Era uma segunda-feira. Meu relógio biológico me desperta no horário habitual – às quatro e meia da manhã. Preparo-me para ir à academia. Logo após as cinco já estou no meu carro. Ligo o motor, e nada. A bateria estava totalmente arriada.
Saio da garagem e vou dar uma espiadela na rua. A cidade estava deserta e escura. Tinha a intenção de ir caminhando até a academia. Mas desisti da empreitada. Lembrei-me da violência que domina a cidade, sem nenhuma notícia tranquilizadora das nossas autoridades.
Subo para meu apartamento. Fico bisbilhotando a internet esperando o dia clarear para convocar o zelador do prédio – o homem que resolve tudo -, para dar um jeitinho no meu carro. Não entendo muito de carro, mas acho que a medicação de emergência seria a famosa chupetinha na bateria.
Este procedimento de emergência é feito para recarregar de imediato a bateria. Consiste na transferência da energia, através de um cabo positivo e outro negativo, de uma bateria saudável para a outra doente. Escrevi isso por pura exibição, todo mundo sabe o que é uma chupetinha. Depois de realizado o “choque”, o motor do meu carro começa a funcionar.
Aproveito e dou uma volta no quarteirão para testar se estava tudo OK. Estava. Retorno então ao meu apartamento para me arrumar, desta vez para o consultório. A academia já era. Desço novamente à garagem. Entro no carro, ligo o motor, e nada. Nenhum sinal de partida. Como já estava em cima da hora, e pelo efeito efêmero da chupetinha, resolvi telefonar para meu mecânico. Expliquei o caso e ele falou que iria dar um jeito.
Pego uma carona e vou para o consultório. No trajeto vou pensando: não sou vascaíno, nem palmeirense, mas o dia promete. Procurei não pensar nem me aborrecer com este pequeno imprevisto.
Em outros tempos eu ficaria irritado, mas dizem que com a velhice vem a paciência. Até pode ser, apesar de não me sentir nenhum praticante de meditação transcendental. Eu diria, entretanto, que a idade nos proporciona o equilíbrio emocional necessário para enfrentarmos com tranquilidade todo e qualquer tipo de aborrecimento.
Neste caso específico, foi somente um probleminha, rapidamente resolvido com a troca da bateria do carro. Não à toa, minha mãe – sábia por natureza -, diante dos muitos problemas que todos nós enfrentamos no nosso dia a dia, dizia: “Não crie nunca, uma tempestade em um copo de água.”
(*) GABRIEL NOVIS NEVES é médico, ex-reitor da Universidade Federal de Mato Grosso



