O desmonte da perspectiva coletiva

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(*) Lilia Corrêa

As mesmas vozes que enaltecem as máximas postuladas nas passagens bíblicas acerca da união, da solidariedade e do amor, reforçam na concretude de suas ações diárias o desmonte da perspectiva coletiva. É dúbio acreditar na ideia de coletivo sob um viés religioso e materializar práticas sociais que alargam o individualismo e a meritocracia? O discurso religioso é potente em sua essência e interpretação, foi e continua sendo capaz de moldar atitudes e pensamentos. Mas, quando o discurso religioso se conecta aos discursos políticos com objetivo de apenas persuadir e não dá materialidade às propostas urgentes, daí advém a ambiguidade. O que existe na ideia da meritocracia que desmonta a perspectiva coletiva?

A meritocracia é atraente, age em nossos sentimentos humanos. Compara-se igualmente uma pessoa no auge da paquera, realiza todas demonstrações egocêntricas de qualidades consideradas boas para alcançar o conquistado, camuflando as fragilidades e os constructos coletivos que formou aquela identidade apresentada. E quando da paquera se avança para o casamento, a meritocracia carrega o peso da responsabilidade em permanecer alcançando o sucesso, e se vier à tona as fraquezas, logo o fracasso será um motivo para o divórcio, consequentemente se instaura o sentimento de incapacidade e tristeza.

O ideal para compreensão da metáfora aqui usada, é fazer a leitura da realidade posta. É coerente dizer, sim, que a ideia de meritocracia desmonta a perspectiva coletiva, pois não reconhece as relações e interações onde o eu é parte do outro, não considera as desigualdades, as injustiças sociais e os distintos contextos. No desmonte da perspectiva coletiva somos levados a acreditar que não há necessidade para mobilização e nem reivindicação conjunta, pois esse lugar já foi ocupado pelo sentimento do reconhecer o próprio esforço e o mérito individual, afinal segundo essa concepção, podemos ser eficientes sozinhos, uma vez que na vida sempre haverá vencedores e perdedores.

Assim sendo, a meritocracia não apenas desmonta a perspectiva coletiva como também age na subjetividade, passamos a nos enxergar como em um reality show, quem se destaca mais, tem maior visibilidade e merece o prêmio final. Esse jogo pode até funcionar em outros contextos, mas será que tratando-se do âmbito educacional, até que ponto é benéfico e coerente? A resposta pode ser obtida sob várias perspectivas, mas a coletiva responde e dá conta de demonstrar a significação da pergunta. Em tempos de posicionamentos individuais, clamemos por aqueles que partam da coletividade, em benefício dos grupos, categorias e/ou classes.

(*) Lilia Corrêa Amorim de Souza, mestranda do Programa de Pós Graduação da Universidade Federal de Rondonópolis- UFR

 

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3 COMENTÁRIOS

  1. Realmente o achar que tudo é em prol de si mesmo, nos leva para um caminho sem volta, onde se destrói tudo que haveria de ser bom, como empatia e amor ao próximo

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