Nunca vi tanto cinismo quanto nos discursos da bancada ruralista na Câmara Federal justificando o novo Código Florestal. E não preciso dizer que, desde a aprovação na Câmara, ando de cabeça baixa por pertencer ao PPS cuja maioria da bancada votou a favor desse instrumento anti-histórico. Justiça seja feita, destaco os votos dos deputados Roberto Freire e Arnaldo Jordy que honraram o ideário do partido.
A desfaçatez foi profundamente marcada por um velho conceito muito discutido nos tempos da Guerra Fria, até a queda do muro de Berlim – a ideologia. E é disso que desejo tratar.
O que é a ideologia? Além de outros sentidos, é uma representação da realidade que não corresponde ao real, ou seja, uma forma descolada de ver o mundo, desligada, alheia às coisas concretas.
E como ela se manifesta? De várias formas, mas, sobretudo, através do discurso. Aliás, a ideologia campeia no discurso político.
Vamos aos exemplos. Os latifundiários, ou industriais, não se cansam de gabar que são produtores de uma série de bens de consumo, de uso ou de troca. Mas isso é falso, ou seja, é ideológico. Produtores, de fato, são aqueles que, despossuídos, usam da sua força de trabalho para transformar a natureza em bens de consumo, de uso ou de troca, nos seus vários desdobramentos. É o trabalho humano direto que transforma a natureza em arroz, feijão, carne, etc. Rigorosamente falando, o latifundiário não produz nada porque não trabalha. Ao contrário, ele compra a força de trabalho daqueles que, de fato, produzem. Desse modo, todas as vezes que um latifundiário se diz produtor, estará usando de uma ideologia (falseamento da realidade) para enganar a boa fé dos simples.
Nos debates sobre o código florestal, o que mais se ouvir falar foi da ideia de que os tais “produtores rurais” têm um compromisso até meio sagrado, que mais parece uma missão: produzir alimentos para mesa de todos. O objetivo desse discurso é passar como verdade a ideia de que a função social maior, mais nobre, de todos os latifundiários é produzir alimentos para matar a fome da humanidade. Ora, isso é absolutamente falso. O objetivo maior é o lucro que se tem com a produção de alimentos e não a alimentação da humanidade em si. Basta perguntar: algum “produtor” levantaria um dedo sequer para produzir alimentos sem a finalidade do lucro? Esta pergunta é desmascara. Se o objetivo fosse a alimentação não teríamos miseráveis no Brasil e não teríamos a fome na África ou em outros lugares. Aliás, o lucro, este sim, é sagrado para o capital.
Toda a bancada ruralista sabe que sem o lucro não haveria um pé de milho plantado. Esta é a lei do sistema capitalista – o lucro em primeiro lugar. Mas porque preferem um discurso ideológico, mistificador, enganador, no lugar de um discurso verdadeiro? Porque o capitalismo não tem alma, não tem piedade, é frio e calculista. E a sua face desumana não pode aparecer. Então, ele precisa da mistificação ideológica para enganar os incautos. Se fossem para a tribuna defender os verdadeiros objetivos do capitalismo, nenhum projeto dessa natureza vingaria.
O que se estranha é a passividade da população diante de tanta inverdade. Será que essa calmaria perdura por muito tempo? Quando é que acontecem os grandes movimentos sociais, as grandes revoluções como esta que hoje varre o mundo árabe? Conforme o maior dos sociólogos brasileiros, Florestan Fernandes, elas ocorrem quando os de cima não conseguem mais enganar os de baixo; quando o discurso ideológico é desmascarado pelas maiorias e não consegue mais travestir a verdade com roupa de mentira.
A ideia de ampliar a área desmatada para cumprir a necessidade de produzir mais comida é comprovadamente falsa. Até mesmo alguns setores modernos do ruralismo já afirmam que é possível dobrar a produção sem mais desmatamentos.
De resto, o problema da fome não está na produção de alimentos, mas na má distribuição da renda. O resto é ideologia no sentido de falsa consciência.
Quem diria que o conceito de ideologia, tão bombardeado na queda do comunismo, seria tão usado por aqueles setores que mais o criticaram!
(*) Antônio Carlos Máximo é professor da UFMT



