Sobre amigos, amizades e afetos

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Ontem, 20 de julho, foi o Dia do Amigo. Entretanto, em tempos de pós-modernidade extravagante, exagerada e sem comiseração, não consigo perceber-me seguindo à risca os conselhos do “rei” Roberto Carlos – eu quero ter um milhão de amigos -, seja no real ou no virtual. Primeiro, porque não tenho tempo. A mim me falta tempo para cultivar meus poucos, verdadeiros, leais e queridíssimos afetos, que conquistei em minhas andanças pelo mundo e foram ficando nas estações da minha vida, sempre à espera de notícias ou do meu retorno.
Depois, talvez até o mais importante, amigo para mim tem mais a ver com Milton Nascimento: “Amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito, dentro do coração…” Amigo é jóia rara, preciosidade e objeto de luxo. Por esta razão, não estão à venda nas prateleiras do consumo; não estão em exposição nas vitrines virtuais da moda; não se encontra em qualquer esquina, supermercado, site ou rede social.
Claro, que pode estar em qualquer um desses lugares, mas tem que ser cuidadosamente garimpado, escolhido, conquistado. E, quando isso acontece, tem que ser verdadeiramente por amor, por querer, por necessitar visceralmente da presença do outro em sua vida. Não, não pode ser por um momento apenas e ter a vida inteira para se arrepender… Não pode ser por modismo ou por capricho… Pior ainda: não pode ser porque todo mundo está consumindo…
Gente, amigo é especial demais para fazer parte de sua lista de supermercado, de efemeridades, de superficialidades e passatempos. Como diz um grande e verdadeiro amigo (Patrício Duarte), de longas datas: amigo é compadre de almas. É alguém com quem você divide sonhos, desejos, anseios, medos, fragilidades, inconstâncias, sem medo de desvelar-se. Em um mundo carente de afetos, lugar em que as pessoas têm dificuldades para lidar com o outro e com suas diferenças, de demonstrar seus sentimentos, fica difícil imaginar a real utilidade das inúmeras listas de amigos produzidas para alimentar a vaidade midiática.
Amigo é alguém que valoriza sua existência e sabe extrair o melhor de você, sem mídia nem sensacionalismo. É alguém que o ama e sempre deseja o melhor para você, independente de suas qualidades ou defeitos. Ao longo de minha caminhada existencial, tive boas oportunidades para aprender a diferenciar o joio do trigo, apesar de algumas vezes continuar me enganando ou errando em minhas escolhas. Tudo bem. Faz parte do humano. Mas, dos meus poucos e verdadeiros amigos, que continuam me acompanhando pela vida, não tenho dúvidas, somente uma certeza: é para sempre e é de coração.
Ah! Permitam-me meus doze amigos e um segredo lembrar-me de uns dois daqui de Rondonópolis, que sempre são tão dedicados, carinhosos e fiéis a mim e que na minha displicência natural quase nunca os agradeço. Estou referindo-me a vocês dois, meus queridíssimos Araildes de Souza e Arivaldo Junior, o famoso Junior, do Jornal A TRIBUNA (este que também é minha família), que amo de paixão e há oito anos fazem sempre o melhor para tornar mais agradável e feliz os meus dias.
Preciso também falar de um casal muito especial, com o qual venho estreitando meus laços de amizade e tem sido muito bom. Obrigada Ester e Paulo Rockenbach, vocês têm despertado em mim a esperança por dias melhores. Paulão, depois de você, minhas madrugadas têm sido bem mais divertidas. É bom demais…
Humm… Valdir Xavier e Wilson Lemos, amigos e parceiros do Clube do Fusca, não fiquem com ciúmes porque já declarei meu amor por vocês em prosa, versos e face a face. Também continuo amando os dois com a mesma intensidade.
Aproveito a oportunidade para publicamente pedir perdão aos meus amigos pelas minhas incontáveis ausências. Por causa dessa minha mania de isolamento melancólico tenho cultivado muito mal meus afetos. No mais: quero apenas ter meia dúzia de amigos verdadeiros e ser bem mais feliz.

(*) EDILEUSA REGINA PENA DA SILVA é jornalista, professora do Campus de Rondonópolis da UFMT e amiga fiel de seus (aproximadamente) doze amigos verdadeiros, de corpo, alma e coração – [email protected]

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  1. Se isolar da humanidade creio que não é a melhor saída, nem no contexto de seu artigo, pois você queira ou não você faz parte desta humanidade. Fazer amigos é coisa do nosso cotidiano e a qualquer momento pode acontecer em nossas vidas. Não é fácil, mas pode. Usar de tal ironia para responder a Alice não foi tão feliz da sua parte. Por outro lado, Parabéns pelo seu texto.

  2. Cara Alice, não se trata de discordar ou concordar nem foi uma crítica à música “Eu quero apenas”. A proposta do texto é refletir sobre nossa sociedade pós-moderna além do meu universo íntimo ou por cima dos muros que me cercam, me protegem, me escondem e me afastam do outro. O outro que não entendo nem faço o menor esforço para compreender. O outro que minha intolerância não permite que ele se aproxime de mim. O outro que é o espelho de mim, mas o renego, desprezo-lhe, finjo não existir.
    Também sou fã do “rei” Roberto Carlos, mas, acredito que até o próprio Roberto Carlos não escreveria esta mesma letra, com a mesma intensidade, nos dias de hoje. Não consigo imaginar, em pleno Século XXI, nosso “rei” e “seu amigo íntimo” desfrutando de um quintal sem muro ou com seu filho pisando firme, cantando alto e sorrindo livre pelas ruas, sem se preocupar com nada e sem seguranças armados até os dentes. Não lhe parece utópico?
    Na atualidade, não tem sido comum ver o amor decidindo a vida. Nem sinto a força de um milhão de mãos amigas. Com tanto egoísmo, individualismo e vaidade na selva “do quem pode mais” raramente vejo as pessoas dividindo espaços e afetos, principalmente com estranhos. Que dirás dividir o peixe caríssimo fisgado nas gôndolas do supermercado.
    Perdoe-me, mas, nossa sociedade está doente e precisando que acordemos das nossas prioridades entorpecentes e encare a triste realidade cinza do outro lado da janela do nosso quarto cor-de-rosa.
    É preciso que todas as “Belas Adormecidas” e “Alices” finalmente descubram que não estamos no País das Maravilhas. Nosso Brasil é outro. No mais, ficarei torcendo para que você, com seu coração gigantesco e muito tempo livre, consiga seu primeiro milhão de amigos bem rápido. Eu continuarei cultivando minha dúzia de amigos e me isolando da humanidade, porque TEMPO é ouro e o SILÊNCIO é dinheiro. Um abraço esperançoso. Edileusa Pena

  3. Discordo pois eu amo o rei RC e ele nem me conhece então é possível ter um milhão de amigos sim. É só saber conquistar e isso é pros mestres não é pra qualquer um!!!

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