
Numa dessas raras noites bem-dormidas, dear reader, eu tive (talvez) um dos meus sonhos mais lindos.
Nele, indistintamente, todos os seres humanos que habitam este pontinho azul do universo ouviam, falavam, liam, escreviam e pensavam na língua inglesa.
Até mesmo os analfabetos e os portadores de toda e qualquer necessidade especial que você possa nomear ou imaginar. What a wonderful world!
No sonho, que pareceu ter durado uma eternidade, minha família, meus parentes, meus (poucos) amigos, pessoas conhecidas e desconhecidas falavam com fluência e naturalidade o idioma de Shakespeare. E que maravilha era ver pessoas que, antes (na vida real), tinham extrema e inexplicável dificuldade de aprendizagem do idioma bretão sendo agora capazes de se expressar perfeitamente, como se estivessem num fairytale, ou seja, num conto de fadas.
Aliás, nesse lugar mágico e encantado (‘utópico’ também caberia aqui), algumas coisas eram diferentes: não havia creches, escolas, faculdades ou universidades. As crianças, ao nascer, eram analisadas física e mentalmente por máquinas de elevadíssima inteligência artificial, e depois recebiam um chip de identificação e conscientização, controlado por um governo único e tido como provedor e benevolente, incumbido de alimentar o corpo e a mente de seus cidadãos. How nice!
Esse paraíso aqui na Terra era a concretização do plano da humanidade de desconstruir a Torre de Babel, o mito bíblico que perdura até hoje. Nesse sonho, porém, a sociedade não tinha mais espaço para Deus, o Diabo, o Purgatório, as vidas passadas ou futuras, os cultos carismáticos, liberdades individuais ou liberdade de expressão. No altamente sofisticado sistema em operação, que se baseou na constituição americana (de 1776!), todos eram efetivamente iguais, fraternos e obedientes.
Subitamente, o toque de acordar do meu celular me fez voltar à realidade atual: um mundo cheio de mazelas e de problemas a resolver. Pessoas estranhas e quase sempre (muito) apressadas, com diferentes formas de falar, sentir, manifestar suas crenças e opiniões, etc. Mesmo que muitos de nós não reconheça, este é o brave new world que temos tido há algumas gerações – every single day of our lives.
Sonhos como esse que eu tive podem nos inspirar e nos assustar, com certeza. No entanto, eu, particularmente, desde menino, não gosto de me iludir e muito menos de ser iludido. Sonhar é bom, sim. Na verdade, é algo essencial em nossas vidas. A questão é que tem gente que sonha demais, ou acha que vive num eterno pesadelo. Não é bem assim, pois a nossa vida é geralmente o que fazemos dela, com ou sem a influência de outras pessoas.
Pense bem: se nós habitássemos um mundo em que todos torcessem pelo mesmo time, lessem as mesmas coisas e, literalmente, falassem a mesma língua, esta seria (ao menos para mim) a transposição definitiva do inferno de Dante para a Terra conhecida. Por isso, ainda prefiro, cultivo e respeito o princípio da diversidade, seja ela de etnia, de religião, de gênero, de opinião, de idioma, etc. E você?
P.S.: Segundo diversos dados coletados ao longo da história humana, muitos conflitos brutais registrados ocorreram entre povos e nações que partilhavam crenças e línguas comuns, iguais ou parecidas.
(*) Jerry T. Mill é mestre em Estudos de Linguagem (UFMT), presidente da Associação Livre de Cultura Anglo-Americana (ALCAA), membro-fundador da ARL (Academia Rondonopolitana de Letras) e associado honorário do Rotary Club de Rondonópolis.



