Jeitinho Brasileiro, dádiva ou castigo?

(*) Carlos Henrique Moreschi

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Outro dia me peguei pelas redes sociais assistindo a um vídeo cujo título bastante sugestivo dizia: “O Brasileiro deveria ser estudado pela NASA”. Me interessei imediatamente pelo vídeo mais pela curiosidade de saber por qual motivo a Agência Espacial Americana deveria se prestar a estudar os brasileiros. Me deparei com várias (e hilárias) invenções de brasileiros simples e humildes. Dentre elas havia uma motocicleta anfíbia, um carro com motor de motocicleta e um alegre cidadão que surfava as águas sujas de uma enxurrada.

Instantaneamente me veio à memória a expressão “jeitinho brasileiro”, esse atributo quase que exclusivo entre todas as nações e que algumas vezes é mencionado de forma muito pejorativa ao passo que em outras exaltado como um dom divino.

Mas, será mesmo que esse “dom” foi dado apenas a nós? Será que trata-se realmente de aptidões únicas para se lidar com o imprevisto?

Fui atrás de respostas para estas perguntas e encontrei as respostas em três palavras chave: Organização, Disciplina e Criatividade.

Os Alemães são os reis dos processos. Desde o processo de fabricação de um parafuso, até o processo para fixá-lo em uma aeronave, as atividades são muito bem organizadas e detalhadas até às minúcias. Cada etapa da fabricação é muito estudada e melhorada dezenas de vezes até que a perfeição e a excelência sejam atingidas. Desta forma, os erros são evitados e os imprevistos mitigados ao máximo (é obvio que não é possível eliminar totalmente o acontecimento de imprevistos). Num cenário como esse onde os processos estão presentes na vida e no dia-a-dia de um povo, onde desde as atividades mais básicas como cozinhar até as com mais alto grau de complexidade como dimensionar a linha de um TGV (Trem-Bala) estão presentes os fluxos de atividade, é quase desnecessário que se faça uso do “jeitinho”. Não há necessidade de improvisos, não há necessidade de lidar com contratempos causados pela procrastinação. Lá (diferente daqui), dá-se uma grande ênfase na fase de planejamento e projetos e a fase de execução é por consequência mais factível e isenta de retrabalhos, sem atropelos.

Como um grande exemplo (negativo) dessa paixão dos alemães pela organização e pelos processos foi a Segunda Guerra Mundial onde a Alemanha reinventou o modo como as guerras eram feitas e as batalhas travadas. Esse assunto carece de uma análise mais aprofundada, mas no intervalo de 20 anos entre as duas grandes guerras a Alemanha inovou nos armamentos, organizou seus exércitos, planejou um retorno triunfal ao protagonismo no cenário geopolítico mundial e trouxe ao mundo o horror da guerra.

Voltando ao “jeitinho” ou à falta dele, certa feita eu estava a ouvir o depoimento de um brasileiro que vivia no Japão. É unanimidade de que o povo japonês é exemplo de disciplina, e este brasileiro contava que na fábrica em que trabalhava, quando ocorria algum defeito ou mau funcionamento em seu equipamento de trabalho, a equipe de manutenção deveria ser chamada e que o operador da máquina era proibido de tentar consertar o equipamento por conta própria, por mais simples que fosse o defeito.

A disciplina, aliada a um processo muito bem definido e claro, é altamente recomendável para se evitar o uso de improvisos e tarefas desesperadas por falta de prazos. O fator surpresa, a cereja do bolo é justamente a Criatividade.

A criatividade dos brasileiros para lidar com situações adversas e para encontrar soluções inusitadas e onde ninguém mais ousou procurar é amplamente reconhecida, principalmente pelas maiores e melhores universidades do mundo além dela, da NASA.

Me lembro de uma história que ouvi de um senhor que possuía um carro não muito novo. Em um passeio pela zona rural de seu Estado, o veículo simplesmente deixou de funcionar. Como todo bom dono de carro velho, este senhor sabia mais ou menos qual era o defeito. Eureca!! Um pequeno fusível queimara por causa de uma sobrecarga. O senhor não demorou em encontrar uma solução para religar o carro. Sacou do bolso de sua camisa uma carteira de cigarros (o ministério da saúde adverte: fumar é prejudicial à saúde), retirou seu lacre metálico, enrolou-o e substituiu o fusível por essa pequena fita metálica. Foi embora com seu carro velho à espera do próximo defeito.

A criatividade permeia o DNA do brasileiro de modo tão natural talvez pelo risco ao qual é exposto. O Enorme risco de alguma coisa dar errado e assim mesmo ter de se virar sozinho e com as ferramentas e preparo que tem.

Frequentemente vemos no noticiário matérias sobre brasileiros que estão se destacando em áreas da ciência em alguma universidade ou instituto de renome no exterior. Também vemos a presença de executivos brasileiros que fazem a diferença e imprimem um modus peculiar de gerir em muitas multinacionais. Estes exemplos apenas figuram a essência da inteligência mal resolvida que paira sobre as terras tupiniquins.

Cabe ressaltar que não se deve confundir o “jeitinho brasileiro” com as soluções desonestas para resolução de problemas. Furar uma fila, burlar uma lei ou subornar um guarda de trânsito não é uma solução criativa, mas mau-caratismo mesmo.

Se você quer dar uma direção mais eficiente à sua empresa, não importa o tamanho dela, organize suas tarefas em processos que possam ser analisados, avaliados e sempre melhorados. Tenha disciplina e persistência em se manter organizado, não dê espaço para improvisos e dê asas à criatividade dos seus colaboradores estimulando-os a compartilhar boas ideias.

(*) Carlos Henrique Moreschi é Administrador, consultor financeiro e palestrante.

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1 COMENTÁRIO

  1. É interessante como certas características populacionais dizem sobre hábitos gerais da população, que por sua vez definem os resultados e os resultados os definem.
    Por exemplo, o “jeitinho brasileiro” (eufemismo para improviso) está aí e é um fato ponto final, mas para existir o “jeitinho brasileiro” é necessário existir inicialmente duas características que se complementam e revezam entre si: falta de planejamento e o “deixar para última hora” (procrastinação). Uma população ou indivíduo que tem como característica primeira a procrastinação carece de resultados ou seus resultados são medíocres, afinal só se faz algo se for obrigado ou se está com o relógio batendo na casa dos 45 do segundo tempo. Os resultados definem quem são as pessoas, pois sem os resultados as palavras são vazias. O exemplo maior disso é como Jesus Cristo se define em Mt 11,4. Desta forma, como é definida a pessoa que tem os resultados medíocres de por causa da procrastinação? Resposta: preguiçoso, indolente, morfético e outros adjetivos mais pejorativos.
    Portanto, eu penso que o “jeitinho brasileiro” é muito mais uma maldição do que uma benção, afinal quais são os resultados que temos hoje com esse tipo de atitude? Nossa economia está boa? A saúde? Segurança? E os países que combatem sistematicamente a procrastinação (EUA, Alemanha, Japão, …), como estão? Acredito que os resultados falam por si.

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