Eu que nasci num dia festivo,
Numa tarde de março de um ano qualquer.
Eu que carrego o dom prestativo
Que guardo em herança da santa mulher.
Eu que cresci aprendendo a viver,
Procurando fingir que sabia sorrir.
Eu que, no entanto, não pude esconder,
E a dor da vida não soube mentir.
Eu que vivi com milhares de amores,
Sem saber distinguir o certo ou errado.
Acabei procurando nos beijos favores
E confuso não sei o que é ser amado.
Eu que sorri de piadas sem nexo,
Escondi no cinismo o amor de verdade.
Eu que menti nas delícias do sexo,
Pensando que só ele era a felicidade.
Eu que demonstro na face os meus anos,
Fraquejo cansado em meio à estrada.
Eu que provei os maiores enganos,
Caí dos degraus que subi na escada.
Eu que nasci que cresci que vivi,
Eu que gritei que chorei que amei.
Eu que menti que sofri que morri,
Eu que sonhei que entreguei que calei…
(*) Gilson Lira é escritor e poeta em Rondonópolis



