Nem sempre a voz do povo é a voz de Deus. O pensamento popular pode ter sua simplicidade ou falta de embasamento técnico-científico, mas em vários momentos é muito sábio. Um desses casos remete às regalias e salários pra lá de avantajados dos políticos brasileiros. É a velha máxima popular: trabalham pouco e ganham muito. Diga-se de passagem muito bem!
Há cerca de três semanas noticiamos neste periódico que a Câmara dos Deputados havia acabado com o pagamento anual de 14º e 15º salário para os parlamentares. Sem sombra de dúvidas, foi uma decisão muita sensata e que demonstrava a vontade de tomar novos rumos na política brasileira, pondo fim a um grave equívoco.
Só foi elogiar que agora, nesta semana, os brasileiros se deparam com a constatação de que os benefícios “de pai para filho” estão longe de acabar na nossa política. A Câmara dos Deputados aprovou reajuste de 12,7% para a cota referente ao exercício da atividade, voltada gastos como passagens e telefone, e de 26,6% para o auxílio moradia. Para a maioria da população, que conquista a cada ano apenas a reposição das perdas da inflação, as vantagens parlamentares são um “acerto na Loteria”.
Se as pessoas entram na política por ideal ou causas, fica difícil de imaginar tal anseio social com tantos benefícios e vantagens. Afinal de contas, o trabalhador comum tem de cobrir as despesas de transporte, telefone e moradia com os próprios salários, com o suor do dia-a-dia. Nesse contexto, vem a pergunta: por que os nossos parlamentares também não bancam os custos de passagens, telefones e aluguel com os próprios salários?
Pode ter muitas respostas e justificativas para esse questionamento, mas é preciso bom senso quando se trata dos cargos públicos. Esses cargos eletivos precisam ser ocupados por pessoas realmente com ideais e propostas justas, não com interesses e vantagens pecuniárias. Em Câmaras Municipais, por exemplo, a verba de ajuda de custo acaba dobrando os rendimentos dos parlamentares – e olha que não é preciso se deslocar para Brasília. São realidades como essa, associadas a desempenhos parlamentares pífios, que geram tanta revolta nos brasileiros.
As ideias aqui levantadas permeiam, em muito, o imaginário popular e precisam ser melhor debatidas. O Brasil tem muito ainda o que avançar para acabar com as suas enormes disparidades.



