Pra quê votar?: Fechamento da Unemat/Rondonópolis, a frustração e a tal política

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(*) Denilda Lima

Tem gente que ainda fala disso com brilho no olho, mas é cada vez mais raro. Em Rondonópolis, a história do campus da Universidade do Estado de Mato Grosso já não é mais só uma pauta, virou sentimento, um dos mais difíceis de carregar ou de engolir.

Não há mais os cursos de Jornalismo, Direito, Engenharia Civil, Pedagogia e Química. Estão acabando com a Unemat: cadê o governador? O presidente da Assembleia Legislativa? A Frente Parlamentar? O Presidente da Comissão da Educação da AL/MT? O Tribunal de Contas? Os políticos locais?

Agora, teve um tempo em que tudo parecia mais simples: não tinha prédio. E quando falta algo assim, visível, a gente acredita que a solução também é concreta. Era só construir. Levantar paredes, organizar salas, colocar a universidade de pé.

O tempo passou, como sempre passa. E o que antes era ausência virou presença. Hoje tem prédio. Tem orçamento. Tem condições reais de funcionamento. E, ainda assim, não tem solução. É aí que alguma coisa quebra por dentro, pois quando não havia estrutura, existia uma justificativa. Agora, o que existe é um silêncio difícil de explicar.

Antes, as pessoas iam atrás, participavam de reuniões, marcavam com as autoridades, escreviam, pressionavam. Havia indignação, mas também havia energia. Hoje, o que se percebe é outra coisa. Um cansaço que não faz barulho. Ele aparece nas conversas curtas, nas respostas atravessadas, no desinteresse crescente. “Não adianta”, alguém diz. E ninguém discorda. Não porque concorde de verdade, mas porque já não tem força e crença que o político queira de fato resolver.

Neste sentido, aos poucos, a descrença vai ocupando espaço. Gente que sempre acreditou começa a duvidar. Gente que sempre participou começa a se afastar. E aquela pergunta, que deveria ser impensável, começa a aparecer com naturalidade: “Pra quê votar?” Isso não está nos relatórios, não sai em gráfico, não vira dado oficial. Mas está nas ruas, nas casas, nas conversas. Está no olhar de quem já esperou demais.

Na verdade, a questão do campus nunca foi só sobre ensino superior. Nunca foi só sobre cursos ou salas de aula. Ele representa algo maior: a ideia de que uma cidade que cresce, que contribui, que se desenvolve, também merece retorno. Merece investimento onde realmente muda a vida das pessoas.

Por isso dói mais ainda, entende? Porque agora não se trata mais de construir algo do zero. As condições estão dadas. O que falta é decisão, prioridade e compromisso. E essa diferença muda tudo. Esperar por algo que ainda vai começar exige paciência, mas esperar por algo que já poderia estar funcionando exige resistência emocional. E nem todo mundo aguenta isso por tanto tempo.

A saúde mental vai sendo afetada de um jeito silencioso. Não é um colapso imediato, é um desgaste contínuo. Uma sensação de que acreditar talvez tenha sido ingenuidade. Devemos parabenizar o Jornal A TRIBUNA, pois durante décadas cobra duramente este campus da Unemat: mas, continuam sem decisão, sem posicionamento, sem vontade política clara, depois de tantas promessas e injustiças, a cidade já cansou faz tempo.

O campus de Rondonópolis virou um símbolo, mas não do jeito que deveria. Não é símbolo de conquista, nem de avanço. Está se tornando símbolo de frustração, de repulsa da classe política. De promessa que se arrasta. De solução que nunca chega, mesmo quando já poderia ter chegado. E isso fere algo mais profundo: a confiança.
Porque no fim das contas, não é só sobre universidade. É sobre a relação entre as pessoas e quem decide por elas. É sobre a expectativa de que, em algum momento, o que é justo vai, de fato, acontecer. E o campus é uma questão de justiça. Justiça com os jovens que precisam estudar, com as famílias que acreditam na educação, com uma cidade inteira que já fez sua parte.

Quantos cursos não são oferecidos na universidade federal que poderiam ser ofertados pela Unemat, poderíamos pensar em cursos com foco no mercado de trabalho, como os tecnólogos. Na área da industrialização, na saúde e bem-estar, aqui cito o tecnólogo em terapias integrativas e complementares. Além, poderíamos ter especializações, mestrados e doutorados para nossos filhos, amigos e netos.

Cidadãos, o que está acontecendo em Rondonópolis tem nome e efeito: é produção de descrença em massa. Quando existe prédio, existe orçamento e ainda assim não existe ação, isso não só frustra, isso adoece, apaga o senso de pertencimento e empurra a população para o afastamento político. Não é incompetência, é escolha. E toda escolha tem impacto direto na vida psíquica e social de uma cidade inteira. Campus da Unemat já: porque não é só decisão travada e sim confiança destruída. E quem destrói a confiança de um povo precisa responder por isso.

(*) *Denilda Lima de Jesus é terapeuta, presidente da “Associação Mãos que cuidam” e ganhadora do título de “Profissional do Ano” pelo Rotary Club de Rondonópolis (2025)

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