Tarifa de 25% dos EUA entra em vigor em meio a disputa política e pressão contra retaliação

Medida alcança cerca de 4 mil produtos e pode afetar até US$ 11 bilhões em exportações; oposição e governo trocam acusações sobre responsabilidade pela crise

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(Foto: Daniel Torok / Casa Branca)

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A tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre parte das exportações brasileiras começou a valer nesta quarta-feira (22), aprofundando a tensão comercial entre os dois países e alimentando uma disputa política sobre as responsabilidades pelo agravamento da relação entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump.

A medida atinge aproximadamente 4 mil produtos brasileiros e pode afetar entre US$ 7 bilhões e US$ 11 bilhões em exportações anuais para o mercado norte-americano. A diferença entre as estimativas decorre das metodologias adotadas pelo governo brasileiro e pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Os valores representam entre 18% e 26,2% das vendas nacionais aos Estados Unidos.

A lista definitiva manteve 2.126 classificações tarifárias fora da nova cobrança. Segundo a CNI, foram acrescentadas 429 exceções em relação à proposta inicial dos Estados Unidos.

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Mesmo com a ampliação da lista, a entidade calcula que cerca de US$ 11 bilhões em exportações brasileiras continuarão expostos à sobretaxa.

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Entre os produtos preservados estão carne bovina, café, petróleo e outros itens energéticos, aeronaves e componentes aeronáuticos, ferro-gusa, café solúvel sem sabor, mel orgânico, além de parte dos minerais e matérias-primas considerados importantes para as cadeias produtivas norte-americanas.

Por outro lado, a tarifa alcança segmentos como máquinas e equipamentos agrícolas, móveis, madeira, etanol, açúcar, calçados, roupas, equipamentos elétricos, papel e outros produtos industrializados. Os setores de madeira, minerais não metálicos, produtos químicos e alimentos estão entre os mais expostos.

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Estados Unidos alegam práticas comerciais injustas

A sobretaxa foi aplicada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, com base na Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana de 1974. O mecanismo permite a adoção de medidas contra políticas estrangeiras consideradas injustificáveis, discriminatórias ou prejudiciais ao comércio dos Estados Unidos.

A investigação foi aberta em julho de 2025 e analisou políticas brasileiras relacionadas ao comércio digital e aos serviços eletrônicos de pagamento, ao sistema Pix, às tarifas preferenciais concedidas a determinados parceiros comerciais, à propriedade intelectual, ao acesso do etanol norte-americano ao mercado brasileiro, ao combate à corrupção e ao desmatamento ilegal.

Segundo o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer (foto), as negociações realizadas ao longo do último ano não foram suficientes para resolver os pontos considerados problemáticos pelo governo norte-americano. Apesar da imposição da tarifa, Greer afirmou que Washington continua aberto a novas tratativas com o Brasil.

O governo brasileiro rejeita as acusações e sustenta que apresentou informações técnicas demonstrando que suas políticas não discriminam empresas norte-americanas. Brasília também argumenta que a medida possui componente político e não encontra justificativa no histórico da relação comercial entre os dois países.

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Oposição atribui crise à postura de Lula

A entrada em vigor da tarifa acirrou a disputa entre governo e oposição. O senador Flávio Bolsonaro, adversário de Lula na corrida presidencial de 2026, atribuiu diretamente ao presidente a responsabilidade pela sobretaxa.

“A culpa pelo aumento das tarifas é de Lula”, declarou o senador. O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, adotou posição semelhante e acusou o governo brasileiro de não negociar de boa-fé com os Estados Unidos. Segundo Rubio, Lula teria colocado interesses políticos e pessoais acima da busca por um acordo.

A oposição argumenta que declarações de Lula contra Donald Trump, críticas à política externa dos Estados Unidos, a aproximação brasileira com China e Rússia e os posicionamentos do país dentro do Brics contribuíram para deteriorar o ambiente diplomático e reduzir as possibilidades de uma negociação comercial.

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Um levantamento publicado pelo Poder360 identificou pelo menos 62 manifestações públicas de Lula com críticas a Trump. Desse total, 15 foram registradas em 2025 e outras 42 somente nos primeiros seis meses de 2026.

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As manifestações incluem críticas às tarifas norte-americanas, à atuação dos Estados Unidos em conflitos internacionais, à tentativa de aquisição ou controle de territórios e ao posicionamento de Trump diante de assuntos internos brasileiros.

O levantamento confirma a existência de uma sequência de confrontos verbais, mas formalmente, a decisão norte-americana foi fundamentada nas conclusões da investigação comercial da Seção 301.

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), porém, também responsabilizou o governo federal pelo agravamento da situação. A entidade apontou “ruídos desnecessários” na relação diplomática e criticou manifestações personalizadas de Lula contra Trump, avaliando que a condução política dificultou a construção de um acordo.

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Governo acusa família Bolsonaro

Lula rebateu as críticas afirmando que integrantes da família Bolsonaro colaboraram com autoridades norte-americanas para estimular medidas contrárias aos interesses brasileiros e obter vantagens eleitorais.

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Brasília (DF), 08/01/2026 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa da cerimônia relativa aos atos antidemocráticos de 8 de janeiro e assina veto integral ao PL da Dosimetria. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
(Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil)

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O presidente classificou os adversários como “falsos patriotas” e afirmou que a imposição das tarifas faria parte de uma articulação construída com a participação da família do ex-presidente Jair Bolsonaro. Flávio e Eduardo Bolsonaro negam a acusação.

A controvérsia ganhou peso porque, em 2025, Donald Trump havia associado uma rodada anterior de tarifas ao processo judicial contra Jair Bolsonaro. Eduardo Bolsonaro também afirmou naquele período que atuou junto a autoridades norte-americanas para pressionar o judiciário do Brasil em razão da situação jurídica do pai.

Com isso, o tarifaço passou a ser disputado por duas narrativas. De um lado, governo e aliados acusam a família Bolsonaro de trabalhar contra o país. De outro, a oposição sustenta que Lula provocou sucessivos conflitos diplomáticos e conduziu mal as negociações com Washington.

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Superávit norte-americano está no centro da controvérsia

Outro ponto central do debate é o saldo comercial entre os dois países. O governo brasileiro afirma que os Estados Unidos acumularam US$ 424,5 bilhões em superávit no comércio de bens e serviços com o Brasil durante os últimos 15 anos.

O valor foi apresentado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços com base em estatísticas produzidas pelo próprio governo norte-americano.

Os dados oficiais dos Estados Unidos confirmam que a relação bilateral é amplamente favorável aos norte-americanos. Em 2025, as exportações de mercadorias dos EUA para o Brasil somaram US$ 54,4 bilhões, enquanto as importações de produtos brasileiros totalizaram US$ 39,9 bilhões. O resultado foi um superávit de US$ 14,4 bilhões para os Estados Unidos no comércio de bens.

A controvérsia, portanto, não está propriamente na existência do superávit. A divergência envolve o significado desse resultado para a disputa comercial.

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O governo Lula usa o saldo favorável aos Estados Unidos para argumentar que o Brasil não prejudica a economia norte-americana e que a sobretaxa seria injustificada. Washington, por sua vez, sustenta que o superávit agregado não impede que determinadas políticas brasileiras prejudiquem setores, trabalhadores ou empresas dos Estados Unidos.

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Na visão norte-americana, práticas relacionadas ao Pix, às tarifas sobre o etanol, à propriedade intelectual e ao comércio digital podem restringir a atuação de empresas dos EUA mesmo que o resultado total das trocas comerciais seja favorável ao país.

Por essa razão, não é correto afirmar que os Estados Unidos negam possuir superávit comercial com o Brasil. O que o governo Trump contesta é a conclusão brasileira de que esse superávit seria suficiente para afastar as acusações levantadas na investigação da Seção 301.

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Governo chegou a preparar resposta mais dura

Logo após o anúncio da tarifa, o governo brasileiro convocou ministros para avaliar uma resposta com base na Lei da Reciprocidade Econômica.

Entre as possibilidades discutidas estavam restrições à remessa de dividendos e royalties por empresas norte-americanas do setor audiovisual e até a suspensão temporária de proteções de patentes farmacêuticas e de sementes agrícolas. Também foi avaliada a retomada de questionamentos contra os Estados Unidos no sistema de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio.

A preferência inicial por medidas relacionadas à propriedade intelectual e aos serviços, em vez da aplicação de tarifas equivalentes sobre produtos norte-americanos, buscava reduzir os riscos de aumento de preços, inflação e desorganização de cadeias produtivas dentro do Brasil.

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Rio de Janeiro (RJ), 02/07/2026 – O ministro da Fazenda, Dario Durigan durante evento Brasil Mais Verde, 1º Fórum Econômico da Transformação Ecológica Brasileira, no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no centro do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
(Foto: Tomaz Silva / Agência Brasil)

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O tom do governo, entretanto, tornou-se mais cauteloso depois da repercussão entre empresários e exportadores. O ministro da Fazenda, Dario Durigan (foto), afirmou que o Brasil não discutia uma retaliação automática, mas a avaliação de possíveis medidas recíprocas.

Segundo Durigan, qualquer decisão deverá considerar as necessidades dos setores atingidos, a continuidade das negociações e os efeitos sobre a estabilidade econômica e fiscal do país.

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Empresários pedem diálogo e evitam confronto

Entidades empresariais brasileiras e norte-americanas têm pressionado os dois governos para impedir uma escalada comercial.

A CNI, a Câmara Americana de Comércio para o Brasil, a Amcham, e a U.S. Chamber of Commerce encaminharam uma proposta conjunta aos governos de Lula e Trump defendendo uma agenda estruturada de negociação.

As entidades sugeriram medidas de curto e longo prazo envolvendo acesso a mercados, cooperação regulatória, propriedade intelectual, minerais críticos, combate à pirataria, infraestrutura digital e aplicação de compromissos anticorrupção.

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Após a confirmação da tarifa, a CNI voltou a defender a intensificação do diálogo. A entidade considera que a prioridade deve ser a busca de soluções capazes de restabelecer a previsibilidade, preservar contratos e reduzir danos às indústrias dos dois países.

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A preocupação dos empresários é que uma resposta imediata do Brasil provoque uma nova reação dos Estados Unidos, gerando uma sequência de retaliações, aumento de tarifas e perda de mercados.

O setor produtivo também tenta impedir que o debate seja conduzido exclusivamente pela lógica eleitoral ou ideológica. Embora existam animosidades sobre a responsabilidade de Lula na crise, entidades e empresas diretamente atingidas defendem que as negociações sejam técnicas e concentradas na preservação das exportações, dos empregos e dos investimentos.

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Empresas já alertam para demissões

Os impactos já começam a ser sentidos em segmentos fortemente dependentes dos Estados Unidos. A indústria brasileira de calçados, por exemplo, reduziu sua projeção para as exportações de 2026.

Os Estados Unidos compram aproximadamente um em cada cinco pares de calçados exportados pelo Brasil. Empresários do setor afirmam que não existe outro mercado capaz de absorver rapidamente esse volume e alertam que, sem uma renegociação ou inclusão dos calçados na lista de exceções, poderão ocorrer cortes na produção e demissões.

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As exportações brasileiras para os Estados Unidos já caíram US$ 2,6 bilhões, ou 13%, no primeiro semestre de 2026 em comparação com o mesmo período de 2025. A retração foi puxada principalmente por produtos industriais, como ferro e aço, derivados de petróleo e celulose.

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Economistas e representantes empresariais também alertam que a instabilidade pode produzir consequências de longo prazo. Compradores norte-americanos podem evitar fornecedores brasileiros diante do risco de novas tarifas, enquanto empresas nacionais podem deixar de investir em linhas de produção voltadas aos Estados Unidos.

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Nova tarifa pode elevar cobrança a 37,5%

O cenário ainda pode piorar. O Brasil está incluído em outra investigação conduzida pelo USTR, relacionada à importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado.

A proposta prevê uma tarifa adicional de 12,5% contra países que, segundo os Estados Unidos, não possuem mecanismos adequados para impedir a entrada desses produtos.

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A conclusão dessa investigação está prevista para sexta-feira (24). Caso a cobrança seja confirmada e aplicada de forma cumulativa, determinados produtos brasileiros poderão enfrentar uma sobretaxa total de 37,5%.

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Enquanto isso, o governo brasileiro tenta conciliar três frentes: manter o diálogo com Washington, preparar medidas de apoio financeiro aos setores afetados e preservar a possibilidade de adotar instrumentos de reciprocidade.

A evolução da crise dependerá da disposição dos governos para separar as negociações comerciais da disputa política. Para o setor produtivo, quanto mais o confronto for conduzido por acusações eleitorais e provocações diplomáticas, menores serão as chances de uma solução rápida para as empresas e trabalhadores diretamente atingidos.

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