(*) Luís Otávio Bau
Julho de 2019.
A iminente operacionalização da Universidade Federal de Rondonópolis, em meio à atual conjuntura de contingenciamento de recursos do MEC – Ministério da Educação, enseja a reflexão sobre as alternativas de modelos de gestão universitária. O evento recente do corte de energia elétrica na universidade, por falta de pagamento, ressalta a urgência dessa discussão.
Algumas práticas que vivenciei na Erfurt Universität, Alemanha, em estadia neste primeiro semestre, atuando como professor visitante (visiting professor), penso que seriam aplicáveis ao nosso modelo brasileiro.
Adicionalmente, são uma contraposição às ideias contidas no projeto Future-se, que a atual administração do MEC busca implementar, de forma abrupta e sem a devida discussão com a comunidade universitária. Como se diz: duas cabeças pensam melhor que uma! Ou seja, troca de ideias e abertura ao diálogo são essenciais!
Em primeiro lugar, verifiquei que na Alemanha a gestão da universidade é toda realizada por uma equipe de técnicos administrativos estáveis e de alta qualificação, todos servidores públicos concursados, que possuem independência operacional. O caso alemão demonstra como aumentar a operacionalidade e eficácia da universidade, de forma a aproveitar melhor o tempo escasso dos docentes, no que eles são melhores: ensino, pesquisa e extensão.
As congregações se dedicam, exclusivamente, de aspectos acadêmicos e, especialmente, de definirem a estratégica de médio e longo prazo da universidade. Por exemplo, questões administrativas como a progressão funcional, diárias de viagem, aquisição de material de consumo, questões relacionadas com investimentos em infraestrutura, tais como, onde se construir e as características dos projetos de engenharia, entre outros, são geridos diretamente por técnicos com visão macro da instituição.
Essa característica de gestão profissional tende a não ser influenciada pelos interesses específicos e momentâneos de cursos e institutos. Isso reduz a disputa por recursos entre os departamentos e a divisão política interna na universidade que é muito prejudicial para a agilidade decisória.
Contudo, as congregações docentes não são alijadas de poder decisório, pois continuam a ser a instância última de definição das políticas da instituição, através de sua atuação indireta, como usuárias e definidoras das estratégias fins.
Neste ponto, o “plenum”, como é chamado o equivalente de nossa congregação, trata de questões fim, como as políticas de ensino, pesquisa e extensão. Outro ponto importante, é que o Conselho Diretor da universidade, órgão responsável pelo acompanhamento e fiscalização das atividades da universidade, possui a participação de representantes externos, como o representante do governo local, da sociedade civil e de associações de classe, tais como, da iniciativa privada.
Ao contrário do que se pode pensar, os recursos em uma universidade alemã são utilizados com parcimônia, não há desperdícios, inclusive o compartilhamento de infraestrutura. Não pensem que os professores possuem salas enormes individuais, ou que há recursos para custearem diversas participações em eventos no exterior.
No período de férias, os docentes são incentivados a oferecem cursos de curta duração. Há muita pressão por excelência acadêmica: avaliações internas rigorosas!! Busca por constante internacionalização. Mas por outro lado, publicações em revistas científicas de alto impacto são incentivadas, inclusive, com remuneração monetária.
Deve ser ressaltado que as universidades de ponta no mundo desenvolvido são entidades públicas. A maior parte dos recursos é oriunda do setor público. As parcerias com a iniciativa privada são incentivadas, inclusive com incentivos fiscais, mas são acessórias e não cobrem os custos operacionais básicos. No caso da Alemanha, recentemente, o governo anunciou um plano de investimentos nas universidades de 42 bilhões de euros. Além disso, na Alemanha os estudantes não pagam nenhum tipo de mensalidade, o ensino é gratuito.
Estamos em plena revolução de um novo paradigma tecnológico e social, as universidades federais precisarão se reinventar. Nessa conjuntura, a UFR terá a oportunidade de desenvolver um modelo de gestão inovador, oriundo da discussão da universidade com a sociedade, em que se poderá unir maior eficiência operacional com compromisso social. É hora de se abrir para novas formas de se pensar a universidade, mas o objetivo fim não deve mudar: ensino, pesquisa e extensão para o desenvolvimento da população, especialmente os mais humildes, de Mato Grosso e do Brasil!
(*) Luís Otávio Bau Macedo, doutor, professor associado, Universidade Federal de Rondonópolis, docente do Curso de Economia, Mestrado em Economia/FE/UFMT e Mestrado em Gestão e Tecnologia Ambiental/ICAT/UFR



