O que faríamos se não tivéssemos o direito de ler? Se os livros fossem extintos e as bibliotecas fechadas? Esta indagação reflete um acontecimento pouco provável nos dias atuais, nesta sociedade em que a informação está cada vez mais presente na vida das pessoas. Todavia, a informação não é acessível a todos os indivíduos de maneira homogênea. Enquanto há aqueles com acesso a todas as informações que necessitam (seja para o crescimento educacional, profissional assim como nos cuidados com a saúde) há também os que estão à margem desta sociedade informacional. Para além da questão da acessibilidade ao conhecimento, uma premissa básica é a capacidade de ler e interpretar o que está escrito, ou seja, decodificar o código lingüístico da escrita. Esta habilidade deve ser entendida como um direito fundamental a todo cidadão, porque a leitura é condição precípua para o desenvolvimento do indivíduo em toda sua plenitude.
Para que esta prerrogativa se consolide é necessário que todos tenham direito ao livro, defendido por intelectuais, como o filósofo e escritor Umberto Eco, ainda como o principal meio de difusão do conhecimento. No Brasil, dado o alto custo de aquisição, o acesso a este bem cultural deveria ser garantido pelas bibliotecas.
Neste sentido, a biblioteca é uma instituição responsável pela manutenção de um direito social. Dado sua importância, deveria ser um lugar fundamental para a preservação da memória e difusão do conhecimento acumulado ao longo dos séculos. É também neste espaço que as crianças, desde a mais tenra idade, podem iniciar o gosto pela leitura e, consequentemente, se tornarem adultos leitores, conscientes de seu papel social.
Estes locais normalmente são apenas vistos como um amontoado de livros. Porém, é um espaço de difusão da cultura onde as crianças podem ter contato direto com a literatura e outras formas lúdicas de apresentação dos textos literários, tais como: teatro, contação de histórias, etc.. O ato de ler como direito será garantido na medida em que as bibliotecas são valorizadas. A biblioteca é a instituição cuja função é assegurar a disseminação do conhecimento para as pessoas de maneira organizada, promovendo a leitura como uma atividade prazerosa e parte essencial do processo formativo como cidadãos.
O livro, historicamente, só vai aparecer como incorporado ao todo social a partir do Renascimento, até então era tido como algo que não fazia parte da vida em sociedade. Até então, as pessoas normalmente não sabiam ler. Com a difusão da escola, e conseqüente aumento do número de alfabetizados, a leitura foi mais disseminada entre as pessoas.
Cabe destacar que direito à leitura não quer dizer apenas entender uma informação através de um bilhete e sim, uma capacidade cognitiva de interpretar uma obra literária, uma reportagem ou uma opinião de algum autor. É claro que esta característica é individual e difícil ser mensurada, mas pode ser desenvolvida na medida em que vai se aprofundando a paixão pelos livros.
A Constituição brasileira preconiza o livre acesso à informação. Desta maneira é garantia fundamental ao cidadão o livro e a leitura, permitindo que esse possa desenvolver suas habilidades criativas, tornando-se além de um leitor uma pessoa capaz de desenvolver seu aprendizado.
No âmbito escolar a leitura torna os alunos mais reflexivos, atentos e seduzidos pelo estudo, contribuindo para uma formação mais ampla. Tal fato pode ser percebido nos exames de avaliação, tal como o ENEM. Nas escolas onde os alunos são estimulados a ler – não obrigados, estes apresentam um desempenho melhor, pois são mais criativos e capazes de aprender com maior autonomia.
Na dimensão do ambiente do trabalho, a leitura textual e numérica permite, por exemplo, que os agricultores se adaptem aos novos métodos de produção agrícola, documentem a sua produção e vendas, saibam misturar e aplicar produtos químicos de acordo com as especificações dos fabricantes. Um nível de conhecimento básico permite também que os agricultores saibam buscar e obter auxílio das instituições financeiras.
A leitura também está intimamente associada à saúde. As pessoas com pouca instrução não sabem, por exemplo, tomar a medicação de forma correta. Além disso, os pais com maior escolaridade podem cuidar melhor de seus filhos em relação àqueles com baixa escolaridade, pois compreendem a importância das vacinas, os cuidados com a higiene, enfim concebem a saúde dos filhos como algo vinculado também a informação de qualidade para prevenir doenças.
Sem o direito de ler a vida seria conduzida por imposições de uma minoria esclarecida, na qual imperaria a cultura da dominação do capital sobre o social, da mídia sobre a massa. O direito de ler é essencial para que todos possam se incluir e constituir uma sociedade mais justa e igualitária.
Assim como todos precisam alimentar o corpo, a leitura alimenta a alma e a biblioteca armazena este alimento: o livro. Sendo assim, a biblioteca deve ser compreendida em toda a sua amplitude, não somente como um lugar cheio de livros, mas um lugar cheio de sabores e saberes que os livros podem oferecer e nos ajudar a ser cidadãos plenos.
(*) André de Souza Pena é professor do curso de Biblioteconomia da UFMT – E-mail: [email protected]



