Mágico

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gabriel novis neves - opiniao - 27-01-12Muitos plantonistas do poder acham que médicos são mágicos. Acreditam que com um estetoscópio no pescoço e o salário de um engraxate do Senado, conseguem exercer a sua profissão. Médico não consegue transformar um depósito de lixo em um centro cirúrgico.
Para a fixação de um médico no interior é necessário um mínimo de infraestrutura para que ele possa realizar seu trabalho. Não é prioridade “na terra do nunca” investir em Saúde Pública. Mandar na marra, como quer a autoritária Presidente, médicos recém-graduados para ocupar vagas existentes, em, pelo menos, 1200 municípios brasileiros virgens desses profissionais, é o mesmo que contratar um bom cozinheiro francês para cozinhar onde não há fogão e comida.
A questão central é racionalizar a distribuição desses profissionais. O insuspeito Professor Adib Jatene, pertence à Comissão de Especialistas em Ensino Médico da Secretaria de Ensino Superior (SESU) do MEC, disse, em recente entrevista, que há oito meses essa Comissão não se reúne, e que todas essas decisões tomadas pela Presidente foram divulgadas sem ouvir a opinião daqueles que vivenciam o ensino médico e o contato com os pacientes.
Essa gente foi ignorada pelos sindicalistas do poder, com o aplauso da maioria dos governadores. Esses “sábios de tudo” enxergam a medicina pela janela dos seus refrigerados gabinetes em Brasília. Adib Jatene, que sempre teve a coragem de colocar o dedo na ferida quando, por duas vezes, foi Ministro da Saúde, continua afirmando que o nosso principal problema é a falta de investimentos na saúde.
Em segundo lugar, temos que mudar urgentemente o currículo do ensino médico. A proposta dos gabinetes é a de formar um generalista em dez anos e o especialista em catorze. Entrar depois dos quarenta anos no mercado da fome é uma medida injusta. Em curto prazo, manda quem sabe, investir fortemente nos Programas da Saúde da Família, baseado no Agente Comunitário.
Quanto à importação de médicos estrangeiros, temos algumas respostas que surpreenderam os planejadores de janela. Os portugueses já justificaram a sua recusa pela proposta brasileira. A Academia de Medicina de Portugal, e todas as entidades representativas dos médicos, disseram que a proposta era uma indignidade aos médicos da terra de Camões.
O Conselho Geral dos Médicos da Espanha exige do governo brasileiro certas garantias. A principal é sobre as condições de infraestrutura dos hospitais onde esses médicos irão trabalhar. Não queremos ser enganados, disse o responsável pelas negociações com o Brasil. Os médicos espanhóis estão preferindo o Catar, Alemanha e Reino Unido.
Com Cuba, não houve acerto. O governo cubano queria receber o equivalente aos salários do seu produto de exportação, e uma pequena remuneração seria repassada aos prisioneiros médicos cubanos. Falta humildade aos poderosos para ouvir quem sabe. O grito das ruas foi entendido e não deglutido. Pobre Brasil, onde o governo confunde médico com mágico!

(*) GABRIEL NOVIS NEVES é médico e foi reitor da Universidade Federal de Mato Grosso

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