
Dezembro de 2025 chegou como o ponto final de um ano politicamente revelador em Rondonópolis. Ao longo desse ano, a atuação do prefeito Cláudio Ferreira chamou atenção, não apenas pelos resultados visíveis, mas sobretudo pela lógica silenciosa que orientou suas decisões. Para muitos, à primeira vista, tudo pareceu intrigante, quase contraditório. Para outros, tratou-se de uma aula prática de estratégia política aplicada.
Logo no início do ano, Ferreira conseguiu o que poucos imaginavam possível. Para eleger seu correligionário à presidência da Câmara Municipal, não apenas uniu sua base tradicional, como também agregou vereadores até então identificados como aliados do ex-prefeito Zé do Pátio. O resultado foi simbólico e poderoso. Uma eleição unânime. Um gesto que sinalizou controle, articulação e, sobretudo, leitura precisa do cenário político.
No decorrer do ano, esse movimento deixou de ser pontual e passou a se consolidar como método. Ex-aliados de Zé do Pátio foram, gradativamente, integrados à administração municipal. Em dezembro, o processo se aprofundou. Novos agentes políticos que que não integravam a base passaram a compor o grupo liderado por Cláudio Ferreira.
Entre eles, destacam-se os suplentes do PRD na Câmara Municipal, Hermes Moriggi, conhecido como Big da Pizzaria, Daniel Ferreira Manoel, o Daniel do Mercado Simone, e Joales Silva. Todos foram candidatos a vereador nas eleições de 2024 por um grupo político distinto, então liderado pelo candidato a prefeito e atual deputado estadual Tiago Silva.
A adesão desse grupo não representou apenas um rearranjo administrativo. Ela provocou um deslocamento político com efeitos mais amplos.
Esses nomes, ao se integrarem ao grupo de Ferreira, também enfraquecem o PRD, legenda que articula a pré-candidatura do empresário Neles Farias a deputado estadual. Filiado ao Partido Renovação Democrática, Farias é um amigo dissidente do próprio grupo de Ferreira, exatamente aquele perfil descrito por Robert Greene. Laços afetivos criam expectativas implícitas. Em mais de uma ocasião, ele chegou a afirmar que, se Cláudio lhe retribuísse apenas 30% do que fez por ele em eleições anteriores, já estaria satisfeito. O movimento, portanto, não é aleatório. Ele reposiciona forças e redefine alianças.
A estratégia de Cláudio Ferreira dialoga diretamente com a segunda lei de As 48 Leis do Poder, de Robert Greene, que ensina de forma objetiva. Não confie demais nos amigos. Aprenda a usar os inimigos.
A máxima ecoa um pensamento ainda mais antigo. Nicolau Maquiavel já advertia que “o sábio lucra mais com seus inimigos do que o tolo com seus amigos”, pois não é pela lâmina que se sustenta a espada, mas pelo punho que a controla.
Greene aprofunda essa lógica ao afirmar que a verdadeira chave do poder está na capacidade de avaliar, em cada circunstância, quem é mais capaz de favorecer seus interesses. Amigos servem para a amizade. Para o trabalho, escolhem-se os competentes. Já os antigos inimigos, quando bem integrados, tornam-se uma mina de ouro política. Como ensinou Abraham Lincoln, “você destrói um inimigo quando faz dele um amigo”.
A própria Lei 2 sintetiza essa dinâmica. Amigos podem falhar movidos por ciúme, senso de direito adquirido ou dificuldade em aceitar hierarquias. Antigos adversários, ao contrário, tendem a agir para provar valor, respeitam limites institucionais e conseguem separar relações pessoais de funções estratégicas.
Esse comportamento revela uma liderança madura. Uma liderança que se orienta por critérios institucionais, não governa por favoritismo, não demoniza a discordância e entende que diversidade de pensamento gera mais estabilidade do que lealdade puramente emocional.
Ao seguir esse manual estratégico, Cláudio Ferreira alcança dois objetivos simultâneos. De um lado, mina o grupo político do ex-prefeito Zé do Pátio, hoje pré-candidato a deputado estadual pelo PV, dentro da Federação Brasil da Esperança. De outro, enfraquece o PRD e inviabiliza o crescimento da pré-candidatura de Neles Farias, além de bloquear uma possível reaproximação com o deputado Tiago Silva, que busca a reeleição.
Essa movimentação não é fruto do acaso. Ela aponta, com clareza, para o projeto político de 2026. Ferreira prepara o terreno para lançar a primeira-dama, Alessandra Ferreira, como candidata a uma vaga na Assembleia Legislativa de Mato Grosso.
No fim das contas, o que se vê não é apenas uma sequência de adesões políticas, mas a consolidação de uma estratégia clássica, silenciosa e eficaz. Na política, quem compreende o comportamento humano governa o presente e antecipa o futuro.
(*) Ilson Galdino é advogado e servidor público em Rondonópolis.



