Série Pioneiros: “Um dos meus grandes acertos na vida foi me mudar para Roo”, comemora pioneiro

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Conversar com o empresário Elias Farah, no auge dos seus 81 anos, é uma daquelas raras oportunidades de se sentir acolhido, prestigiado e informado. Calmo, quase estoico, é possível conversar com ele sobre praticamente todos os assuntos desejáveis, com destaque para a história de Rondonópolis, para a culinária e principalmente para a Maçonaria, entidade que ele admira muito e é um dos seus temas prediletos no seu dia a dia.

Natural da antiga vila de Yarum, no sul do Líbano, distante 20 km de Jerusalém, na fronteira com Israel, onde nasceu no dia 1º de abril de 1945, Elias Farah é filho do comerciante Lufti Mikhael Farah e da dona de casa Salwa Kalaf Farah, que tiveram mais quatro filhos: Badi (falecido em 2024, aos 84 anos), Kalkab (falecida em 2021, aos 80 anos), Houda (falecida em 2025, aos 72 anos) e Sandra (de 50 anos, que mora atualmente em Cuiabá).

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“Minha mãe perdeu um filho antes de eu nascer, então ela fez uma promessa para que eu viesse bem e saudável. Ao cumpri-la, eu fui batizado na mesma gruta em que Jesus nasceu”, revelou.

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Apesar dos conflitos existentes na região entre os diferentes grupos religiosos (católicos, muçulmanos e drusos principalmente), Elias disse que a família era muito feliz lá. No entanto, parte da sua infância foi muito sofrida devido à guerra que assolou o país. Foi exatamente por causa dos desentendimentos entre os diferentes grupos populacionais que disputavam a região que ele veio ainda pequeno com a família para o Brasil, em 1949.

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“O nosso primeiro destino foi a cidade de Tupã, em São Paulo. Lá, com 7/8 anos, eu vendia pães sírios feitos pela mãe para os nossos patrícios. Para sobrevivermos, todo mundo tinha que fazer alguma coisa. Essa era uma das minhas tarefas.”

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Em 1962, somente ele e o pai vieram para Rondonópolis. Nesse ano, ele adquiriu a Casa Libanesa, de propriedade do também libanês Naim Melhem Charafedini (1953-1993) e da esposa Sêmia.

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“A loja era uma espécie de armarinho ou bazar, onde se vendia praticamente de tudo. Ela ficava na Avenida Amazonas, ao lado do famoso Hotel Bafo de Onça, que já não existe mais”, lembrou.

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Foi nesse mesmo ano que ele saiu de Rondonópolis e foi com o pai para a cidade de Assis. Questões familiares exigiram a volta deles para o estado de São Paulo e a família se instalou em um bar na Avenida Tabajaras. Mas essa experiência não durou muito tempo.

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“Já 1964 foi um ano em que nós sofremos um grande abalo social e financeiro. Nós morávamos em Tupã e nosso pai era ambulante. Nos primeiros meses do novo regime, os militares não deixavam as pessoas circularem livremente como antes pelas ruas. Isso afetou bastante o comércio e as vendas do nosso pai. As coisas só melhoraram algum tempo depois, quando ele pôde voltar a fazer visitas mais frequentes às casas dos seus clientes e amigos.”

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Em 1966, Farah deixou o comércio do pai e foi trabalhar como vendedor de uma loja de lençóis. Nessa época, ele voltou para a escola e iniciou o curso de engenharia civil. Insatisfeito com a vida que levava, ele abandonou o curso e voltou para Rondonópolis.

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“Foi aí que eu resolvi estudar engenharia mecânica à distância, com material que vinha pelos Correios e trazia aulas oferecidas pelo Instituto Universal Brasileiro. Isso abriu muitos caminhos para a minha vida profissional algum tempo depois”, disse.

 

 

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Em 1967, juntamente com o pai e o irmão, ele fundou a Elias Farah & Outros, popularmente conhecida pelo nome fantasia Autopeças Elias (hoje B.F. Autopeças), a mais antiga da cidade ainda em atividade. Em 1972, ele fundou a Sabin (Serviço Autorizado de Bombas Injetoras Nacionais) na esquina após a Autopeças Elias, uma oficina autorizada Bosch que oferece manutenção geral para veículos pesados e agrícolas movidos a diesel, que se mudou para a Avenida Presidente Médici em 1982.

Ainda em 1972, ele pegou a concessão da revendedora Valmet do amigo Pedro Celestino Carloni e permaneceu com ela até 1976. Antes disso, em 1974, foi a vez da loja Oeste Moto, concessionária das motocicletas Yamaha, que anos depois foi doada por ele ao sobrinho Dario Orlando, filho da irmã Kalkab, como incentivo ao instinto empreendedor do rapaz.

Em 1976, ele abriu a Eletrocar, oficina autorizada Bosch que oferecia serviços referente à parte elétrica de veículos leves, de para-choque a para-choque, e também representante das baterias Heliar na cidade e região. Em 1982, ele trouxe uma grande novidade para a cidade: uma minisserraria montada que foi muito vendida durante e depois da exposição agropecuária local.

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“Para tanto, nós abrimos a Valmaq (junção de ‘Valmet’ com ‘máquinas’), que ficava na Rua Fernando Corrêa da Costa, em frente da antiga rodoviária, onde hoje há uma loja de tecidos”, contou.

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Casado com a sul-mato-grossense Sônia Elizabeth Barros da Silva Farah, a Soninha Farah, desde 17 de maio de 1976, eles tiveram dois filhos, ambos nascidos em Rondonópolis: Elias Farah Filho (no dia 14 de outubro de 1983, que faleceu na capital paulista no dia 20 de junho de 2006, vítima de câncer no intestino) e Lufti Mikhael Farah Neto (no dia 20 de outubro de 1986; veterinário, empresário e pecuarista em Jaciara).

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“Eu não tenho nenhum neto e não creio que eu serei avô algum dia. A experiência mais próxima disso que eu tive foi ao ajudar a criar os três filhos da minha irmã Kalkab. Por isso, e por muitas outras coisas, eu sempre fui muito grato a ela.”

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Membro da Loja Maçônica Marechal Rondon (Grau 30) desde julho de 1992, ele recebeu Título de Cidadão Rondonopolitano em duas oportunidades: nos anos 1980, por indicação do então vereador Hermínio J. Barreto; e em 2024, por iniciativa do vereador Batista da Coder. Outro reconhecimento importante recebido por ele foi o Título de Cidadão Mato-grossense em 2019.

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“O fato é que nenhuma dessas honrarias mudou o meu de jeito de ver, pensar e agir no mundo”, comentou.

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No dia 20 de julho de 2008, ele perdeu a mãe, vítima do mal de Alzheimer e, quase dois anos depois, no dia 30 de junho de 2010, foi a vez do pai, que tinha diabete.

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“Esses foram dias horríveis para mim e para os meus irmãos. Num tempo tão curto, nós perdemos duas das pessoas mais importantes das nossas vidas.”

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No início de 2011, ele e o irmão, por decisão de ambas as partes, decidiram separar a sociedade.

Farah foi um dos fundadores e é o atual presidente do Clube do Bolinha, grupo de homens que se reúnem para cozinhar, comer, beber e falar sobre assuntos de interesse de seus membros.

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“O Clube foi criado em 2000, no auge do antigo Novotel. O primeiro presidente, por uns seis anos, foi o empresário e amigo Túlio Silva. Com a mudança dele para outra cidade, eu deixei a vice-presidência e assumi como presidente, cargo que mantenho até hoje – com muito gosto. Aliás, eu também fui vice do Túlio Silva quando ele assumiu como presidente da Acir (Associação Comercial, Industrial e Empresarial de Rondonópolis)”, lembrou.

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Em maio do ano passado, ele passou por um susto daqueles:

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“Eu sofri um infarto aqui mesmo em Rondonópolis. Eu fui levado para a Santa Casa e depois para Cuiabá, onde eu recebi tratamento e o implante de stents. Hoje, está tudo normal, graças a Deus. E tudo isso me fez pensar no que realmente importa na vida e a valorizar ainda mais as pessoas e os segundos e minutos que vivemos.”

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Sobre a cidade que o acolheu e onde ele decidiu viver, ele foi assertivo:

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“Rondonópolis é outro mundo hoje. Na época que eu vim para cá, nós éramos tão pequenos. Faltava tudo aqui. Era a época do início do plantio da lavoura do arroz de sequeiro, colhido à mão e cortado com cutelo para depois ser colocado nas batedeiras para tirar dali só os grãos.

Olha, hoje eu sei que um dos meus grandes acertos na vida foi me mudar para Rondonópolis. Aqui cheguei, trabalhei, me casei e tive meus filhos. Sou muito grato a esta terra e a esta gente hospitaleira.”

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“Hoje nós vivemos num paraíso, com eletricidade, escolas e faculdades, grandes hospitais, muitas estradas e asfalto para todos os lados. Aqui não era assim há algumas décadas. O crescimento de Rondonópolis foi e ainda é assustador.

Sua produtividade e força comercial é invejável, quando comparada com outras cidades deste e de outros estados. De coração, eu torço para que ela e a sua gente se desenvolvam ainda muito mais”, concluiu.

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