Houve época onde escrever ou fazer se comunicar pela escrita era algo da minoria. O analfabetismo e as oportunidades escassas reinavam absolutos. Talvez por isso tivesse ares de superioridade e existia concentração circense para a prática, tendo como resultado algo pensado e repensado.
Agora não. Escrever virou exercício fácil através de muitos e diferentes meios. A internet, por exemplo, abriu um mundo novo de possibilidades que ainda devem ser conhecidas e administradas. Ninguém mais precisa ser um intelectual, basta se cadastrar num blog, algum tempo vago e sair escrevendo o que pensa sobre o assunto que quiser. Raros são os bloqueios.
Uma das redes sociais que mais cresce no mundo tem o sugestivo “no que você está pensando?” como área de introdução, estimulando que se escreva ou se estabeleça conexão com o momento, o estado de espírito atual.
O que pode parecer uma facilidade também tende a se revelar uma armadilha para o incauto. Manifestar-se pela escrita sem pensar tem grandes chances de se tornar danoso pessoal e profissionalmente. Saber o que fazer com a liberdade e o poder que se ganha é um dos principais desafios do ser humano desde a antiguidade.
Ninguém mais ignora (ou deveria ignorar, pelo menos) que os processos seletivos nas empresas (tanto dos colaboradores como de sócios e até investidores) há muito tempo são compostos de técnicas complexas e transversais, incluindo uma rede ampla de fontes de informações onde a internet possui aspecto destacado.
Basta fazer uma pequena busca nos “amigos” na sua rede social favorita e olhar com mais cuidado sobre o que é postado por eles e logo se poderá identificar manifestações que jamais seriam ditas numa entrevista de emprego, por exemplo, ou numa reunião de trabalho. Desde a comum e inofensiva “oba, hoje é sexta-feira” até o esfuziante “odeio meu chefe”, passando pelas fotos de bebedeiras, são encontrados facilmente.
Vamos começar pelo mais simples. A alegria exacerbada da chegada da sexta-feira (frase normalmente acompanhada de uma foto numa festa ou o convite para uma) pode ter vários significados, mas provavelmente você tenha acabado de nocautear alguma oportunidade de trabalho que necessite dedicação no final de semana. Talvez acrescentar na segunda-feira um “de volta ao trabalho com as energias renovadas” possa remediar ou até equilibrar as coisas.
Temos de lembrar que em boa parte das redes sociais e na internet como um todo, o que deixamos lá é para sempre. Espaço de armazenagem de texto custa pouco e vale muito dinheiro para as empresas de um modo geral. A importância para a eternidade ninguém sabe ainda, por isso é bom ter cautela.
Já existem sites especializados, que utilizam algoritmos de busca por palavras chave ou combinação delas, em analisar a forma como são utilizadas as redes sociais para expressar os sentimentos ou até detalhes bem pessoais das vidas dos internautas. De posse das informações que poderiam ser confidenciais, mas que postadas livremente por você no seu blog ou perfil na rede social, não há muito que contra argumentar quando o entrevistador lhe perguntar sobre elas.
A apologia a alguns assuntos que não trazem benefícios e devem ser evitados estão no circuito dos etilismos e ressacas, drogas, comentários desabonadores de superiores ou colegas, discriminações de qualquer natureza e até mesmo as manifestações religiosas exacerbadas. A parcimônia sempre é a melhor escolha.
Essa questão é tão séria que a justiça já decidiu em alguns casos favoravelmente quando da utilização de comentários e fotos inadequadas como motivos para demissão por justa causa.
Do ponto de vista das relações sociais, os sites de relacionamento também são utilizados para promover desordens ou baixarias virtuais e nesse sentido há sinais evidentes de que a adoção de meios de controle das mídias sociais, tanto por parte das empresas, dos pais ou do próprio Estado parece necessária. Mas a mais importante de todas ainda é contar com a sapiência do internauta, reconhecendo que ali, boa parte torna-se público. Por isso, muito cuidado com o que se escreve e posta.
Boa semana de Gestão & Negócios.
(*) Eleri Hamer escreve esta coluna às terças-feiras, excepcionalmente está sendo editada hoje. É professor do IBG, workshopper e palestrante – [email protected]



