Definindo felicidade

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Emerson de Arruda - 26-12-13
Houve um tempo em que a felicidade era experimentada nas coisas comuns da vida. Nesse sentido, corro o risco de tornar-me saudosista demais, mas não quero, pois existiram erros e uma série de aspectos ruins naqueles dias. Entretanto, o mundo era um pouco mais simples e os pequenos gestos conseguiam produzir uma espécie de sorriso na alma.
Hoje, a realidade tornou-se mais complexa, rápida, presentista e, para um grande número de pessoas, as coisas simples perderam a importância. Em muitos casos não conseguem ser um dos elementos pedagógicos na realização existencial do indivíduo. Mas o que é a felicidade? Com toda certeza existem várias respostas para essa pergunta, ainda mais se tomarmos como base as abordagens filosófica, sociológica, psicológica, dentre outras.
Olívia, personagem fictícia do livro “Olhai para os Lírios do Campo,” de Érico Veríssimo, chegou à conclusão de que “felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente.” Essa noção interliga o ato de ser feliz a um propósito especial, que significa a vida como evento histórico importante, cheio de traços singulares.
Ironicamente, Raquel de Queiroz, ao analisar a felicidade do homem urbano, escreveu que “para o homem da cidade, ser feliz, se traduz em ter coisas: ter apartamento, rádio, geladeira, televisão e automóvel. Quanto mais engenhocas mecânicas possuir, mais feliz se presume. Agora ser realmente feliz, não é ter coisas, ser feliz é ser livre delas.” Assim, a felicidade não estaria ligada apenas as conquistas e/ou aquisição obstinada de bens materiais, pelo contrário, ela pode estar presente quando nos libertamos dos condicionamentos materialistas, que por vezes, nos fazem ver o mundo a partir daquilo que temos e não do que somos.
Aqueles que são cristãos deveriam entender que o projeto de Deus para a vida humana não exclui a liberdade de sorrir. Pelo contrário, fomos criados para a felicidade, que por sua vez exige uma harmonia com alguns aspectos fundamentais, dentre os quais destacamos três essenciais: Deus, o próximo e a realidade concreta.
Quando falamos sobre Deus não estamos trabalhando com uma projeção de nossos medos e/ou com um produto fictício de um primitivismo religioso. Cremos na existência dEle, há um design inteligente de caráter divino, Ele nos fez capazes de pensar, sentir, conjugar valores morais e problematizar todas as coisas. Nele, a vida tem um propósito que excede a lógica cartesiana, a perspectiva empírica e o dilema do relativismo sem fim. Ao nos fazer conforme a sua imagem, deu-nos a possibilidade de cultivar um vínculo espiritual que dá sentido a vida, aos ideais e a capacidade de ter prazer.
Todavia, não conjugamos os acontecimentos sozinhos, existem inúmeras pessoas que nos ajudam neste projeto comunitário. Precisamos de outros seres humanos para que, numa relação dialética e dialógica, cresçamos e sintamos o valor da sociabilidade humana. Assim, cônjugues, filhos, familiares, amigos, colegas e todos aqueles que existem, não são pequenos degraus e objetos que usamos. Eles são indivíduos especiais que com suas ações atravessam a nossa vida e participam do nosso amadurecimento.
Por fim, somos felizes quando nos relacionamos com a realidade concreta, denominada por Rubem Alves, como o grande jardim. O planeta Terra se constitui como o espaço de sobrevivência, de sentido e de realizações. É neste cenário que surgimos, cresçamos, construímos, sofremos, amamos, temos e vemos as conquistas de nossos filhos. Ou seja, vivemos num ambiente fascinante, repleto de cenários participam da nossa jornada. Nesse sentido, há uma responsabilidade ambiental, e deveríamos com consciência ecológica cuidar e preservar do meio ambiente, uma vez que, segundo Roberto DaMatta, “o mundo é a grande casa em que habitamos.”
Numa perspectiva cristã a felicidade existe, ela participa de um propósito em que Deus, as pessoas e a realidade concreta não são termos sem sentido, ou palavras que perdem o seu valor no processo histórico. Deste modo, o nosso desafio é sorrir, pois a sua vida tem um sentido especial, não apenas matemático, mas, transcendente.

(*) Emerson de Arruda é pastor da Igreja Presbiteriana Luz e Vida no Bairro Jardim Rondônia, bacharel em Teologia, licenciado em Filosofia, psicopedagogo clínico e institucional, mestre em Educação pela UFMT e doutorando em ministério pastoral pelo Andrew Jumper/Mackenzie.

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