
No movimento da engrenagem da história, há sempre possibilidade de construção de outro projeto de civilidade, que não aniquila a liberdade humana, tampouco, a democracia popular. O espaço no mundo do bem-viver, está imbricado a esperança humana de outro mundo possível, para além da rota do império do domínio colonialista.
Mas, para lançar-se a frente é importante situar no tempo histórico, sem transformar em prisioneiro do passado. Porém, o mais significativo é compreender a história possibilidade, como base da construção do presente. É importante a ligação com o passado, porém, é preciso ter a compreensão de que é significativo, quando se mantenha a mente aguçada a esperança do futuro. Na convergência entre presente, passado e futuro, é da responsabilidade política, envolver na transformação da base da estrutura social, visando apontar sempre, para direção da criação e da recriação do futuro, que se faz práxis da existência no processo da sociedade democrática, aberta, fraterna e justa.
O atual contexto sociopolítico-cultural, desafia a geração para que toma consciência do sentido e significado de uma sociedade democrática, como alicerce que vai plasmando a identidade popular ao pleno exercício da cidadania politizada. É a consciência política e de cidadania, que aguçam a mentalidade da amizade social, no processo de construção do bem-viver solidário, a fim de que o povo se reconhece, como sujeito livre iguais no protagonismo da justiça e paz.
Contudo, vale destacar que o projeto de civilidade que está sendo desenhado, a sua base está sendo estruturada na racionalidade neoliberal. O que dissemina é a cosmovisão do individualismo, meritocracia, competição, como base de valor capturado pelo poder da maldade, concentração de riqueza e renda, caminha a passo longo na destruição da vida social em função do lucro. No labirinto da caverna, o que vislumbra é a violência, pobreza, divisão, ódio. Embora existe gente que não consegue compreender a causa e fica navegando na onda da aparência da arte do disfarce.
A cada momento acelera a passagem da biofilia ao estado da necropolítica, que se faz morte dos pobres. O mundo vai-se plasmando, como espaço de incerteza, porque o modelo econômico está instituído com base na política da mundialização do capital, que acelera o processo de pobreza e precarização da vida. O problema maior é que esse modelo, educa na perspectiva da passividade, vinculando a “pedagogia de guerra” com a ordenação da escola cívico-militar, que transporta o relacionamento com o mundo, na busca de transformar a realidade periférica, em laboratório da dominação social, para que se mantenha o império da colônia.
No mundo real, o que se percebe é a fabricação da política interna pelo parlamento, como espoliação dos direitos humanos fundamentais da população. Porém, justifica a moral a partir da conduta que ressalta o moralismo, ato que não passa de hipocrisia, sobretudo, associada ao caráter religioso da prosperidade do capital. O que resulta da política instituída, nesta cosmovisão é a desintegração social. Por isso, o que se percebe no sentimento da massa é a desarticulação do povo, sobretudo, com a investidura na despolitização social, para que prevaleça o domínio do autoritarismo político. É importante destacar que na década de 1990, Michael Apple escreveu um livro, que trouxe a temática de educando a direita, mediante a ascensão da mídia -rádio e TV-, associada a aglomeração religiosa. A lógica é justificar a cultura e controle de morte da geração, com a negação da participação popular na construção da civilidade democrática.
Contudo, neste mundo desamante, ainda há espaço para o amor. Agora é a tua vez de construir o mundo, em que o reconhecimento do outro passa pelo ato de amor. É tempo de ganhar a vida. Mas para ganhar a vida, é preciso que se faça aliança com os pobres da terra e se comprometa em fazer ruptura, com a injustiça e desigualdade social. Ganha a vida a pessoa, que converte a justiça, defende a democracia, os direitos humanos, a distribuição de riqueza e renda, para reconstituição da condição de sujeito livre iguais.
Porém, mesmo mediante ao espírito do natalino, embora revestido da medição, focada na pedra fundamental da igualdade abstrata ao sabor da mercadoria e atrelada o valor do consumo, torna-se incapaz da recondução do humanismo desejado, por uma parte da geração de humano. Porque o espírito que transforma o mundo pelo amor, requer o renascimento para vida nova em Cristo. Ato que colide com a política produtora da desumanização, injustiça social, empobrecimento do povo e abandono dos pobres. Movido pela esperança, consolai-vos e não tenha medo de ser feliz. No tempo da inteligência artificial, existe gente tarda de inteligência, para interpretar e como demora para acreditar em tudo que os profetas falaram (LC 24, 25). O problema é que a mentalidade de uma significativa parcela da população, resulta da produção da ignorância social. E na relação cotidiana é movida pela desinformação presa a versão dos fatos.
No mundo de contradição, decepção e acelerado, vale apena viver, sobretudo, na conectividade do amor do outro. O projeto de ganhar a vida, está imbricado a práxis da justiça e honestidade que intercruzam, a conduta entre o que fala e realiza na atuação social. Por outro lado, na dimensão cristã, a pessoa que vive a amorosidade, pratica a justiça e escuta a palavra do evangelho vivo, conduz a vida com segurança na práxis libertadora. Logo, é a vivência da cristianidade na comunidade de base, que move o sujeito no caminho da paz, para ajudar a nova geração a possuir a vida. Ganha a vida, a pessoa que envolve no processo de transformação do mundo, para o bem-viver digno para todos.
É preciso que a pessoa humana, seja movida pela justiça e honestidade, no que fala e realiza na atuação social, porque aí reside o projeto de ganhar a vida.
(*) Prof. Dr. Ademar de Lima Carvalho/UFR



