O tempo de eleição, um enigma a ser desvelado

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(*) Prof. Dr. Ademar

No tempo da eleição, a roda da história humana, movimenta em diferente direção. Abre-se até a possibilidade que apareça candidato a deus me livre. Na janela partidária existe uma verdadeira barganha e conexão para busca de acesso ao território de disputa com foco no voto. O problema a mudança de sigla é estratégico, porque mistifica a ideologia, tendo em vista que serve de simulacro que esconde a sua identidade e do partido que representa. Assim, o que parece ser novo, no seu substrato esconde que a real intenção é busca do poder. A circularidade da mistura de sigla, tem mais intensidade na arena da direita, porque o que parece diferente, não passa de unidade ideológica de iguais em projeto de sociedade. Outro aspecto que está presente no território de disputa na eleição, trata-se do dilema que precisa ser pensado e enfrentar para melhorar a condição dos pobres. No contexto da prática, destaca-se todo o simbolismo que envolve a migração para acomodação política. A arena da mobilidade reside na esfera da roda que conecta a propriedade privada, associando-se a ideia de condomínio de família, em que o marido, a esposa e o filho ordenam a sua candidatura ao mesmo tempo.

Para viabilizar o desenho político projetado, a militância partidária é bem instrumentalizada, para reprodução da versão do fato descolado da realidade, parte para o espaço social na busca da captura de voto. A engenharia do enigma da caça ao voto, num contexto da tramitação social no espaço de carência social, numa relação estreita a produção da ignorância da massa. Por isso que a dinâmica passa pela fustigação da fantasia de novidade da representação, abastecido com dinheiro, numa relação estreita a pauta de costume, colada a sedução e indução do espectro religioso fundamentalista.

Frente a vulnerabilidade da massa lança-se na onda do vento, como refúgio e fuga da imagem do interior que permanece da percepção externa do medo, que fora e está sendo defendida como grande ameaça do momento. Realidade que resulta na indução de congregar, em torno do circo do consentimento. É o que objetiva o rebanho da massa ao redor do dilema do medo imaginário, que está sendo reproduzido pela ideologia do poder do império. Assim apresenta ao povo um político figurado de religioso e defesa da família, até com índole duvidosa, que se “coloca como a proteção necessária contra a ameaça que foi incutida na cabeça do povo”. Por isso, que no tempo de ordenação da eleição, aparece candidato a tudo, a deus me livre, proprietário de família e da moral, empresários, representante da classe trabalhadora, das mulheres e dos negros, entre outros.

As representações dos diferentes agentes sociais são legítimas e necessárias. O problema está na percepção da realidade equivocada que o indivíduo pode fazer de seu representante. A escolha impensada pode seduzir ao projeto político, que está sendo conduzido por um picareta. Essa atitude vincula o seu voto ao caminho da destruição da sociedade aberta, livre e democrática, sobretudo, da possibilidade da cidadania ativa e comprometida com a formação de sujeito coletivo. Por isso, que o eleitor precisa ter uma atitude crítica, para discernir o enigma que subjaz no labirinto da eleição. Os que procedem na onda da picaretagem, não tem fôlego para vencer, porque serão desmascarados pelo povo e o torna envergonhados de sua tolice política. Na arena política, no tempo de eleição não se pode abrir espaço, para atuação de picaretas. É importante que antes de votar, no mínimo o que se tem de fazer, em grupos, entidades de classes e comunidades é “analisar bem os candidatos que se apresentam”. A educação política, precisa ser assumida, por um coletivo de instituições, “culturais, religiosas, educativas e sindicais”, etc.

Chico Whitaker nos ensinou, que “uma ação crescente de cidadãos pela formação de eleitores conscientes pode empurrar os partidos, o governo, as instituições em geral a se apressarem no cumprimento de suas responsabilidades. Iniciativas que demonstram autonomia e capacidade de organização da população preocupam imediatamente os dirigentes. O medo de perder o controle os acorda. Sabem que só continuarão à frente se identificarem e propuserem o que suas bases já reclamam”. O que nos interessa é o envolvimento na busca de solução real dos problemas que se colocam na vida coletiva. Embora saibamos que no baile da vida, exista muitas possibilidades de saída. Mas, o ato de desvelar o enigma, está na sua capacidade de escolha da porta certa que representa de fato, o seu projeto político e condição de classe social.

Como cristão militante político, alicerçado nos princípios da bem-aventurança, ajuda a pensar que é fundamental a reafirmação do caminho da democracia popular, em conectividade a doutrina social da igreja, fundamentada na opção ao amor evangélico pelos pobres, ecologia integral, defesa dos direitos humanos e da casa comum, para o bem-viver fraterno da geração de humanos. O que subentende que o ato de se envolver na construção da nova civilidade, justa e fraterna, necessita de tomada de consciência de que a política é inseparável da prática da justiça e da ética imbricadas na práxis libertadora, que colide com toda situação política que destrói a vida humana. É a realidade política que traz como exigência de escolha do caminho a ser seguido no período de eleição tem precedência, o desvelamento do enigma do desejo e sentimento do voto. Esta é uma condição para saída do labirinto que prendeu você ao marasmo da decepção e medo de assumir a postura de sujeito livre. Eu compreendo que a esperança atua como antídoto da sociedade da decepção, política e sociedade do medo. Até porque o que mobiliza a luta do sujeito são os sonhos. A libertação está conectada a seus sonhos.

Na concepção de Byung-chul Han, o ato de ter esperança é condição, para que o sujeito possa movimentar-se na busca do sentido na/da vida. Porque “as esperanças as libertam de sua prisão histórica, pois abrem para elas o possível, o novo, o porvir, o não nascido. Assim, elas as salvam para o futuro. Elas ajudam tem a obter sua verdade mais profunda, rompendo crostas e petrificações resultantes da solidificação das coisas no tempo histórico”. Lembre-se que “a esperança é sustentada pela crença de que tudo poderia ser completamente diferente”. Partindo dessa premissa, pode-se inferir que no tempo do enigma da eleição, é preciso estar atento ao simbolismo, o sentido e o significado de que a dinâmica do voto, não está descolada da realidade social, tampouco é resultado de uma festa pirotécnica que foi adornada de fantasia gerida por picaretas. A eleição é sim, uma festa da democracia popular, da cidadania, por isso, que o voto é coisa séria. Além do mais, tem uma consequência social, que implica na tomada de decisão de políticas públicas: saúde, moradia, saneamento básico, educação, mobilidade urbana, segurança e orçamento participativo, entre outras.

Para desvelamento do enigma, que envelopa – o “joio e o trigo”- na moldura da complexidade das relações tornar-se tarefa difícil. Realidade que no contexto e tempo de eleição, no espaço da muvuca ideológica pode ofuscar-se o entendimento da massa, porque o picareta sempre age como camaleão, até faz de tudo, para que não se passa como picareta. Para livrar da picaretagem política, é preciso formação da consciência crítica, enquanto método que ajuda a desvelar o imaginário simbólico e realidade, em que o indivíduo está inserido. No jogo do poder o “picareta usa qualquer meio para chegar aos fins que pretende”. É aqui que move a justificava no investimento político na esfera do condomínio, para manutenção da ideia de propriedade de família. De modo singular, entendo que a experiência política é legítima, quando assume uma postura crítica, frente ao mundo real e não torna refém e amiga/o íntima/o da ideologia, que reproduz o pecado da desigualdade social, numa relação estreita com a injustiça institucionalizada. O enigma mais emblemático, que precisa ser desvelado no tempo da eleição, trata da questão do porquê muitos cristãos escolhem o lado dos políticos, que age pela crucificação dos pobres e destruição da democracia, num movimento de mistificação de proprietário da moral popular, a serviço do poder da maldade?

Eu luto por outro mundo possível. Embora pareça distante, “a utopia já é realidade”, porque abre possibilidade de pensar, aqui e agora, outro projeto de civilidade, numa sociedade democrática popular, justa, fraterna, para o bem-viver digno e solidário na casa comum.

(*) Dr. Ademar de Lima Carvalho é professor de filosofia e teoria da educação/UFR

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