Os músicos passam pelo mesmo problema. Têm seus contratos em casas noturnas, mas não recebem nenhum apoio cultural, como festival de música, participação em espetáculos e apresentações públicas e outros tantos meios de propagação da cultura, sem esquecer que eles são os que mais sofrem nesse momento da pandemia do coronavírus. Cleyton Fraummer, um excelente vocalista, é o maior exemplo, dedicando seu tempo, no momento, para outro trabalho, e ainda assim, buscando conscientizar a população para ajudar a classe, que foi a primeira a parar e deverá ser a última a voltar ao trabalho profissional. As lives, tão propagadas, já cansaram os internautas. Artistas do nível de Max Ferraz, Cuia, Cido Reis, Serginho Franco e tantos outros que tanto doaram para a nossa comunidade merecem mais respeito, reconhecimento e vão estar no registro da nossa história daqui a pouco, bem ali na frente, no futuro, por merecimento.
Os escultores rondonopolitanos, por sua vez são representados pelo Mando Nunes e Paulo Pires. Ambos têm trabalhos exposto no mundo, cada um ao seu estilo, mas com boas críticas. No entanto, no mesmo caminho do descaso público e da falta de incentivo, não se vê novidades nesse segmento, exceto suas próprias produções.
A fotografia, que registra de fato a nossa mais real história, também tem pouca novidade em relação a novos artistas, mas a profusão de imagens belíssimas feitas pelos magos da arte como Roberto Barcelos, Josué Pereira, Dnei Matos, Valter Arantes, Rivian Dias e outros mais, são a certeza que não passamos incólumes. Registramos aqui as evoluções nas performances do Wagner Montanari e Cesar Augusto, que são exemplos desse novo, mesmo que sejam poucos a sobressaírem.
Ao teatro, devemos e muito ao Sesc e aos artistas que fazem trabalhos esporádicos. Voltamos a morar em Rondonópolis em 2011, e o intervalo de seis anos fora da cidade natal, mas nove morando aqui, deu para sentir o ínfimo progresso cultural, feito pelas próprias mãos dos artistas, sem apoio nenhum dos organismos públicos. Afirmamos que os anais da história hão de informar esse vácuo de aporte cultural aos nossos descendentes, porque os ascendentes tinham essa dúvida, quando viam o Arareau definhar aos poucos, dia a dia, numa pobre comparação com a cultura.
Nem vou falar muito do cinema. Joelson Santos um provocador cultural sem igual, lançou o filme “Veneta”, em 2019, por veneta mesmo, por marra, na sua mais sincera lucidez. Deve estar devendo algum pagamento, ou o fez desfazendo de algum bem pessoal. E, ainda propaga que está produzindo o segundo filme, tem que ser um cineasta pogubense de marca maior para fazer esse enfrentamento. Esse também é um rondonopolitano de boa cepa.
Sonhei o sonho dos artistas na mudança de coordenação para secretaria de cultura, ávido por ver a cultura dá um passo à frente. Via os festivais de cultura, feitos na gestão do prefeito Rogério Salles, com a arrojada secretária de cultura Janete Carvalho, também os projetos se tornando reais na segunda gestão do prefeito Percival Muniz, quando adotou a ora sumida Lei Juca Lemos. Era só um sonho mesmo, sonhado junto, mas que não progrediu. Puff. Só mudou o nome da pasta, isso lá em 2013.
Enfim, uma cidade cosmopolita, que acaba de ser reconhecida como Capital Regional pelo IBGE, como é Rondonópolis, precisa estender as mãos à arte e à cultura locais. Com um contingente enorme de profissionais das mais distintas áreas já mencionadas, que ora reforçamos, como a literatura, pintura, escultura, música, dentre outras, e que, bastante desenvoltos em suas habilidades, possuem uma voracidade imensa em divulgar seus trabalhos, semeando conhecimento, cultura, história e alegria por todos os rincões dessa cidade, e que, juntos com o ribeirão Arareau, têm muita história, e poderão mantê-la e ainda deixar legado, a depender, muito, da intervenção do poder público.
Em vista disso, percebe-se que a tão sonhada ajuda financeira pública para os artistas, nesse momento do coronavírus, não progride em nossa cidade, de forma alguma. Famílias que dependiam da arte estão passando por privações e vendo os projetos dos seus filhos ficarem esquecidos e mofando, pela falta de uma ação política – e merecida – a seu favor. O nosso entremeio do riacho e rio, chora também, e acho que chora chorume de tanta vergonha, por todo o contexto, talvez pensando que o passado era bem melhor que o agora futuro, ora chamado de presente, para ele o ribeirão, e para nós que nos nominamos à guisa de artistas.
(*) Hermélio Silva é escritor e membro fundador da Academia Rondonopolitana de Letras, cadeira número 6.



