O telefone que não toca e o silêncio de Pivetta sobre a Unemat em Rondonópolis

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(*) Maria Hilda

Na semana passada, a Unemat completou 48 anos de sua criação, mas há duas semanas eu vivi uma situação que me deixou profundamente triste. Tentei buscar informações sobre o processo seletivo da UNEMAT em Rondonópolis, mas não encontrei um telefone, alguém para atender, uma secretária, uma voz do outro lado da linha capaz de orientar. Afinal, estamos falando de uma universidade pública estadual.

Foi então que veio a surpresa, ou melhor, a decepção. Descobri que a UNEMAT em Rondonópolis sequer possui um telefone institucional para atendimento à população. Não havia para quem ligar. Não havia quem atendesse. A instituição, estranhamente, pede que tem que ligar em um número em Alto Araguaia-MT.

Confesso que aquilo me fez refletir. Naquele instante, percebi que o silêncio que tantas vezes enxergamos na política também se manifesta nas pequenas coisas do cotidiano. Um telefone que não existe diz muito mais do que parece. Revela uma ausência que vai além da comunicação: falta de mínima estrutura, de prioridade e de presença institucional.

Há momentos em que a política se manifesta por discursos, em outros, por obras. Mas há ocasiões em que ela se revela justamente pela ausência de ambos. Aprendi isso com o tempo, observando que o silêncio, quando se prolonga diante de uma reivindicação legítima, o não responder também é uma forma de responder. Foi exatamente essa percepção que me levou a refletir sobre o significado da ausência de uma palavra oficial sobre a UNEMAT em Rondonópolis.

Há quatro meses, fui eu quem assinou uma carta de avó indignada que percorreu Rondonópolis. Não era um manifesto partidário, era o desabafo de quem assistiu ao crescimento econômico da cidade e, ao mesmo tempo, viu permanecer inacabado um projeto que há décadas acompanha a história da educação superior pública estadual: a consolidação definitiva da Universidade do Estado de Mato Grosso em Rondonópolis.
Desde então, não ouvi uma manifestação pública do governador Otaviano Pivetta indicando qual será o futuro da UNEMAT em Rondonópolis, se existe planejamento para um campus definitivo ou mesmo se o Governo do Estado pretende enfrentar essa pauta durante a atual gestão.

É inaceitável o silêncio da UNEMAT. Inaceitável o silêncio do Governo do Estado. Inaceitável o silêncio do vice-governador. Inaceitável o silêncio da Assembleia Legislativa. É inaceitável não ter telefone, deixarem cinco cursos fecharem e nada seja feito. Comemorar 48 anos de Unemat só faz sentido para outras regiões.

Senhor Pivetta, Senhora Reitora, Senhores Deputados, Rondonópolis não reivindica um privilégio. Trata-se da segunda maior economia de Mato Grosso, polo regional de dezenove municípios, referência logística, industrial e universitária. Essa discussão ultrapassa os limites da educação e alcança o planejamento regional, a interiorização das políticas públicas e a própria ideia de justiça territorial. Afinal, onde devem estar os investimentos públicos em educação superior?

Ao longo de mais de uma década sucederam-se audiências públicas, reuniões, frentes parlamentares, anúncios e compromissos. Houve mobilização da sociedade civil e de lideranças políticas em defesa da ampliação da universidade. Ainda assim, permanece sem resposta a pergunta mais elementar: qual é, afinal, o projeto do Estado para a UNEMAT em Rondonópolis?

O silêncio não apresenta um caminho. Não há previsibilidade, cronograma nem direção. Universidades não são construídas de um ano para outro. Exigem planejamento, orçamento e decisão política. Talvez o maior problema já não seja apenas a demora na execução das obras, mas a inexistência de uma palavra oficial.

E a ausência daquele telefone sintetiza tudo isso. Pensei nos jovens que sonham em ingressar na universidade, nos pais que procuram orientação e nas pessoas que simplesmente preferem conversar com alguém antes de tomar uma decisão importante. Como uma instituição que representa o ensino superior público pode não oferecer sequer um canal telefônico de atendimento?

Não se trata de luxo. Trata-se de respeito. Uma universidade existe para acolher, orientar e aproximar o conhecimento das pessoas. Quando o cidadão não consegue sequer encontrar um telefone para tirar uma dúvida, algo deixou de funcionar como deveria.

Os grandes problemas, muitas vezes, começam nas pequenas ausências. Primeiro falta um telefone. Depois falta uma estrutura. Depois falta mais cursos. Aos poucos, corre-se o risco de naturalizar aquilo que jamais deveria ser considerado normal.

Ao final, permanece uma indagação que não se dirige apenas ao governador, mas a todos os políticos: qual é o lugar reservado à educação superior pública no planejamento das regiões que mais crescem economicamente? Se existe uma estratégia, por que ela não é apresentada? Até quando a sociedade deverá esperar?

Não me venham pedir voto para esta avó que há décadas espera por uma universidade estadual plenamente consolidada em Rondonópolis, antes de resolverem esta questão, que é, acima de tudo, uma decisão política. Recursos existem e a demanda é legítima. E aos leitores e eleitores: vamos ficar de braços cruzados para uma Unemat que tá comemorando 48 anos, enquanto em Rondonópolis estão acabando com os cursos e, sequer, temos um telefone?

(*) Maria Hilda Alencar é avó, mãe, cidadã, formada em Biblioteconomia e defensora da universidade pública

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