O prazer da Literatura

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Marcelo Brito da Silva - 02-06-15

Acabo de ler um bom livro e de sentir um tipo de prazer que só a arte pode dar – o prazer da contemplação estética. Ocorre quando ficamos absolvidos ou extasiados diante da beleza de uma tela, escultura, música, filme, poema etc. No meu caso, falo do enlevo que experimentei na leitura de O Quinze*, primeiro romance de Raquel de Queiroz, publicado em 1930, cujo cenário é a seca ocorrida no Ceará em 1915, daí o título da obra.
O que encontramos nessa narrativa, do ponto de vista do conteúdo? A luta desesperada de uma família de retirantes contra a sede, a fome, a perda de dois filhos, o medo da morte e a quase aniquilação. Mas como tirar gotas de beleza em meio a tanta desgraça? Como provocar o “estranhamento”, como queriam os formalistas russos, que nos distancia do modo comum como apreendemos o mundo e assim adentramos numa dimensão nova (e prazerosa) de percepção só acessível pelo olhar estético ou artístico? Certa vez, Julio Cortázar defendeu que não há tema ruim, mas tratamento ruim do tema. Com efeito, arte é forma e, tratando-se da literatura, a arte da palavra, é o encantamento que se traduz no “como dizer”.
Refiro-me, por exemplo, às primorosas descrições da caatinga, feitas com uma invulgar precisão que “transporta” o leitor para o ambiente representado. Cito: “A fumaça do trem escurecia o céu transparente, num arremedo de nuvens. De um e de outro lado, a mata parecia esgalhamentos de carvão sobre um leito de cinzas. E o comboio, entrando numa curva, sibilando e rugindo, era como uma cobra que fugisse sobre o borralho ainda quente de uma coivara.”
A análise psicológica é também um ponto saliente em O Quinze. As motivações por trás das ações, os sentimentos disfarçados, os embates interiores das personagens que o narrador onisciente nos dá a conhecer, como no comovente episódio em que o retirante desesperado titubeia diante de um vaqueiro que tirava leite: “Chico Bento estendeu o olhar faminto para a lata onde o leite subia, branco e fofo como um capucho…E a mão servil, acostumada à sujeição do trabalho, estendeu-se maquinalmente num pedido… mas a língua ainda orgulhosa endureceu na boca e não articulou a palavra humilhante. A vergonha da atitude nova o cobriu todo; o gesto esboçado se retraiu, passadas nervosas o afastaram.”
Cenas graves e fortes são pintadas com destreza pela pena da escritora cearense. Há passos em que a própria dignidade humana é colocada em xeque diante dos imperativos da sobrevivência, a exemplo do trecho que mostra uma retirante que alugara o próprio filho para outra que pedia esmolas. Como esta deixou a criança morrer, a mãe reclama o prejuízo: “A mulher fitou com os olhos enxutos o filhinho defunto. Depois, virou-se desabridamente para a outra, com uma fúria repentina:[…] Desgraçada! Isso foi maltrato com a criança! A rapariga avançou, com mais fúria ainda, o cabelo cor de estopa lhe franjando a cara contraída: – Criança! Boca de criança! Uma mundiça pra morrer, que não dava mais nem um caldo! – Mundiça, mas há duas semanas que você come à custa dele!”
Há passagens que destilam lirismo, nas quais prosa e poesia se encontram, como na descrição da caatinga após a chegada da chuva: “A caatinga despontava toda em grelos verdes; pauis esverdeados, dum sujo tom de azinhavre líquido, onde as folhas verdes das pacaviras emergiam, e boiavam os verdes círculos de aguapé, enchiam os barreiros que marginavam os caminhos. Insetos cor de folha – esperanças – saltavam sobre a rama. E tudo era verde, e até no céu, periquitos verdes esvoaçavam gritando. O borralho cinzento do verão vestira-se todo de esperança.”
As linhas acima tentam comunicar um pouco o efeito estético que O Quinze deixou em minha leitura, em momentos de fruição que o encontro com a beleza pode proporcionar. Mas vale dizer que essa “experiência” é intransferível. Ainda que eu me delongasse nos comentários e juízos sobre o texto, o leitor perceberia que é impossível terceirizar o prazer da leitura individual, solitária e contemplativa.
Como fez um Euclides da Cunha com a sangrenta guerra de Canudos em Os Sertões, ou um Graciliano Ramos, que tratou do flagelo sertanejo com sobejante talento em Vidas Secas, Raquel de Queiroz traduziu o drama dos retirantes em arte literária, surpreendendo o leitor com lances de rara beleza e sensibilidade, empregando uma linguagem certeira que conduz nossa reflexão a níveis profundos de investigação da alma humana que, no fim das contas, sempre será a matéria prima da literatura.
*QUEIROZ, Raquel de. O Quinze. 96 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2013.

(*) Marcelo Brito da Silva é mestre em Literatura e professor do IFMT campus Rondonópolis

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  1. Parabéns, Marcelo. Você tem razão. A arte, em qualquer de suas manifestações, tem o dom de nos provocar estranheza, deslumbramento, surpresa… um misto de emoções que não se pode dizer, apenas experimentar. A beleza não pode ser apreendida, apenas “ad-mirada”, contemplada, num respeitoso distanciamento. Como dela não podemos tomar posse, a contemplação nos desperta e traz à tona o belo que temos dentro de nós, envolto em sentimentos que tornam aguçada a nossa sensibilidade. Por isso, a arte enobrece o ser humano. E seu maravilhoso texto me prendeu o espírito, de fio a pavio.

  2. Parabéns Marcelo!
    Belo texto. Mostra seu estilo, sua linguagem certeira conduzindo nossa reflexão a níveis profundos, como o próprio texto diz. Reflete o brilho e talento de um escritor ensaísta que examina a investigação da alma humana,presente na escrita do autor, a matéria prima da Literatura. Escreva mais! Para nosso deleite e enlevo da alma.

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