando decidi voltar a estudar, já depois dos 55 anos, imaginei que o maior desafio seria vencer o tempo. Pensei que teria de reaprender a rotina das salas de aula, adaptar-me às leituras, às provas e conviver com colegas que poderiam ser meus filhos ou até meus netos. Não imaginava, porém, que encontraria algo muito mais difícil de compreender: uma universidade que também envelheceu esperando. Uma instituição que, assim como milhares de estudantes, a espera deixou de ser uma exceção para se tornar uma rotina.
Quanto mais conheço a história da UNEMAT, mais percebo que minha caminhada acabou se misturando à dela. Eu esperei muitos anos para realizar o sonho de cursar jornalismo. A UNEMAT espera há décadas para conquistar aquilo que deveria ser o seu ponto de partida: um campus definitivo, estruturado e reconhecido como prioridade por aqueles que governam Mato Grosso. Somos duas histórias marcadas pela persistência. A diferença é que eu consegui entrar na universidade. A universidade, infelizmente, ainda parece não ter conseguido entrar definitivamente em Rondonópolis.
É impossível caminhar pelos corredores, conversar com servidores ou dividir experiências com outros estudantes sem perceber que existe um sentimento silencioso na comunidade acadêmica. Não é revolta. É um cansaço profundo de quem há muitos anos escuta exatamente as mesmas promessas e, ao final, percebe que quase nada muda. A esperança continua, mas já não possui a ingenuidade.
Rondonópolis nunca foi uma cidade pequena em seus sonhos. Tornou-se um dos maiores motores econômicos de Mato Grosso, consolidou-se como referência em logística, agronegócio, movimenta bilhões de reais e exerce influência sobre dezenas de municípios da região sudeste do Estado. É justamente por isso que causa estranheza perceber que uma cidade com tamanha relevância econômica continue aguardando algo tão elementar quanto a consolidação da sua própria universidade estadual.
Foi estudando Jornalismo que aprendi uma lição importante: quando um problema permanece sem solução durante muito tempo, normalmente ele deixa de ser técnico e passa a ser político. Qual político pode afirmar que desconhece a situação da UNEMAT em Rondonópolis? O problema nunca foi invisível. Tornou-se apenas conveniente demais para continuar sendo adiado.
Voltei para a Unemat Rondonópolis, com 63 anos, agora estudo o Curso de Letras, para lutar pelo campus definitivo, não tem como se envergonhar com que estão fazendo com aquele espaço, sem cursos, sem alunos e tudo para aos poucos ir terminando a Unemat em Rondonópolis. E cade os pais da Unemat?
Então surge uma pergunta que me acompanha desde o primeiro semestre de aula: onde estão os pais da UNEMAT? Onde estão aqueles que aparecem nas fotografias, sobem aos palanques, distribuem discursos emocionados sobre o futuro da juventude, prometem defender a universidade pública e fazem da educação um dos principais temas de campanha? Onde estão aqueles que reivindicam para si o mérito de cada pequena conquista, mas silenciam diante da maior de todas as ausências?
Aprendi, ao longo da vida, que ser pai não é reivindicar autoria. E, olhando para a história da UNEMAT em Rondonópolis, tenho a dolorosa impressão de que muitos quiseram ser chamados de pais da universidade, mas poucos aceitaram exercer essa paternidade quando ela realmente precisa de apoio.
Não é normal que uma universidade pública sobreviva permanentemente em condição de espera. Como se o provisório pudesse durar décadas sem provocar qualquer constrangimento aos responsáveis pelas decisões. Fizeram um belo prédio, mas fecharam 5 cursos, abriram Frente Parlamentar e o governo não resolve a situação.
Não acredito que falte inteligência para resolver esse problema. Também não acredito que faltem pessoas comprometidas. Muito menos penso que Rondonópolis careça de importância para justificar esse investimento. O que parece faltar é aquilo que nenhuma lei orçamentária consegue produzir: vontade política.
Minha história costuma ser apresentada como exemplo de superação. Fico honrada por isso. Mas não quero que a história da UNEMAT continue sendo um exemplo de abandono. Quero viver o dia em que estudantes deixem de celebrar apenas a resistência e possam comemorar aquilo que nunca deveria ter sido motivo de espera: uma universidade fortalecida, respeitada e instalada definitivamente em uma cidade que há muito tempo provou que merece muito mais do que promessas.
A conquista de Rondonópolis será o dia em que ninguém mais precisará perguntar onde estão os pais da UNEMAT, porque eles finalmente terão trocado as palavras pelas ações e terão compreendido que uma universidade não se constrói com discursos de campanha, mas com coragem política, compromisso público e respeito pelas gerações que ainda estão por vir. Vamos virar a chave?
(*) Edna Maria dos Santos Alves é jornalista formada pela Unemat Rondonópolis, única representante de Mato Grosso finalista na categoria “Logo de Jornalismo”, com o projeto gráfico “Diálogo entre a Imprensa e a Comunidade”, desenvolvido sob orientação do professor Lawrenberg Advíncula da Silva, INTERCOM Centro-Oeste 2025
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