Não sei por qual motivo sou muito atenta a números redondos, considerados cabalísticos e quiçá premonitórios. Nesta quinta, sete de um mês também sete, foi um destes dias em que sinto uma áurea diferente pairando no ar. Desta vez, amena e com certo frescor de boas novas, embora tenha andado um pouco pessimista.
Logo cedo, fiz a leitura do texto inspirador e bem construído do caríssimo Orlando Sabka. Saudades, meu amigo. Mas, como você mesmo pronunciou em alto e bom som, em momentos de luto, o silêncio se faz presente em nossas vidas. Vivo tão perplexa, paralisada, imobilizada, nem sei exatamente como definir meus sentimentos em relação a tudo que temos sido obrigados a ouvir, presenciar, viver e sentir. Também tenho constatado muito a contragosto que nosso direito de escolha parece ter se extinguido. Sinto-me refém de alguma força maligna que vem e diz: – O que temos é isso: massa, molho e dois ingredientes. Vai querer? Próximo.
Como não consigo aderir-me a velocidade ilusória e insensível desta dita sociedade do consumo, onde tudo é líquido, fluido, transitório e se desmancha no ar. Então, me revisto com algumas armaduras que apenas transparecem não ser atingida, corrompida, ferida de morte.
Após leitura e releitura de seu magnífico texto, completo, redondo, explicativo e de fácil compreensão, me sinto um pouco mais revigorada para deixar fluir meus pensamentos inconstantes, incompletos e perdidos… E, assim, me livrar um pouco deste nó preso na garganta que tanto me sufoca.
Um pouco mais tarde, já com o sol meio alto, me lembrei do aniversário da morte de Cazuza. Fato este, que me deixou muito triste, não pela data em si, mas por novamente constatar a mesquinhez do humano em sua Síndrome de Deus. É imperdoável negar uma arte, quebrar os vinis e compact disc, apagar a biografia de um artista, porque não concorda com sua filosofia de vida. É muita hipocrisia. A partir de um filme ou dois, uma psicóloga se achar no direito de determinar que risquem do mapa e retirem de todas as prateleiras obras artísticas, canções refinadas, porque Cazuza era gay, rebelde e se drogava para não influenciar os jovens. Concordo. Mas também exterminem todas as mulheres-frutas, todas as danças da garrafa, da cadeira, da indecência e da imoralidade. Por favor, sejamos coerentes.
O mundo de Cazuza, a mim me parece bem mais light deste que tenho visto hoje. É só olhar um pouco a sua volta e verá crianças que mal sabem falar, vestidas como periguetes e se remexendo de forma extremamente sensual que não combina em nada com a ingenuidade de sua pouca idade. Elas agem inocentemente, movidas pelo exemplo e pela exposição midiática, mas, onde estão os conservadores, moralistas e donos da perfeição, defensores reais da moral e dos bons costumes. E a infância perdida para o crime, o tráfico, o trabalho infantil?
Também fico a me questionar: – Onde estão estes mesmos defensores da moral e dos bons costumes que não fazem protesto, não criam leis e decretos para acabar com a impunidade, a violência, a pedofilia.
O que dizer de um país moderno, democrático, em pleno Século XXI, onde, professores são obrigados a consumir horas e horas de sono e lazer se preparando e programando aulas e no final do mês ganhar dois ou três salários mínimos. Por outro lado, um jogador ganha milhões e milhões, joga uma ou duas partidas no mês, não faz gol, não tem desempenho e, ainda se aposenta aos trinta e poucos anos. Enquanto isso, as regras da aposentadoria de um trabalhador assalariado, que cumpre 40 ou 44 horas semanais, são para 60 ou 65 anos.
Tem mais: – E o que dizer das regras da nossa política, as quais determinam que qualquer brasileiro pode ser candidato a comandar o país, ser detentor de tamanho poder e, para isso, basta apenas saber assinar o nome. Sobre o salário e as mordomias não quero nem comentar para não ficar mais triste ainda…
Então, fica combinado assim: troquem a Educação por bailes funks, farra do boi, desfile de celebridades, reality show, heaves e, tudo mais onde a alegria é passageira e efêmera. Quanto a resseca, não se preocupem, ela só deverá chegar nas próximas gerações. E a conta quem vai pagar? O povo, como sempre. Ah! O povo trabalhador, pobre e miserável que acorda de madrugada e vai dormir muito tarde para no final do mês não ter nem dinheiro para fazer uma compra decente no supermercado.
Em um país que a maioria dos brasileiros é analfabeta funcional, que pensar e estudar são coisas de gente que não tem o que fazer e livros são artigo de luxo, realmente, Cazuza, você faz muita falta. Inegavelmente, você foi um poeta incrível, um compositor extraordinário, inventava o amor a todo o momento em tudo que fazia. Entretanto, era um humano como qualquer um de nós, cheio de imperfeições, defeitos, rebeldias e limitações. Claro, também impulsivo, afoito, tinha pressa de viver… Ser exagerado, talvez fosse sua característica principal, fazendo com que você se jogasse de olhos fechados no precipício. O seu prazer era sinônimo de risco de morte.
Encerrando meu dia místico, avancei a madrugada lendo, pensando, escrevendo, refletindo, labutando pelo conhecimento, pela educação e por um mundo mais justo e feliz. Foi na madrugada que produzir essas elucubrações e transformei em texto escrito, mas, também isso deverá ser repudiado e banido da sociedade, porque precisamos muito mais de circo do que de pão. De funk do que de escolas. De pagodeiros, jogadores de futebol e mulheres-frutas do que de cientistas, estudantes, pensadores, professores…
Creio que, Sören Kierkegaard, considerado o fundador e pai do existencialismo, ao dizer: “Ousar é perceber o equilíbrio por um instante, mas não ousar é perder-se em si mesmo”, poderia estar possuído por algum demônio, apesar de ser um homem extremamente religioso. Mesmo tendo a religião como uma de suas principais paixões e uma vida extremamente regada, foi condenado pela opinião pública por negar a existência de Deus, não admitir a autoridade da Igreja e ainda acreditar que cada pessoa tem o dever de opinar, de se expressar livremente. Não é muito diferente da ideia de que os verdadeiros artistas são aqueles que vêem antes dos outros, como declara o cineasta Walter Sales se referindo à frase de Sören Kierkegaard. “Talvez seja isso que separa os visionários do resto dos mortais, – a capacidade de intuir com clareza aquilo que não está claro para ninguém”. Que assim seja!
(*) EDILEUSA REGINA PENA DA SILVA é assessora de comunicação e professora adjunto I do campus de Rondonópolis da UFMT – [email protected]



