“Fogo de palha” ou “ponta do iceberg”

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“a reforma política, tanto pedida pelos brasileiros, se feita a seu tempo, evitaria esses movimentos. Mas, como nós, políticos, não a fizemos, sofremos agora os efeitos nefastos de nossa negligência”
“a reforma política, tanto pedida pelos brasileiros, se feita a seu tempo, evitaria esses movimentos. Mas, como nós, políticos, não a fizemos, sofremos agora os efeitos nefastos de nossa negligência”

Inicio este artigo citando verso de autoria de um dos maiores compositores da música popular brasileira: “Dormia a nossa pátria mãe tão distraída sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações”1.
A Pátria Mãe dormia, mas, ao que parece, despertou. “O Gigante Acordou!” Este é o slogan que dá sustentação e embala as manifestações populares que se espalham como fogo selvagem Brasil afora. Para a alegria desta grande nação, nossos jovens despertaram; saíram de um estado letárgico de ausência de civismo para explodir numa apoteose de atividade política. E política verdadeira: propositiva, contestadora, cônscios que são de seus direitos não atendidos, das escolhas equivocadas de seus representantes políticos, que prioriza o “pão e circo”, em vez de garantir investimentos que bastem ao aperfeiçoamento dos serviços públicos de educação, saúde, segurança, transporte.
Mais irracional que gastar R$ 800 milhões em um estádio para a realização de 3 partidas da Copa, ou que desperdiçar R$ 1,7 bilhão na construção de 21 quilômetros de trilhos no famoso VLT de Cuiabá, era a passividade com que nós, sociedade brasileira, assistíamos a tais equívocos administrativos sem contra isto despejar o nosso verbo2.
Nossos irmãos brasileiros, como disse, marcham pelas ruas das grandes cidades do país, e marcharemos com eles, aqui em Rondonópolis nesta quinta-feira, para darmos início a um processo político não visto anteriormente em nossa história.
Esta marcha não é militar, nem violenta. Os poucos infiltrados no movimento, que estão ali para produzir violência adrede provocada, não representam nem compõem a marcha. Não se enfileiram com os que, de coração puro, buscam o bem da nação, senão que se imiscuem com o torpe intuito de minar a legitimidade do movimento.
Os violentos devem ser coibidos e extirpados do movimento. A marcha não admite violentos. Nem políticos. Isto, porque ela é apartidária, horizontal, descentralizada, espontânea.
É um movimento sem expoentes notáveis em sua liderança. O que os lidera é a ânsia da vida por si mesma3; é a identidade de causa que os motiva. A unidade de desígnios entre os ativistas é forjada pelo desejo comum de verem um Brasil melhor.
Alguns fazem, erroneamente, a meu sentir, a leitura contextual de que tudo isto não passa de um “fogo de palha”, de um movimento passageiro. Discordo. Não quero ser um profeta do Apocalipse de nossa política, mas este tipo de movimento vai se repetir, e se tornar cada vez mais recorrente, enquanto a real causa de seu surgimento não for enfrentado e corrigido: nosso modelo equivocado de organização política e social.
Explico-me. O homem só pode viver em sociedade. É um ser social em essência. Fora da sociedade, o homem degenera em um primata melhorado. A sociedade, pois, é o único ambiente no qual, e através do qual, o aprimoramento humano é possível.
Mas, para que haja sociedade, para que um grupamento humano se estabeleça e sobreviva, são necessários dois pilares de sustentação: o Direito e o Governo. O Direito para regrar as relações interpessoais. As limitações legais em nosso comportamento significam liberdade para o convívio humano4.
Já o Governo se perfaz na estrutura de Poder que dá sustentação a este mesmo Direito. O Governo aqui deve ser compreendido como o aparelhamento das instituições políticas que disciplinam o convívio social.
Importante notar que um Governo não tem Poder, mas Autoridade. A Autoridade é o Poder delegado; é sua expressão. Quando o Poder não é delegado, inexiste autoridade no Governo, o que resulta na perda de sua legitimidade.
Na antiguidade, o Poder era do Divino. Deus “escolhia” seus representantes na Terra para Governar por Ele o Seu povo. Foi assim com Moisés, Faraó, e alguns regimes tribais africanos e nativos americanos. Este modelo, naturalmente, não se sustentou, uma vez que ninguém é obrigado a crer em Deus ou em Sua existência. Assim, alguns contestaram essa delegação divina do Poder, destituindo os Governos que sobre tal premissa se arrimavam.
Num segundo momento histórico, o Poder Político era confundido com o poderio bélico. Governava quem tivesse o maior e mais eficiente exército. Sucederam-se Governos militares na Babilônia, na Média, Pérsia, Macedônia até chegarmos ao último Governo marcial, o Romano. Este modelo de legitimação da autoridade governamental igualmente faliu com a queda de Roma, e foi substituído pelo Poder da Propriedade.
Governava quem era proprietário de terras. Foi a fase de organização social conhecida como feudalismo, que perdurou na Europa até à Revolução Francesa, em 1789, que inaugurou a fase contemporânea de Governo. Hodiernamente, o Poder é do Povo, que o exerce por meio de seus representantes eleitos5.
E aí reside justamente o mote de toda esta manifestação popular que ora verificamos: Não existe o sentimento de representação política em nosso povo. Apesar do direito de escolha de seus governantes, o processo partidário, eleitoral e de formação política estão tão deteriorados no Brasil que o povo realmente vota porque se sente obrigado a fazê-lo, e não como se privilegiado fosse. Digo-o de novo: o povo não se sente mais representado pelo Congresso Nacional, Assembleias Legislativas e Câmaras de Vereadores. São instituições longínquas, que não correspondem aos anseios da sociedade. Os Governos que se sucedem, não interessando a bandeira ideológica ou sua sigla, não representam o povo, nem buscam satisfazer sua expectativa. Resultado: o povo não mais nos deseja a nós, os políticos.
E não adianta substituir os governantes. O modelo de arranjo governamental, de organização política, de formação partidária, do processo eleitoral é que devem mudar. A reforma política, tanto pedida pelos brasileiros, se feita a seu tempo, evitaria esses movimentos. Mas, como nós, políticos, não a fizemos, sofremos agora os efeitos nefastos de nossa negligência.
Uma nova classe política surgirá das ruas, não duvido. Que esta nova geração faça a reforma estrutural de nossa organização política que tanto precisamos.
1 Chico Buarque de Holanda, extraído da letra da canção “Vai Passar”.
2 Cleide Canton, em “Sinto Vergonha de Mim”.
3 Khalil Gibran, em “O Profeta”.
4 Miguel Reale, em “Introdução ao Estudo do Direito”.
5 Constituição Federal, Parágrafo único do seu Primeiro artigo.

(*) Carlos Vanzeli é vereador em Rondonópolis

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  1. O poder é demoníaco e transforma o ser humano, destrói ideologia, corrompe a alma. Como disse Maquiavel ” dê poder ao homem e verás quem ele é” Aqueles que proclamam palavrar de ordem em altos brados hoje, se progredirem na escalada dos degraus do poder,ao chegarem ao cimo não serão diferente dos que estão entronados.

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