A morte a chamou

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Sandra Campos - 22-08-14

Eram dez horas da manhã quando o meu celular tocou. Do outro lado da cidade, o meu esposo avisava sobre a tragédia acontecida a um casal de amigos. José e Maria haviam sofrido um acidente em uma estrada do Mato Grosso, a caminhonete batera de frente com um caminhão quebrado que estava parado na pista. Não houve tempo para ele frear, estava no fim de uma curva acentuada. No fim da curva da vida a morte chamou Maria. José foi levado de avião, em estado grave, para o hospital da cidade onde morava.
Estremeci com a triste notícia, entrei em um momento de reflexão sobre a vida e a morte. Por alguns minutos fiquei indiferente a tudo ao meu redor e submersa em meus pensamentos, lamentei: nem tive tempo de conhecê-la melhor, mas posso imaginar quantos sonhos e planos poderia existir na mente daquela mulher de 50 anos, cheia de vida e esperança!
Quem sabe os planos de acompanhar o desenvolvimento dos netos e vê-los crescidos e realizados, de viajar mais vezes à Europa, beber vinho do Porto, às margens do Tejo, passear pela Gran Via, em Madri, admirar sua arquitetura, comer Paella, comprar presentinhos na Plaza Mayor e ainda escolher um espetáculo na Broadway Machilena, quem sabe, seguir para Veneza, construída sobre um arquipélago e ali passear de barco, especialmente de gôndola, muito utilizada por turistas que seguem pelo centro histórico. Ah! teria que ser em um dia quente de verão ouvindo “As quatro estações”, de Vivaldi, um passeio ideal no imaginário romântico de muitos casais em lua de mel.
Quem sabe Maria, até teria planos de ler os livros que não lera, contemplar com frequência o pôr do sol do Cais e agradecer a Deus pela glória de sua criação, ou ainda planos para realizar após sua aposentadoria, como o de velejar com José pela costa da Bahia e ali, ao sol da manhã e ao som das gaivotas, unirem seus corpos na proa do barco, em alto mar, depois descansarem ao seu balanço, envoltos no momento em que boiam no “bojo de uma nuvem, longe da cidade e do mundo… aquele momento em que a carne se faz alma”, como bem descreveu Rubem Braga. Mas que lamento! Não houve tempo, aposentadoria nem a realização de muitos planos, pois a morte a chamou no fim da curva da vida!
Há tantos poemas, textos e sonetos sobre a morte, considerada para o apóstolo Paulo, um ritual de passagem para a vida definitiva. Tema amplamente discutido, às vezes maldita e às vezes abençoada, por ser também coisa de Deus. Para Fernando Pessoa: “… a morte chega cedo, pois breve é toda a vida, o instante é o arremedo, de uma coisa perdida.” Na poesia de Vinícius de Moraes. “A morte vem de longe, do fundo dos céus, vem para os meus olhos, virá para os teus… chega impressentida, nunca inesperada, ela que é da vida a grande esperada!” José de Anchieta apresenta a morte como guerreira e teimosa: “Por qualquer lugar se mete, sem nunca pedir licença… Por muito poder que tenha ninguém pode resistir, dá mil voltas sem sentir, mais ligeira que uma azenha, quando Deus manda que venha… Quando esperas de viver longa vida, mui contente, ela entra, de repente…”.
Foi assim que de repente, eu que estava triste fiquei consolada, ao lembrar que para os que creem na ressurreição, a morte não significa o fim de tudo, mas o começo de uma vida nova e eterna, cercada de mistérios. Eu sabia que Maria em vida lembrara do seu criador, antes que chegasse os anos dos quais viesse a dizer: não há contentamento. Antes, alimentou a esperança e o amor, guardou a fé, ganhou o mundo, mas não perdeu a alma, antes que os braços da morte a cobrissem, o pó voltasse a terra e o espírito voltasse a Deus, que o deu. Antes que a morte a chamasse.

(*) Sandra Campos é cronista e moradora em Rondonópolis

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  1. Julio Cortázar, célebre escritor argentino, disse um vez que não há tema ruim em literatura, mas sim tratamento ruim do tema. Mesmo a morte pode abrir a porta para uma reflexão que destila poesia e encantamento pela vida. Foi o que Sandra Campos fez com a bela crônica desta semana. Parabéns!

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