Tão conhecido na cidade quanto a nota de dois reais, o taxista flamenguista Lagartixa revela fases de uma vida que já beira nove décadas de muito trabalho, muitas experiências e incontáveis amizades.
Diferentemente do réptil em que o seu apelido se baseia, uma brincadeira de taxistas muy amigos há várias décadas que virou sua marca registrada, ele mora numa casa bela e confortável na Vila Esperança, região do Cascalhinho, e vive cercado do carinho, do respeito e da admiração de familiares e vizinhos – e não quer nem saber de insetos ou de encrenca de qualquer espécie nesta altura da vida.
Quem o vê na rua, todo serelepe e conversador, talvez nem imagine que o mineiro Osvaldo Serapião Barbosa, o Lagartixa, vai completar 90 anos de vida no ano que vem.
Natural de Boa Esperança, cidade ao sul do estado de Minas Gerais, onde nasceu no dia 10 de junho de 1937, depois de uma década morando no estado vizinho de Goiás, ele veio para o Mato Grosso, mais especificamente para Rondonópolis, em 1958.
Nessa época, ele ficou sabendo das oportunidades que a cidade oferecia e veio a cavalo com a irmã Luíza numa viagem que durou alguns dias, pois não havia pontes e asfalto como hoje.
Parte da família veio depois, num caminhão pau-de-arara: o pai Álvaro, a mãe Guiomar e os irmãos Geni, Antônio, Orlando, Divino, Maria e Tereza. Os demais (Elza, Luzia e José) nasceram em Rondonópolis. Família numerosa.
No ano anterior (1957), ele tinha se casado com a conterrânea Tereza Carolina Barbosa, que também veio para cá assim que isso foi possível, com quem ele teve quatro filhos: o cabo Francisco, a funcionária pública Luíza, a sitiante Ivanilda e o comerciário Gérson. Hoje, a família inclui quatro netos e sete bisnetos.
Ao chegar aqui, ele foi trabalhar como lavrador em uma colônia em Paraíso do Leste, Distrito de Poxoréu, onde permaneceu um ano. Depois disso, ele trabalhou por três anos na Fazenda 1200, zona rural de Rondonópolis, deixando o local quando conseguiu uma porção de terra na região do Pequi.
“Não havia quase nada nas redondezas. A cidade tinha só dois tocos de rua e um bocadinho de casas. Tudo era distante e a gente não tinha muitas alternativas: era o cavalo ou o pé literalmente nas estradas de terra, enfrentando perigo e poeira. Praticamente não havia automóveis por aqui. Antes deles, a vedete era a carroça e a agricultura era mais arroz e feijão. A soja veio muito tempo depois”, disse ele.
A vida dele e da família começou a mudar a partir de 1973, quando ele comprou um Corcel I vermelho de quatro portas e começou a transportar as pessoas de um lugar para o outro. Inclusive algumas figuras ilustres da época, como o ex-prefeito Candinho, o músico Gaúcho da Fronteira e algumas misses.
Algum tempo depois, assim que o primeiro ponto de táxi foi autorizado na cidade, na Praça dos Carreiros, lá estava ele com o seu possante e sua disposição de trabalhar.
Segundo ele, de lá para cá, 19 veículos de trabalho passaram pelas suas mãos em todos esses anos no ramo, de várias montadoras: Chevrolet, Volkswagen, Fiat, Ford, etc. Foi com esses carros que ele transportou todo tipo de gente e até mesmo doentes para Itiquira, Cuiabá, Campo Grande e São Paulo, dependendo da urgência da situação.
“Foram dias maravilhosos, que deixaram saudade. Principalmente dos companheiros que já se foram, como o Chico Véio, o Augusto, o Rosalvo, o Buriti, o Garapa e o João Santana.”
“Outra época muito boa na minha vida foi nos anos 1960, quando a gente jogava no campo atrás do DNER. O Vila Aurora tinha sido fundado alguns anos antes e eu tive o privilégio de jogar ao lado do Lelo Brega e de tantos outros fanáticos por bola. A gente jogava porque era diversão garantida e essa experiência na várzea foi tão marcante para mim que, dentro ou fora do meu táxi, eu sou torcedor do Tigrão da Vila até hoje e não nego”, revelou.
A propósito, ao todo, ele acredita ter trabalhado em 15 pontos de táxi na cidade. Atualmente, ele pode ser encontrado no ponto que existe em frente do terreno onde ficava o antigo Luthero Lopes, perto do A TRIBUNA.
“Quando inauguraram este supermercado onde ficava o estádio, eu fui buscar o (ator) Stênio Garcia no hotel. A expectativa era muito grande e o lugar ficou apinhado de gente naquele dia”, recordou.
Hoje, ele desfila pela cidade com um Yaris flex branco 2025 da Toyota e compara a realidade atual com o que viveu no passado:
“Agora o carro que eu tenho é bom. A realidade mudou muito. Este (carro) é automático, tem bancos melhores e ar-condicionado. Ele é bem diferente do Corcel, do Maverick, do Fusca, do (Fiat) 147, da Perua e do Corsa que eu já tive, com certeza”, comentou.
Para ele, “com tanta tecnologia e conforto à disposição, é muito mais fácil dirigir hoje. O que preocupa é o nosso trânsito, feio e perigoso. Há muito carro e principalmente muitos motoqueiros nas ruas. Como eles nem sempre respeitam a sinalização e as leis, há vários acidentes por aí diariamente. Rondonópolis cresceu demais e é uma cidade muito grande agora. Virou ‘cidadona’ mesmo, mas ainda tem que melhorar muita coisa. Uma delas é o anel viário do Jardim Atlântico. Ali merece um viaduto”, fez questão de ressaltar.
Mesmo com a esposa muito doente, um dos taxistas mais antigos em atividade no município não perde a crença em dias melhores:
“Eu nunca bebi pinga ou fumei. Eu enxergo muito bem e inclusive renovei a minha carteira (CNH) este ano. Ela vai vencer só em 2027. Olha, beirando os 90 anos, eu me sinto mais sadio que ‘burro de viúva’, apesar de já ter quebrado o quadril e colocado dois parafusos lá. Felizmente, tudo voltou ao normal. Vida que segue! Meu maior desejo é que a vida de todos nós fique melhor e melhor do que melhor, se Deus quiser…”, finalizou.




A Tribuna sempre valorizando, respeitando e preservando os valores humanos rondonopolitanos. Parabéns! Lagartixa é um dos elos da nossa antiga Rondonópolis provinciana com a moderna metrópole regional de agora. No vaivém diário, ao volante, sempre alegre, transportando pessoas, Lagartixa também carregou sonhos. Ele e seus colegas Lourival, Zé Antônio e Sebastião Barcelos (foi vereador) merecem todas as reverências, pois verdadeiramente são Pioneiros e nos alicerces da Terra de Daniel Moura e Irmã Luiza estão suas digitais.
Em pensar que com meus 7 anos de idade engraxava os sapatos do largatixa na praças do carreiro, ele tinha um gol quadrado, esses amigos dele conheci todos, hoje com 46 anos de idade me emocionei com a história dele..
Parabéns largatixa pela persistência da luta !
Parabéns sr Osvaldo. Sou taxista desde 1993 graças a um grande profissional que conheci em Porto Velho Ro .Osvaldo Magalhães seu xará hoje trabalho na minha terra Natal Campo Mourão PR. Meu carro também é da Toyota. Corolla ALTIS 2024.
Parabéns pela reportagem
Resgartar esse tipo de memória, faz bem para o enriquecimento histórico de Rondonópolis.
Bom dia!!
Sou taxista Tb em Belo horizonte a 50 anos de profissão, sei que o sr já passou por ocasiões difíceis, mas tudo passa na vida.
Meus parabéns ao sr e que Deus dê para o sr muitos e muitos anos de saúde e vida.
Grande abraço.
Receba os nossos aplausos amigo..Deus te abençoe infinitamente
..
Bom dia , sou taxista aqui do rio de janeiro há 35 anos meu nome é Altair da Silva, forte abraço, Deus te abençoe.
Que mensagem linda! 💛
Histórias assim realmente têm um poder transformador — elas mostram que por trás de cada trabalhador existe uma trajetória de esforço, superação e dignidade. Valorizar as pessoas da nossa região é fortalecer nossa identidade, nossa cultura e nosso sentimento de pertencimento.
Quando damos visibilidade a essas experiências reais:
👏 Reconhecemos o valor do trabalho honesto
🌱 Inspiramos outras pessoas
🤝 Fortalecemos a comunidade
📚 Preservamos a memória local
Que venham muitas outras histórias para celebrar quem constrói, todos os dias, o presente e o futuro da nossa terra.
Parabéns pela reportagem com esse nosso ídolo 😀👏👏
Isso é valorização de pessoas que fizeram e fazem a diferença no meio de uma sociedade que busca o bem estar e boa convivência